Rock, pop e memória: como frevo se renova sem perder tradição no carnaval

Guia Modelo Escrito em 11/02/2026


Orquestra Malassombro aposta na renovação do frevo com novos ritmos e elementos Mais de um século depois de nascer no Recife, o frevo continua fazendo o que sempre fez: juntar e animar as pessoas nas ruas. Mas, para manter esse legado, o gênero musical também se renova, buscando novas vozes e incorporando outros estilos. Entre memórias afetivas e experimentações sonoras, artistas pernambucanos mostram que o ritmo segue em movimento, dialogando com o presente sem abrir mão da tradição (veja vídeo acima). ✅ Receba as notícias do g1 PE no WhatsApp Nascida em Caruaru, no Agreste do estado, a cantora Kira Aderne, vocalista da banda Diablo Angel, assina em 2026 o primeiro frevo da carreira, depois de dez anos dedicados ao rock e à música pop. A estreia acontece no carnaval deste ano. “É o meu primeiro frevo. Muita alegria de estar aqui estreando esse frevo no carnaval aqui em 2026. É uma surpresa, até para mim mesma, de surgir esse frevo, de forma muito espontânea”, afirmou. A música foi gravada no estúdio do produtor musical e guitarrista Júnior Cap, no Centro do Recife. Em entrevista à TV Globo, ele compartilhou que a experimentação faz parte do processo criativo e que o frevo sempre abriu espaço para novas leituras. “Eu tenho recebido muitos convites, ainda bem, para fazer música experimental e não é diferente com o frevo. Eu gravei um frevo meio que tradicional, alguns dias atrás, com a galera da Metaleira, os medalhões aqui da cidade”, comentou. Para o produtor, a regra é simples. “A gente está sempre aberto a novos projetos, experimentos. Quando é com relação ao frevo, aí é que estamos abertos mesmo. Quem manda aqui sempre é a música”, falou. O jornalista e crítico musical José Teles acompanha a trajetória do gênero e afirmou que a transformação é parte da própria essência do frevo. Segundo ele, ao longo das décadas, o ritmo alternou momentos de modernização e períodos mais conservadores. “O frevo de Capiba era muito moderno, mas teve uma época, mais ou menos entre a década de 60, principalmente na década de 70, que ele ficou muito tradicionalista, porque tinha os donos do frevo, que não queriam que mexessem no frevo”, disse. Segundo Teles, o cenário voltou a mudar a partir do centenário do gênero. “A parte mais radical foi a partir do centenário do frevo, que o frevo foi superbadalado, aconteceram muitas coisas. E, a partir daí, surgiu a orquestra de Spok, bombada, e aí realmente o frevo foi-se embora”, relembrou. Orquestra Malassombro traz novas composições para o frevo através da mistura de ritmos e elementos TV Globo/Reprodução Entre memória e inovação Criada em 2018, a Orquestra Malassombro também ocupa esse território entre memória e invenção. O grupo reúne músicos com carreiras solo e aposta em repertório autoral, misturando instrumentos tradicionais do frevo de rua a outros, como bandolim e pandeiro. “A gente queria cantar a saudade do nosso tempo. Vem com Edgar Morais, a ideia da saudade de um carnaval que passou e tal”, contou Isadora Melo, cantora, compositora, atriz e integrante da orquestra. Segundo a artista, o grupo busca reverenciar personagens importantes da cultura pernambucana, mas sem perder o olhar para o presente. “A gente canta esses personagens que são importantíssimos para a nossa cultura, para nossa identidade, para nossa música. Felinto, Levino, Pedro Salgado, Guilherme Fenelon. A gente queria falar dos nossos personagens, que a gente convive, conhece, e cantar o frevo do nosso tempo, que é perder um chinelo em Olinda, porque estava descendo ladeira, pisar no negócio que não era muito agradável”, comentou. Abraçando outros ritmos Para o percussionista Júnior Teles, o frevo é um gênero aberto por natureza, sem limites formais para a criação. “O frevo é uma grande sombrinha. Dentro do frevo, talvez seja o gênero que a gente mais veja mistura de ritmos”, explicou. Ele destacou o papel do pandeiro nas novas sonoridades. “O pandeiro é um instrumento chamado de bateria de bolso. Com, ele a gente pode fazer bastante coisa. O frevo tem esse poder de abraçar mais outros ritmos também e o pandeiro ele gera inúmeras possibilidades para a gente”, afirmou. Cantora, compositora e passista, Laís Senna também defende o frevo a partir da experiência nas ruas. Ex-integrante do Balé Popular do Recife por 15 anos e com formação em canto popular, ela contou que a identidade artística dela nasce da vivência no carnaval. “É uma coisa que parte muito da memória afetiva, da nossa identidade. Eu me entendo muito como uma pessoa do frevo de rua. Quando eu vou me apresentar. Eu chego no bloco me apresentar, eu chego e digo: 'eu sou Laís Senna, sou do frevo de rua'”, disse. Em 2025, a artista lançou o primeiro EP, “Olinda, Frevo, Amor e Canção”, inspirado na experiência como foliã. Para ela, criar novos frevos dentro de uma tradição centenária exige insistência. “A gente vai tentando introduzir aos poucos essas novas músicas e tal. Então eu venho meio que comprando essa briga. Porque dá trabalho. O gênero é uma coisa que é para doido. Só se você for maluco para você encarar dançar frevo, encarar cantar, que é difícil. Para você tocar e arranjar então… Esqueça tudo”, brincou.