Acidente Voepass: o que são cegueira e surdez por desatenção de pilotos citadas pelo Cenipa em relatório final

Guia Modelo Escrito em 27/07/2026


Relatório do Cenipa identifica uma dinâmica de alta carga de trabalho na cabine Ao investigar a queda do avião da Voepass que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP), em agosto de 2024, o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) concluiu que um dos elementos que contribuíram para o acidente foi a redução da capacidade da tripulação de perceber e interpretar alertas emitidos pela própria aeronave. Para explicar esse comportamento, o órgão recorre a dois conceitos da psicologia cognitiva: inattentional blindness (cegueira por desatenção); e o inattentional deafness (surdez por desatenção). Os termos aparecem no relatório final divulgado na quinta-feira (23), que também aponta falhas da companhia aérea, da tripulação e da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) entre outros fatores. A psicóloga e doutora em neuropsiquiatria e ciências do comportamento Maria da Conceição Correia Pereira, especialista em fatores humanos em ambientes complexos, com atuação de mais de 30 anos em aviação, explica que esses fenômenos não significam distração, negligência ou falta de preparo do profissional – embora os nomes possam sugerir falhas nos sentidos. "Quando a gente fala de fator humano, é importante destacar que isso não significa culpa ou negligência. A psicologia cognitiva e a neurociência mostram que o nosso cérebro possui limites naturais, especialmente para processar informações", afirma. ⚠️ Importante: os fenômenos da cegueira e da surdez por desatenção não aparecem no relatório como causadores diretos do acidente, mas, sim, como mecanismos cognitivos que ajudam a explicar por que determinados alertas podem não ter sido percebidos em um contexto de alta carga de trabalho do piloto e do copiloto. Não é um problema de visão nem de audição De acordo com o Cenipa, os pilotos estavam submetidos a uma elevada carga de trabalho na fase final do voo. Ao mesmo tempo em que precisavam gerenciar o acúmulo de gelo na aeronave, lidar com falhas no sistema de degelo, manter contato com a torre e realizar procedimentos para a aproximação, também mantiveram conversas de caráter pessoal. Nesse cenário, os investigadores avaliam que a capacidade de reconhecer e processar alertas visuais e sonoros foi afetada. O documento destaca, por exemplo, que o sinal sobre perda de desempenho foi emitido quando os pilotos realizavam comunicações com o controle de tráfego, mas as gravações da cabine não registraram qualquer manifestação de que os avisos tenham sido discutidos. A psicóloga destaca que a cabine de um avião é um ambiente onde diversas informações disputam atenção ao mesmo tempo: instrumentos de voo, condições meteorológicas, comunicações por rádio, alarmes, procedimentos e tomada de decisões rápidas. "O cérebro precisa selecionar o que será priorizado. É justamente aí que entram esses fenômenos", explica. O que é a cegueira por desatenção? A cegueira por desatenção acontece quando uma pessoa está olhando para determinada informação, mas o cérebro, completamente concentrado em outra tarefa, deixa de processá-la de forma consciente. Em outras palavras, os olhos enxergam, mas a informação não chega à consciência. Na prática, isso significa que um piloto pode ter um alerta luminoso piscando no painel à sua frente e, ainda assim, não perceber seu significado porque sua atenção está totalmente voltada para outra demanda considerada mais urgente naquele momento. "É um fenômeno da atenção, e não da visão. A pessoa está olhando para aquela informação, mas o cérebro está tão concentrado em outra tarefa que ela não é processada conscientemente. Os olhos enxergam, mas o cérebro não registra aquilo que foi visto", resume a especialista. E a surdez por desatenção? Na surdez por desatenção, o mecanismo é praticamente o mesmo, mas envolve sons. Nesse caso, o alerta sonoro chega normalmente aos ouvidos, porém deixa de receber atenção suficiente para ser interpretado pelo cérebro. "Não é uma perda da audição. O som chega normalmente, mas, diante da elevada carga cognitiva, o cérebro pode deixar de atribuir significado àquele alerta. É uma limitação da atenção", explica Maria da Conceição. Em uma cabine de comando, vários sons podem ocorrer simultaneamente: comunicações com a torre, avisos eletrônicos, ruído dos motores e conversas. Quando o cérebro está sobrecarregado, alguns desses estímulos podem deixar de ser priorizados. Por que isso aconteceria com pilotos experientes? Conceição diz que a neurociência mostra que o cérebro não registra tudo o que vê ou escuta. Em vez disso, ele faz uma seleção contínua das informações que considera mais relevantes naquele momento. Dessa forma: esse é um comportamento esperado do cérebro humano, inclusive em profissionais altamente treinados; a ocorrência desses fenômenos não significa falta de habilidade ou cuidado. Diante de um grande volume de informações, o cérebro funciona como um filtro e direciona seus recursos para aquilo que considera mais importante naquele momento. Quando esse foco está totalmente voltado para uma demanda crítica, outros estímulos podem deixar de ser processados conscientemente. "A atenção funciona muitas vezes como um holofote. Ela ilumina aquilo que estamos processando