Hortifruti fresquinho, ponto de encontro e fonte de renda: há quase 100 anos, feira livre de Itapetininga movimenta a economia e a vida social

Guia Modelo Escrito em 28/03/2026


Há quase 100 anos, feira livre de Itapetininga movimenta a economia e a vida social Toda quinta-feira e domingo, os moradores de Itapetininga (SP) já têm um compromisso certo: acordar cedo e ir à feira. Entre as barracas, encontram de tudo, hortifrutis fresquinhos, o tradicional pastel, caldo de cana e até a oportunidade de reencontrar amigos e parentes. Mas a feira, que existe há 98 anos na cidade, vai muito além da venda de frutas, legumes e verduras: é um ponto de encontro que reúne histórias, fortalece laços e mantém viva a tradição entre feirantes e moradores. 📲 Participe do canal do g1 Itapetininga e Região no WhatsApp Fundada em 1928, a feira livre de Itapetininga é realizada na Avenida Peixoto Gomide, na região central da cidade. De acordo com a prefeitura, mais de 5 mil pessoas circulam pelo local aos domingos. Atualmente, cerca de 200 trabalhadores integram essa estrutura, que também movimenta a economia regional ao reunir feirantes de cidades como São Miguel Arcanjo, Tatuí e Capela do Alto. “É uma das maiores e mais tradicionais do interior paulista, consolidando-se como patrimônio cultural e econômico da cidade. A feira é reconhecida pela transmissão de saberes familiares e pela força do trabalho dos pequenos agricultores. Sendo importante alavanca comercial e contribuindo significativamente para a economia local”, aponta a prefeitura. Na feira de Itapetininga, os visitantes podem conferir produtos como frutas, legumes, verduras e até animais Pâmela Beker/g1 🌾50 anos de feirante A feira é vantajosa não apenas para os consumidores, mas também para produtores rurais e agricultores familiares da região, que encontram ali um espaço para comercializar seus produtos sem precisar se deslocar para longe. Entre os feirantes mais antigos está Kenzo Kato, de 81 anos. Ele iniciou sua trajetória na feira livre há exatos 50 anos, em março de 1976. Desde então, os clientes encontram a barraca de ovos no mesmo ponto da avenida, em frente a uma loja de defumados. LEIA TAMBÉM: Atores do interior de SP participam de minissérie que relata acidente com Césio-137: 'Experiência muito especial' Mais doce que cana-de-açúcar: conheça a uva pilar moscato, variedade gourmet do interior de SP que já custou R$ 200 o quilo Vendido por até R$ 10 mil o quilo, wasabi tem única produção em escala comercial da América Latina no interior de SP Aos 31 anos, Kenzo deixou Campinas e retornou a Itapetininga, onde começou a trabalhar como entregador em uma granja. Pouco tempo depois, passou a produzir ovos, mas acabou deixando a atividade para se dedicar exclusivamente à venda do produto. “Eu gosto daquilo que eu faço. Se você não gostasse do que faz, não aguenta. Em 50 anos nunca tirei férias. Eu atendo todos os públicos, gosto do convívio na feira”, disse ao g1. Kenzo Kato participa da feira em Itapetininga há 50 anos Cláudio Nascimento/TV TEM Se quem vai à feira acorda cedo, quem trabalha nela começa o dia ainda antes. Kenzo levanta às 5h30 e, ao lado do filho, monta a barraca e organiza os produtos. Com ou sem freguesia, ele está sempre lá. Para o feirante, a regra é clara: cabe a ele esperar pelos clientes, nunca o contrário. “Eu dou muito valor. Quero continuar trabalhando. Cansado a gente fica, né? Mas eu não quero parar." Há 50 anos, Kenzo Kato vende ovos na feira livre de Itapetininga (SP) Soraia Kato Os muitos anos no mesmo ponto permitiram ao feirante observar mudanças no perfil de quem trabalha na feira. Segundo ele, hoje há mais jovens no ramo. Ainda assim, algumas tradições permanecem: barracas que passam de pais para filhos e a presença de idosos aposentados, que encontram na atividade uma forma de complementar a renda. Para Kenzo, os alimentos vendidos na feira se destacam em relação aos dos supermercados, tanto no preço quanto na qualidade. Ele também ressalta a importância do bom atendimento. “Queria que as pessoas da feira pensassem no atendimento com o cliente, porque isso eu acho fundamental”. A feira livre de Itapetininga acontece tradicionalmente na Avenida Peixoto Gomide há mais de 90 anos Pâmela Beker/g1 📽️Tema de websérie Em Itapetininga, os moradores podem visitar a feira livre à quinta-feira e aos domingos, das 7h às 12h Pâmela Beker/g1 “A ideia desta produção surgiu a partir da valorização desse patrimônio cultural. Eu identifico que a feira livre é o evento mais característico da nossa região.” O relato acima é do agente cultural Lucas Diniz Pererê, de 40 anos, responsável pela produção de uma websérie documental de oito episódios que conta a história da feira. Embora tenha nascido em Itapetininga, ele conheceu o evento por meio de professores peruanos, que haviam visitado o espaço e se impressionado. Na época, o casal, dava aulas em uma escola de Sorocaba, onde Lucas era aluno. “A gente nasceu aqui e não percebe o quão grandiosa é a feira. As feiras em Sorocaba são menores, eu não vivo lá, então acho que é mais fria. Não tem essa relação que a gente vê aqui. As pessoas vão, compram e saem, mas aqui você percebe uma relação social acontecendo no entorno da feira livre”, analisa Lucas. Reconhecendo a importância desse espaço para a cidade, Lucas Diniz Pererê teve a ideia de produzir o documentário. A cada episódio, o projeto revela o cotidiano de agricultores familiares, produtores rurais, artesãos, artistas populares e trabalhadores que fazem da feira um território de diversidade, identidade cultural e economia solidária. “Não cabia em um documentário só. Não caberia em 40 minutos. Entrevistei basicamente os produtores e algumas pessoas que tem a feira como um espaço para divulgação de ideias, né?”, conta. Ao todo, segundo a prefeitura, cerca de 5 mil pessoas passam pela feira livre de Itapetininga no domingo Pâmela Beker/g1 Ele reforça que a feira também funciona como um ponto de encontro entre os moradores, um espaço para rever familiares, amigos e até reencontrar pessoas que não viam há muito tempo. O documentário levou cerca de um ano para ser finalizado. “É um espaço que realmente me anima, me motiva bastante. Conseguimos fazer o lançamento em novembro, em homenagem ao aniversário da cidade. Foram entrevistadas mais de 30 pessoas, com 13 protagonistas”, explica. O produtor buscou ouvir tanto produtores rurais quanto participantes da feira, e publicou o conteúdo em suas redes sociais. Segundo ele, a repercussão superou as expectativas. “Uma coisa que eu não esperava foi a gratidão de muitos ao verem que seus episódios tiveram bastante visualização”, conta. Para Lucas, dar visibilidade a essas histórias foi um dos pontos mais importantes do trabalho. “Foi uma coisa que eu não esperava ter recebido. Teve muita repercussão, realmente esse vídeo. Repercussão com pessoas próximas, da nossa comunidade. Essas pessoas se sentiram muito felizes, satisfeitas de poderem ter participado, sido retratadas, se sentiram valorizadas”. A websérie de Lucas Pererê está disponível na internet. *Colaborou sob a supervisão de Larissa Pandori Initial plugin text Veja mais notícias no g1 Itapetininga e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM