Khaterine Roa chora enquanto membros do Corpo de Bombeiros do Condado de Los Angeles buscam sobreviventes em um prédio que desabou durante os terremotos que atingiram La Guaira, na Venezuela. Matias Delacroix/AP Photo Médicos afirmaram na quarta-feira que temem que as consequências dos devastadores terremotos gêmeos na Venezuela possam desencadear uma crise médica crescente, marcada por ferimentos não tratados, doenças infecciosas e um sistema de saúde já à beira do colapso. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp Milhares de venezuelanos desabrigados dormem em abrigos superlotados ou ao relento, sem acesso à água potável, em meio a condições sanitárias precárias, após os terremotos de 24 de junho, que, segundo autoridades, mataram pelo menos 2.295 pessoas e deixaram mais de 11 mil feridos. Membros de equipes de ajuda humanitária disseram que as consequências dos terremotos se tornaram uma grande crise médica que, se não for controlada rapidamente, fará mais vítimas nos próximos dias e semanas. A emergência expôs a escassez crônica de médicos na Venezuela, resultado de anos de crise econômica, falta de verbas e emigração. “O problema que prevemos em breve são as infecções que os pacientes expostos ao desastre por mais tempo podem trazer”, disse Eugenio Cova, chefe da unidade de trauma do Hospital del Oeste Dr. José Gregorio Hernández, em Caracas, a capital. “Já passamos por um período de trauma complexo — que continuará acontecendo — mas agora a situação é agravada por infecções.” Agora no g1 Trabalhadores humanitários também alertam que os extensos danos à infraestrutura podem alimentar surtos de doenças nas comunidades mais afetadas. “Está muito quente e há muita preocupação com possíveis doenças transmitidas por vetores”, disse Veronique Durroux, porta-voz da agência humanitária da ONU para a América Latina e o Caribe. “O gerenciamento de resíduos é um problema. O gerenciamento de entulhos, quando se vê a escala da devastação, é muito preocupante.” Exército dos EUA enviado Os Estados Unidos tinham 900 militares em solo venezuelano para apoiar as operações de socorro e resgate na quarta-feira (1º), disse Steven McLoud, porta-voz do Comando Sul dos EUA, à Associated Press. As Forças Armadas repararam a pista danificada pelo terremoto no principal aeroporto internacional do país, que serve Caracas, para permitir a chegada de ajuda humanitária e posicionaram navios de guerra na costa para receber sobreviventes resgatados por via aérea. Mais 100 pessoas do Departamento de Estado dos EUA foram enviadas para auxiliar nesses esforços, disse McLoud. Bombeiros americanos trabalham em resgate em La Guaira, Venezuela, após terremoto Matias Delacroix/AP Photo Até o momento, o governo Trump ofereceu à Venezuela US$ 300 milhões em assistência, canalizada por meio de organizações humanitárias e das Nações Unidas. Mas isso representa apenas uma fração da ajuda pós-terremoto que o país precisa: os danos materiais causados pelos tremores são estimados em mais de US$ 6,7 bilhões, de acordo com análises de satélite do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Cinquenta outras equipes internacionais chegaram nos últimos dias para ajudar nas operações de busca e resgate, incluindo equipes de países como Equador e Israel, que não mantêm relações diplomáticas com a Venezuela. Contra todas as expectativas, os socorristas continuam encontrando um pequeno número de sobreviventes, incluindo, na terça-feira, uma criança que ficou presa nos escombros por seis dias. Novo golpe para sistema de saúde Muito antes dos terremotos, os hospitais públicos da Venezuela já sofriam com a escassez de água, energia, equipamentos médicos essenciais e pessoal altamente qualificado. Voluntários e equipes de resgate ajudam a encontrar sobreviventes em um prédio que desabou em Caraballeda, estado de La Guaira, Venezuela, em 30 de junho de 2026 MIGUEL MEDINA / POOL / AFP Mais de 7,7 milhões de venezuelanos deixaram o país desde 2013, quando Nicolás Maduro assumiu o poder e a economia entrou em colapso devido à má gestão, corrupção e queda nos preços do petróleo. Entre os que fugiram, estavam muitos médicos e enfermeiros especializados. A associação médica da Venezuela