conscientemente. Quando esse foco está totalmente direcionado para uma demanda urgente, outras informações podem passar despercebidas." ↔️ Entenda: um exemplo comum é quando o motorista faz uma curva e esquece a seta ligada. Embora o aviso sonoro continue sendo emitido dentro do carro e a luz pisque no painel, o condutor pode deixar de notar os avisos porque está prestando atenção em outras tarefas, como observar, trânsito ou trocar de faixa ou olhar o GPS. Resumindo, o treinamento reduz riscos, mas não elimina as limitações naturais do cérebro. Mesmo pilotos altamente capacitados podem ter a atenção comprometida em situações de estresse e elevada carga cognitiva, quando diversos estímulos competem ao mesmo tempo pelos recursos de atenção. Treinamento e tecnologia podem contornar a desatenção Para a psicóloga, a prevenção depende da combinação entre tecnologia, treinamento e uma cultura organizacional voltada à segurança. Ela defende que, além do treinamento técnico, pilotos sejam preparados para compreender como o cérebro funciona em situações de alta complexidade. Isso inclui simulações que exercitem não apenas procedimentos operacionais, mas também: gerenciamento da atenção; gerenciamento da carga cognitiva; melhora da consciência situacional, que é a capacidade de compreender o que acontece ao redor da aeronave, antecipar riscos e tomar decisões com base nesse cenário. Conceição também cita a importância de fortalecer os treinamentos em fatores humanos e estimular uma cultura em que situações de risco possam ser reportadas e transformadas em aprendizado. LEIA TAMBÉM: Avião da Voepass que caiu não poderia ter decolado, aponta Cenipa Acidente Voepass: Cenipa cita conversas pessoais de pilotos durante voo e 'esquecimento' de acionar sistema de degelo Cenipa aponta 'cultura de normalização de desvios' na Voepass em relatório sobre acidente de 2024 O próprio relatório do Cenipa mostra que a tecnologia também pode ser aprimorada para compensar limitações da percepção humana. Após o acidente, a fabricante ATR desenvolveu uma nova versão do sistema de monitoramento de desempenho da aeronave (APM). Além disso, a empresa criou de um intervalo mínimo de 60 segundos antes que um alerta desapareça do painel. Segundo o Cenipa, a medida busca evitar o chamado efeito de flickering, quando avisos surgem e desaparecem rapidamente, o que pode fazer com que as tripulações se acostumem com essas mensagens e passem a atribuir menos importância a elas. "A segurança não depende apenas de evitar erros. Ela depende de construir organizações capazes de antecipar as limitações humanas e criar sistemas de defesa e barreiras que impeçam que essas limitações se transformem em acidentes", conclui a especialista. O que foi analisado pelo Cenipa? Tragédia da Voepass: vídeo mostra como foi acidente de avião em Vinhedo Ao longo da investigação, o órgão fez dezenas de perícias para reconstruir o voo e entender a sequência de eventos que levou à queda da aeronave. ➡️ Entre os principais trabalhos realizados estão: análise das duas caixas-pretas (gravador de voz da cabine e gravador de dados de voo); reconstrução completa do voo, incluindo comandos feitos pelos pilotos e alertas emitidos pela aeronave; exames nos motores e nos sistemas de degelo e de proteção contra estol; análise das condições meteorológicas registradas no dia do acidente; entrevistas com pilotos, mecânicos, despachantes e familiares dos tripulantes; estudo de mais de 15 mil voos realizados por aeronaves da mesma frota da companhia; testes em simuladores e um voo experimental com outro ATR 72-500; análise de registros de manutenção, certificados médicos dos pilotos e outros documentos técnicos. Conforme o Cenipa, também foram analisados equipamentos responsáveis pelo controle de diferentes sistemas da aeronave e até as lâmpadas dos painéis do avião para verificar quais estavam acesas no momento da queda. Escombros de avião em Vinhedo (SP) neste sábado, dia 10 de agosto de 2024 Nelson Almeida/AFP Relembre o acidente O acidente aconteceu em 9 de agosto de 2024. O ATR 72-500, matrícula PS-VPB, fazia o voo entre Cascavel (PR) e o Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP) quando caiu no quintal de uma casa em um condomínio de Vinhedo (SP). As 62 pessoas a bordo, incluindo 58 passageiros e quatro tripulantes, morreram. Nenhum morador da residência atingida ficou ferido. Foi o acidente mais grave da aviação brasileira desde o desastre com o voo da TAM, em 2007. O que diz a Voepass A Voepass informou que a tragédia foi o episódio mais difícil da história da empresa e que, desde o momento do acidente, esteve solidária às famílias das vítimas e atua de forma transparente junto ao Cenipa e às autoridades públicas, à disposição para colaborar com o que for necessário. Além disso, a empresa afirmou que sempre adotou procedimentos sérios de segurança, capacitação e orientação de tripulação, com a atuação sempre pautada em padrões de segurança internacionais. Por fim, garantiu que a tripulação do voo que caiu era experiente, capacitada e devidamente certificada, com mais de 5 mil horas de voo e com treinamentos técnicos e acompanhamentos de saúde atualizados, sem qualquer registro prévio ou fator que impedisse a atuação. Infográfico - Como era o avião que caiu em Vinhedo Arte g1 VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas