Praça Roosevelt, no centro da cidade, será concedida à iniciativa privada A Prefeitura de São Paulo abriu consulta pública para conceder a Praça Roosevelt, no Centro da capital, à iniciativa privada. O projeto prevê reformas, ampliação de áreas verdes e melhorias na ligação com o Parque Augusta, mas tem gerado preocupação entre frequentadores, que temem restrições de acesso e aumento dos preços cobrados no local. A concessão terá prazo de 20 anos e movimentará, segundo estimativa da Prefeitura de São Paulo, cerca de R$ 55,8 milhões ao longo da vigência do contrato. O valor considera investimentos, despesas operacionais e os pagamentos que a futura concessionária deverá fazer ao município (leia mais abaixo). A audiência pública será realizada de forma virtual em 17 de junho, às 10h. As contribuições da população poderão ser enviadas até 1º de julho, por meio de um formulário virtual, que deverá ser enviado ao email sgmparcerias@prefeitura.sp.gov.br. A proposta estabelece que a futura concessionária seja responsável por manutenção, limpeza, segurança e zeladoria da praça. Entre as intervenções previstas estão a reforma do pergolado, a recuperação de dois quiosques e a ampliação do cachorródromo. Parte da área da Praça Roosevelt que será reservada aos skatistas Márcio Pinho/G1 O projeto também prevê uma conexão direta entre a Praça Roosevelt e o Parque Augusta pela Rua Gravataí. O trecho deverá receber jardins de chuva, novas árvores, iluminação e mobiliário urbano. Segundo a prefeitura, o acesso ao espaço continuará livre e gratuito. As regras da concessão proíbem o fechamento parcial ou total da praça para a realização de eventos. Mesmo assim, a proposta divide opiniões. "Eu acho que o poder público tem, sim, recursos pra manter a praça, para reformar a praça. Aqui é uma praça de todo mundo, aberta para todo mundo. Eu acho que ela tem que seguir sendo integralmente pública", afirmou o analista de sistemas Sidnei Viana. Sidnei cita o Vale do Anhangabaú como exemplo do que teme que aconteça na Roosevelt. Segundo ele, o local recebe eventos privados e fica "todo fechado, todo lacrado". "Hoje você vai ter qualquer evento no Anhangabaú, ele é todo fechado, todo lacrado. Eu acho que nenhuma empresa privada vai assumir a Praça Roosevelt sem querer lucrar e aproveitar desse trânsito de alguma maneira", disse. A chef de cozinha Luana Suave também questiona se a concessão manterá os serviços acessíveis. "O pessoal vai lá no Ibirapuera, paga R$ 10 numa água de coco. Eu vou com uma família de cinco pessoas, já são R$ 50 de água de coco. Será que essa concessão vai ser acessível ao povo?", afirmou. Concessão A concessão terá duração de 20 anos e movimentará cerca de R$ 55,8 milhões ao longo do contrato, segundo estimativa da prefeitura. A empresa vencedora será escolhida pelo maior lance oferecido ao município. O edital estabelece que a empresa interessada deverá pagar à prefeitura um valor mínimo de R$ 2,96 milhões para assumir a gestão do complexo. Vencerá a licitação quem apresentar a maior oferta acima deste valor. O contrato também prevê pagamentos periódicos ao município e compartilhamento de receitas obtidas com a exploração econômica do espaço. Entre as fontes de arrecadação previstas está a comercialização dos chamados naming rights, que permitem associar uma marca privada ao nome da Praça Roosevelt. Participação da comunidade Para o arquiteto e urbanista Ciro Pirondi, uma eventual concessão pode ser positiva caso preserve o caráter público da praça. "A praça é uma praça pública. Os interesses privados têm de encontrar uma harmonia. Não é que eu sou contra fazer. Mas nós precisamos encontrar uma harmonia nesse processo. Que não é fácil", disse. Segundo ele, projetos urbanos bem-sucedidos dependem de vontade política, competência técnica e participação da população. "O que muda um lugar urbano é quando existe uma vontade política sincera, uma competência técnica e o envolvimento da população", afirmou. Pirondi acrescenta que, diante da incapacidade do poder público de gerir determinados espaços, uma concessão pode ser melhor do que o abandono. "Se a administração pública não tem condição de continuar gerindo aquilo, é melhor do que o abandono. Mas dar um uso precisa ter fatores fundamentais em qualquer ação urbana em qualquer parte do mundo", afirmou. Polo cultural A discussão sobre o futuro da Roosevelt acontece em um dos principais polos culturais do Centro de São Paulo. Nas décadas de 1950 e 1960, bares da região se tornaram redutos da bossa nova e receberam artistas como João Gilberto, Johnny Alf e Baden Powell. Foi também na região que Elis Regina fez uma de suas primeiras apresentações em São Paulo. No entorno da praça estão espaços como o Cine Bijou, o Espaço Parlapatões, o Teatro Satyros e o Teatro Cultura Artística. Para o diretor teatral Rodolfo García Vázquez, a comunidade que utiliza o espaço deve participar da discussão. "Quando você pensa em iniciativa privada, você sempre pensa que a iniciativa privada visa o lucro. E nem sempre o lucro tem a ver com os interesses de uma comunidade. Então eu acho que, se a gente sentar, conversar, dialogar e criar algo juntos, seria algo que a gente poderia pensar numa boa solução pra praça", afirmou. Em nota, a prefeitura informou que o projeto segue os procedimentos previstos para concessões municipais.