estima que cerca de um terço de seus 60 mil médicos registrados deixaram o país desde o início da crise econômica. O Dr. Huníades Urbina, membro da diretoria da associação de pediatria da Venezuela, afirmou que o número de profissionais que deixaram o país representa aproximadamente metade dos 84 mil necessários, segundo os padrões da Organização Mundial da Saúde. Urbina acrescentou que um levantamento nacional realizado em 2025 em hospitais públicos revelou uma carência de mais de 30% em suprimentos de emergência e mais de 70% em suprimentos para salas de cirurgia. Os laboratórios estão “praticamente todos fechados ou só fazem o básico”, disse ele. Os terremotos “mais uma vez destacam a incapacidade do governo venezuelano de fornecer um sistema de saúde adequado que atenda às necessidades do povo venezuelano”, afirmou. Hospitais mal equipados Os que restaram agora enfrentam a perspectiva avassaladora de tratar milhares de feridos graves em estruturas de concreto destruídas e desmoronadas. O Hospital del Oeste Dr. José Gregorio Hernández, em Caracas, não possui parafusos e placas necessários para cirurgias ortopédicas, nem gaze medicada para prevenir infecções, disse Cova, que realiza cirurgias em membros esmagados em salas de cirurgia improvisadas, pois os possíveis danos causados pelo terremoto tornaram partes do prédio inacessíveis. Os médicos até começaram a publicar nas redes sociais os suprimentos médicos de que precisam, pedindo doações. Segundo o governo, os terremotos danificaram ou comprometeram 38 hospitais em todo o país. Equipes de resgate trabalham durante a noite em La Guaira, Venezuela, após terremoto Matias Delacroix/AP Photo Há também uma escassez nacional de ambulâncias, o que obriga muitos venezuelanos feridos a chegarem a hospitais em áreas remotas na caçamba de picapes, disse Jaime Lorenzo, diretor da United Doctors of Venezuela, uma rede sem fins lucrativos de profissionais de saúde. Essa é apenas uma das formas pelas quais cidadãos comuns, sentindo-se abandonados pelo governo, dizem ter sido forçados a assumir grande parte dos esforços de resgate. Quando o caos e o trauma dos terremotos começarem a diminuir, Lorenzo disse temer que uma nova onda de pacientes chegue aos hospitais: venezuelanos que, tendo ficado subitamente desabrigados após os terremotos, passaram a semana toda sem medicamentos para doenças crônicas como asma, diabetes e hipertensão. Governo em xeque O governo da presidente interina Delcy Rodríguez — que atuou como vice de Maduro até ele ser afastado pelos Estados Unidos em janeiro e que assumiu a liderança interina com o apoio da administração Trump — tem enfrentado críticas crescentes pela forma como lidou com o desastre. Vídeos que circulam nas redes sociais nos últimos dias parecem mostrar agentes de segurança revirando os escombros de prédios desabados e levando dólares americanos, eletrodomésticos e outros pertences pessoais, provocando indignação generalizada entre os venezuelanos. Os vídeos não puderam ser verificados pela AP. Em resposta aos vídeos, o Ministério do Interior informou na quarta-feira que afastou e deteve quatro policiais por "desvio de conduta e por se aproveitarem dos esforços de resgate e ajuda humanitária". Milhares de pessoas continuam desaparecidas, o que gera incerteza sobre o número total de vítimas e deixa as famílias em um limbo angustiante enquanto esperam, dias a fio, junto aos prédios desabados, na esperança de que os corpos de seus entes queridos sejam encontrados. Um banco de dados digital não governamental, onde famílias podem registrar o desaparecimento de entes queridos, indicava que mais de 40.600 pessoas ainda não haviam sido localizadas até a quarta-feira. Na quarta-feira, autoridades dos EUA rebateram as acusações de que Rodríguez estaria politizando os esforços de resposta e minimizaram as críticas generalizadas sobre as falhas do governo da Venezuela em responder à crise. O general Francis Donovan, chefe do Comando Sul dos EUA, atribuiu a culpa a décadas de negligência na Venezuela, o que, segundo ele, "tornou a situação ainda mais desafiadora para o governo atual". "É um grande problema para qualquer líder lidar com um desafio dessa magnitude", disse Donovan.
