Natanzinho Lima tomou pílula já usada irregularmente por estudantes e concurseiros; médicos alertam para os riscos

Guia Modelo Escrito em 22/05/2026


Natanzinho Lima dança no palco do Ribeirão Rodeo Music 2026 em Ribeirão Preto, SP Érico Andrade/g1 O cantor Natanzinho Lima contou em participação no podcast "Podpah" que tomou cápsulas do remédio "Venvanse" (lisdexanfetamina) para conseguir dar conta da rotina de shows. A declaração reacendeu o debate sobre o uso de estimulantes do sistema nervoso central — categoria que inclui também o metilfenidato, vendido comercialmente como Ritalina e Concerta — para dar conta de jornadas exaustivas de trabalho ou estudo. Entre universitários e concurseiros, esses medicamentos chegaram a ganhar o apelido de "pílulas da inteligência". A promessa: turbinar concentração e desempenho em provas, plantões e maratonas de estudo. Mas, segundo especialistas ouvidos pelo g1, não há comprovação científica de que essas drogas aumentem a inteligência de quem não tem o transtorno para o qual elas foram desenvolvidas. E o uso indiscriminado pode trazer efeitos colaterais como aumento da ansiedade, dores de cabeça, perda de apetite, alucinações e até piora de quadros psiquiátricos preexistentes. Abaixo, entenda por quê. Agora no g1 O que são esses medicamentos e como eles agem? Tanto o metilfenidato (Ritalina, Concerta) quanto a lisdexanfetamina (Venvanse) pertencem à classe dos psicoestimulantes, drogas que excitam o sistema nervoso central. Na mesma família estão substâncias como cafeína, nicotina, cocaína e anfetaminas — todas capazes de alterar o estado de humor e aumentar o estado de alerta do corpo. 🧠 A ação acontece nas sinapses, regiões de contato entre os neurônios onde são trocadas as informações que comandam o funcionamento do organismo. Essa comunicação é feita por moléculas mensageiras chamadas neurotransmissores, liberadas de uma célula nervosa para outra. Normalmente, depois de transmitir o recado, os neurotransmissores são degradados ou retornam para o neurônio que os liberou. ➡️ O metilfenidato atua justamente inibindo essa recaptação, o que mantém as substâncias ativas por mais tempo na sinapse e estimula os neurônios de forma prolongada — entre eles, os ligados aos processos de concentração. ➡️ Já a lisdexanfetamina, derivada da anfetamina, aumenta a disponibilidade de dois neurotransmissores no cérebro: a noradrenalina e a dopamina — esta última ligada às sensações de bem-estar e recompensa. O resultado é uma elevação acentuada do vigor, da disposição e da energia, com efeito estimulante mais potente do que o do metilfenidato. Para que servem, de fato? O metilfenidato é indicado para o tratamento do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) em crianças e adultos e também para narcolepsia. A lisdexanfetamina, por sua vez, é indicada para TDAH e para o transtorno de compulsão alimentar. Vendido em cápsulas de 30mg, 50mg e 70mg, sua comercialização exige a retenção de receita médica. O médico psiquiatra e professor do departamento de psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, Amilton Santos Jr., explica que o precursor do metilfenidato começou a ser estudado nos anos 50, inicialmente como um remédio para enxaqueca. A ideia logo foi descartada — os cientistas perceberam que a substância, na verdade, piorava o quadro. Por outro lado, observaram que crianças mais distraídas e agitadas ficavam mais concentradas com a medicação. Daí veio a aplicação atual, depois de décadas de aprimoramento da fórmula. Ainda assim, ressalta o psiquiatra, nem todo caso de TDAH precisa de remédio. "Ele não é cura. Não é o único tratamento que existe. A gente sempre fala: em saúde mental nada prescinde de abordagens não farmacológicas", afirma o médico. O uso indiscriminado do medicamento em doses não controladas pode resultar no aumento da ansiedade, dores de cabeça, perda de apetite e até mesmo, em alguns casos mais raros, alucinações. Pexels E para quem não tem o transtorno? Esses medicamentos devem ser administrados conforme as necessidades de cada paciente, com avaliação individual feita por um especialista. Em quem tem TDAH, os efeitos de melhora cognitiva são bem documentados. "Os efeitos de melhora cognitiva do metilfenidato são claramente comprovados em pessoas com diagnóstico de TDAH", diz Henrique Bottura, diretor clínico do Instituto de Psiquiatria Paulista. Em quem não tem o transtorno, a história é outra. Bottura afirma que, em