Prefeitura propõe conceder Praça Roosevelt à iniciativa privada; frequentadores temem restrição de acesso e aumento de preços
Guia Modelo Escrito em 09/06/2026
Praça Roosevelt, no centro da cidade, será concedida à iniciativa privada A Prefeitura de São Paulo abriu consulta pública para conceder a Praça Roosevelt, no Centro da capital, à iniciativa privada. O projeto prevê reformas, ampliação de áreas verdes e melhorias na ligação com o Parque Augusta, mas tem gerado preocupação entre frequentadores, que temem restrições de acesso e aumento dos preços cobrados no local. A concessão terá prazo de 20 anos e movimentará, segundo estimativa da Prefeitura de São Paulo, cerca de R$ 55,8 milhões ao longo da vigência do contrato. O valor considera investimentos, despesas operacionais e os pagamentos que a futura concessionária deverá fazer ao município (leia mais abaixo). A audiência pública será realizada de forma virtual em 17 de junho, às 10h. As contribuições da população poderão ser enviadas até 1º de julho, por meio de um formulário virtual, que deverá ser enviado ao email sgmparcerias@prefeitura.sp.gov.br. A proposta estabelece que a futura concessionária seja responsável por manutenção, limpeza, segurança e zeladoria da praça. Entre as intervenções previstas estão a reforma do pergolado, a recuperação de dois quiosques e a ampliação do cachorródromo. Parte da área da Praça Roosevelt que será reservada aos skatistas Márcio Pinho/G1 O projeto também prevê uma conexão direta entre a Praça Roosevelt e o Parque Augusta pela Rua Gravataí. O trecho deverá receber jardins de chuva, novas árvores, iluminação e mobiliário urbano. Segundo a prefeitura, o acesso ao espaço continuará livre e gratuito. As regras da concessão proíbem o fechamento parcial ou total da praça para a realização de eventos. Mesmo assim, a proposta divide opiniões. "Eu acho que o poder público tem, sim, recursos pra manter a praça, para reformar a praça. Aqui é uma praça de todo mundo, aberta para todo mundo. Eu acho que ela tem que seguir sendo integralmente pública", afirmou o analista de sistemas Sidnei Viana. Sidnei cita o Vale do Anhangabaú como exemplo do que teme que aconteça na Roosevelt. Segundo ele, o local recebe eventos privados e fica "todo fechado, todo lacrado". "Hoje você vai ter qualquer evento no Anhangabaú, ele é todo fechado, todo lacrado. Eu acho que nenhuma empresa privada vai assumir a Praça Roosevelt sem querer lucrar e aproveitar desse trânsito de alguma maneira", disse. A chef de cozinha Luana Suave também questiona se a concessão manterá os serviços acessíveis. "O pessoal vai lá no Ibirapuera, paga R$ 10 numa água de coco. Eu vou com uma família de cinco pessoas, já são R$ 50 de água de coco. Será que essa concessão vai ser acessível ao povo?", afirmou. Concessão A concessão terá duração de 20 anos e movimentará cerca de R$ 55,8 milhões ao longo do contrato, segundo estimativa da prefeitura. A empresa vencedora será escolhida pelo maior lance oferecido ao município. O edital estabelece que a empresa interessada deverá pagar à prefeitura um valor mínimo de R$ 2,96 milhões para assumir a gestão do complexo. Vencerá a licitação quem apresentar a maior oferta acima deste valor. O contrato também prevê pagamentos periódicos ao município e compartilhamento de receitas obtidas com a exploração econômica do espaço. Entre as fontes de arrecadação previstas está a comercialização dos chamados naming rights, que permitem associar uma marca privada ao nome da Praça Roosevelt. Participação da comunidade Para o arquiteto e urbanista Ciro Pirondi, uma eventual concessão pode ser positiva caso preserve o caráter público da praça. "A praça é uma praça pública. Os interesses privados têm de encontrar uma harmonia. Não é que eu sou contra fazer. Mas nós precisamos encontrar uma harmonia nesse processo. Que não é fácil", disse. Segundo ele, projetos urbanos bem-sucedidos dependem de vontade política, competência técnica e participação da população. "O que muda um lugar urbano é quando existe uma vontade política sincera, uma competência técnica e o envolvimento da população", afirmou. Pirondi acrescenta que, diante da incapacidade do poder público de gerir determinados espaços, uma concessão pode ser melhor do que o abandono. "Se a administração pública não tem condição de continuar gerindo aquilo, é melhor do que o abandono. Mas dar um uso precisa ter fatores fundamentais em qualquer ação urbana em qualquer parte do mundo", afirmou. Polo cultural A discussão sobre o futuro da Roosevelt acontece em um dos principais polos culturais do Centro de São Paulo. Nas décadas de 1950 e 1960, bares da região se tornaram redutos da bossa nova e receberam artistas como João Gilberto, Johnny Alf e Baden Powell. Foi também na região que Elis Regina fez uma de suas primeiras apresentações em São Paulo. No entorno da praça estão espaços como o Cine Bijou, o Espaço Parlapatões, o Teatro Satyros e o Teatro Cultura Artística. Para o diretor teatral Rodolfo García Vázquez, a comunidade que utiliza o espaço deve participar da discussão. "Quando você pensa em iniciativa privada, você sempre pensa que a iniciativa privada visa o lucro. E nem sempre o lucro tem a ver com os interesses de uma comunidade. Então eu acho que, se a gente sentar, conversar, dialogar e criar algo juntos, seria algo que a gente poderia pensar numa boa solução pra praça", afirmou. Em nota, a prefeitura informou que o projeto segue os procedimentos previstos para concessões municipais.