Médicos preveem longa crise de saúde pública na Venezuela após terremoto
Guia Modelo Escrito em 02/07/2026
Khaterine Roa chora enquanto membros do Corpo de Bombeiros do Condado de Los Angeles buscam sobreviventes em um prédio que desabou durante os terremotos que atingiram La Guaira, na Venezuela. Matias Delacroix/AP Photo Médicos afirmaram na quarta-feira que temem que as consequências dos devastadores terremotos gêmeos na Venezuela possam desencadear uma crise médica crescente, marcada por ferimentos não tratados, doenças infecciosas e um sistema de saúde já à beira do colapso. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp Milhares de venezuelanos desabrigados dormem em abrigos superlotados ou ao relento, sem acesso à água potável, em meio a condições sanitárias precárias, após os terremotos de 24 de junho, que, segundo autoridades, mataram pelo menos 2.295 pessoas e deixaram mais de 11 mil feridos. Membros de equipes de ajuda humanitária disseram que as consequências dos terremotos se tornaram uma grande crise médica que, se não for controlada rapidamente, fará mais vítimas nos próximos dias e semanas. A emergência expôs a escassez crônica de médicos na Venezuela, resultado de anos de crise econômica, falta de verbas e emigração. “O problema que prevemos em breve são as infecções que os pacientes expostos ao desastre por mais tempo podem trazer”, disse Eugenio Cova, chefe da unidade de trauma do Hospital del Oeste Dr. José Gregorio Hernández, em Caracas, a capital. “Já passamos por um período de trauma complexo — que continuará acontecendo — mas agora a situação é agravada por infecções.” Agora no g1 Trabalhadores humanitários também alertam que os extensos danos à infraestrutura podem alimentar surtos de doenças nas comunidades mais afetadas. “Está muito quente e há muita preocupação com possíveis doenças transmitidas por vetores”, disse Veronique Durroux, porta-voz da agência humanitária da ONU para a América Latina e o Caribe. “O gerenciamento de resíduos é um problema. O gerenciamento de entulhos, quando se vê a escala da devastação, é muito preocupante.” Exército dos EUA enviado Os Estados Unidos tinham 900 militares em solo venezuelano para apoiar as operações de socorro e resgate na quarta-feira (1º), disse Steven McLoud, porta-voz do Comando Sul dos EUA, à Associated Press. As Forças Armadas repararam a pista danificada pelo terremoto no principal aeroporto internacional do país, que serve Caracas, para permitir a chegada de ajuda humanitária e posicionaram navios de guerra na costa para receber sobreviventes resgatados por via aérea. Mais 100 pessoas do Departamento de Estado dos EUA foram enviadas para auxiliar nesses esforços, disse McLoud. Bombeiros americanos trabalham em resgate em La Guaira, Venezuela, após terremoto Matias Delacroix/AP Photo Até o momento, o governo Trump ofereceu à Venezuela US$ 300 milhões em assistência, canalizada por meio de organizações humanitárias e das Nações Unidas. Mas isso representa apenas uma fração da ajuda pós-terremoto que o país precisa: os danos materiais causados pelos tremores são estimados em mais de US$ 6,7 bilhões, de acordo com análises de satélite do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Cinquenta outras equipes internacionais chegaram nos últimos dias para ajudar nas operações de busca e resgate, incluindo equipes de países como Equador e Israel, que não mantêm relações diplomáticas com a Venezuela. Contra todas as expectativas, os socorristas continuam encontrando um pequeno número de sobreviventes, incluindo, na terça-feira, uma criança que ficou presa nos escombros por seis dias. Novo golpe para sistema de saúde Muito antes dos terremotos, os hospitais públicos da Venezuela já sofriam com a escassez de água, energia, equipamentos médicos essenciais e pessoal altamente qualificado. Voluntários e equipes de resgate ajudam a encontrar sobreviventes em um prédio que desabou em Caraballeda, estado de La Guaira, Venezuela, em 30 de junho de 2026 MIGUEL MEDINA / POOL / AFP Mais de 7,7 milhões de venezuelanos deixaram o país desde 2013, quando Nicolás Maduro assumiu o poder e a economia entrou em colapso devido à má gestão, corrupção e queda nos preços do petróleo. Entre os que fugiram, estavam muitos médicos e enfermeiros