doses terapêuticas e indicações adequadas, o metilfenidato ajuda a tratar sintomas como desatenção, inquietação e impulsividade — mas em pessoas sem o diagnóstico, a eficácia no desempenho cognitivo é discutível. Faltam evidências de efeitos a longo prazo do medicamento sobre o desempenho acadêmico. Alguns estudos chegaram a avaliar implicações da droga no desempenho matemático de crianças e adolescentes, mas os ganhos observados foram muito baixos. "Hoje em dia muitas pessoas utilizam esses medicamentos para melhorar a atenção, até porque hoje ela é muito mais desafiada do que anos atrás. No entanto, o benefício [do metilfenidato] para isso não é comprovado", destaca. Santos Jr. acrescenta que a droga pode até manter alguém acordado por mais tempo — e, portanto, estudando mais. Mas o descanso depois do estudo, pondera, é igualmente importante: é durante o sono que o cérebro organiza as sinapses e consolida o que foi aprendido no período em que esteve desperto. "Mas [o metilfenidato] não aumenta a inteligência de uma pessoa. O que ele faz é, durante o seu período de atuação no organismo, aumentar a janela atencional, o período pelo qual a pessoa consegue ficar um pouco mais tempo concentrada", afirma. Já em pessoas que não têm o transtorno, o uso da lisdexanfetamina pode acabar tendo efeito contrário ao desejado. Em doses mais altas, anfetaminas como a do Venvanse podem levar à diminuição da memória e da atenção — justamente o oposto do que busca quem recorre ao remédio para render mais. Há ainda risco de rabdomiólise, que é a quebra de tecido muscular, e de hepatite. O organismo também desenvolve tolerância: a pessoa passa a precisar de doses cada vez maiores para obter o mesmo efeito. Os riscos vão além. O uso sem indicação pode causar aumento da pressão arterial, alterações no ritmo cardíaco e até lesão cerebral, já que a substância pode elevar os neurotransmissores no cérebro acima do necessário. Em doses muito altas, há sobrecarga sobre o coração — quem já tem pressão alta entra em um grupo especialmente vulnerável, porque o remédio acelera os batimentos e eleva ainda mais a pressão. Em casos extremos, o uso sem acompanhamento médico pode colocar a vida da pessoa em risco. Pílulas de medicamentos espalhadas sobre uma mesa e um copo. Pexels/Divulgação. Quais são os riscos do uso sem prescrição? A automedicação com esse tipo de remédio pode acabar não ajudando o desempenho de quem busca um "up" nos estudos — e, em alguns casos, resultar em problemas sérios de saúde. O pesquisador Fernando Freitas, do Laboratório de Saúde Mental e Atenção Psicossocial da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), aponta que, como esses medicamentos alteram a química do cérebro e provocam um efeito calmante na turbulência mental, vão criando uma dependência psicológica que estimula a necessidade de aumento da dose. "Ele ajuda você a concentrar. Você consegue ter mais foco naquilo, fica com mais atenção, mas isso é algo passageiro", lembra. O problema, segundo Santos Jr., é que se a pessoa já tinha níveis de atenção normais, o efeito é como se ela tomasse uma "overdose de cafeína". O uso indiscriminado em doses não controladas pode resultar em aumento da ansiedade, dores de cabeça, perda de apetite e até, em casos mais raros, alucinações e piora de quadros de esquizofrenia ou transtorno bipolar. A questão, defende o médico, é que muitos pacientes não sabem se têm predisposição a esses problemas até a ocorrência do primeiro episódio. Por isso, o controle do acesso ao remédio e o acompanhamento profissional são fundamentais. Há ainda o efeito rebote quando a pessoa para de usar. "E aí a hora que a pessoa fica sem o remédio, ela fica como se estivesse deprimida mesmo, ela fica para baixo, sem ânimo, sem energia, que é o estado que a gente chama de abstinência", alerta Santos Jr. A recomendação dos especialistas é clara: nada de uso por conta própria. "Todos os remédios têm indicações e contraindicações. Pessoas são mais sensíveis e menos sensíveis. Então o mais importante é não fazer o uso de forma aleatória e sem a supervisão de um médico especialista na área", finaliza o psiquiatra. LEIA TAMBÉM: Quatro em cada cinco idosos com demência no Brasil não têm diagnóstico, aponta estudo Ebola: risco é elevado para 'muito alto' no Congo; chefe da OMS na África adverte contra subestimar propagação Confirmado novo caso de hantavírus em tripulante do MV Hondius repatriado para os Países Baixos