especializados. A associação médica da Venezuela estima que cerca de um terço de seus 60 mil médicos registrados deixaram o país desde o início da crise econômica. O Dr. Huníades Urbina, membro da diretoria da associação de pediatria da Venezuela, afirmou que o número de profissionais que deixaram o país representa aproximadamente metade dos 84 mil necessários, segundo os padrões da Organização Mundial da Saúde. Urbina acrescentou que um levantamento nacional realizado em 2025 em hospitais públicos revelou uma carência de mais de 30% em suprimentos de emergência e mais de 70% em suprimentos para salas de cirurgia. Os laboratórios estão “praticamente todos fechados ou só fazem o básico”, disse ele. Os terremotos “mais uma vez destacam a incapacidade do governo venezuelano de fornecer um sistema de saúde adequado que atenda às necessidades do povo venezuelano”, afirmou. Hospitais mal equipados Os que restaram agora enfrentam a perspectiva avassaladora de tratar milhares de feridos graves em estruturas de concreto destruídas e desmoronadas. O Hospital del Oeste Dr. José Gregorio Hernández, em Caracas, não possui parafusos e placas necessários para cirurgias ortopédicas, nem gaze medicada para prevenir infecções, disse Cova, que realiza cirurgias em membros esmagados em salas de cirurgia improvisadas, pois os possíveis danos causados pelo terremoto tornaram partes do prédio inacessíveis. Os médicos até começaram a publicar nas redes sociais os suprimentos médicos de que precisam, pedindo doações. Segundo o governo, os terremotos danificaram ou comprometeram 38 hospitais em todo o país. Equipes de resgate trabalham durante a noite em La Guaira, Venezuela, após terremoto Matias Delacroix/AP Photo Há também uma escassez nacional de ambulâncias, o que obriga muitos venezuelanos feridos a chegarem a hospitais em áreas remotas na caçamba de picapes, disse Jaime Lorenzo, diretor da United Doctors of Venezuela, uma rede sem fins lucrativos de profissionais de saúde. Essa é apenas uma das formas pelas quais cidadãos comuns, sentindo-se abandonados pelo governo, dizem ter sido forçados a assumir grande parte dos esforços de resgate. Quando o caos e o trauma dos terremotos começarem a diminuir, Lorenzo disse temer que uma nova onda de pacientes chegue aos hospitais: venezuelanos que, tendo ficado subitamente desabrigados após os terremotos, passaram a semana toda sem medicamentos para doenças crônicas como asma, diabetes e hipertensão. Governo em xeque O governo da presidente interina Delcy Rodríguez — que atuou como vice de Maduro até ele ser afastado pelos Estados Unidos em janeiro e que assumiu a liderança interina com o apoio da administração Trump — tem enfrentado críticas crescentes pela forma como lidou com o desastre. Vídeos que circulam nas redes sociais nos últimos dias parecem mostrar agentes de segurança revirando os escombros de prédios desabados e levando dólares americanos, eletrodomésticos e outros pertences pessoais, provocando indignação generalizada entre os venezuelanos. Os vídeos não puderam ser verificados pela AP. Em resposta aos vídeos, o Ministério do Interior informou na quarta-feira que afastou e deteve quatro policiais por "desvio de conduta e por se aproveitarem dos esforços de resgate e ajuda humanitária". Milhares de pessoas continuam desaparecidas, o que gera incerteza sobre o número total de vítimas e deixa as famílias em um limbo angustiante enquanto esperam, dias a fio, junto aos prédios desabados, na esperança de que os corpos de seus entes queridos sejam encontrados. Um banco de dados digital não governamental, onde famílias podem registrar o desaparecimento de entes queridos, indicava que mais de 40.600 pessoas ainda não haviam sido localizadas até a quarta-feira. Na quarta-feira, autoridades dos EUA rebateram as acusações de que Rodríguez estaria politizando os esforços de resposta e minimizaram as críticas generalizadas sobre as falhas do governo da Venezuela em responder à crise. O general Francis Donovan, chefe do Comando Sul dos EUA, atribuiu a culpa a décadas de negligência na Venezuela, o que, segundo ele, "tornou a situação ainda mais desafiadora para o governo atual". "É um grande problema para qualquer líder lidar com um desafio dessa magnitude", disse Donovan.