Barulho, pouco sono e álcool em excesso: combinação pode levar o cérebro ao limite da exaustão

Guia Modelo Escrito em 15/02/2026


Multidão acompanha abertura do carnaval do Recife 2026, no Marco Zero Leo Caldas/g1 O Carnaval é sinônimo de música alta, madrugada estendida e brindes repetidos. Para o cérebro, porém, a soma desses estímulos pode significar sobrecarga. A exposição prolongada a sons intensos, a privação de sono e o consumo excessivo de álcool atuam em áreas centrais do sistema nervoso e, quando combinados, potencializam riscos que vão de perda auditiva a alterações cognitivas e comportamentais. O neurocirurgião Helder Picarelli, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) e pós-doutor pela Universidade de São Paulo (USP), explica que o impacto começa pelo ouvido, mas não termina nele. "Uma conversa comum gira em torno de 60 decibéis, nível considerado seguro. Já blocos e shows podem ultrapassar 100 decibéis —intensidade que reduz drasticamente o tempo de tolerância do organismo", diz. Segundo ele, sons elevados e prolongados lesam as células ciliadas da cóclea, estruturas responsáveis por transformar vibrações em impulsos elétricos para o cérebro. O dano pode resultar em perda auditiva, dificuldade de discriminar sons e zumbido persistente. Em níveis ainda mais altos —como explosões ou fogos muito próximos— a lesão pode ser imediata e irreversível. G1 - transmissão ao vivo Globo SP - Transmissão Carnaval 2026 Excesso ativa circuitos ligados ao estresse Embora o ruído não cause, de forma direta, uma lesão cerebral estrutural, ele interfere no funcionamento do sistema nervoso. O estímulo intenso mantém o cérebro em estado de alerta, dificulta o sono, altera o humor e aumenta a fadiga mental. Pessoas com maior sensibilidade sensorial, como indivíduos no espectro autista, tendem a sofrer ainda mais com sons agudos e repetitivos. Neurologista da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, Guilherme Olival complementa que o excesso de estímulo auditivo ativa circuitos ligados ao estresse. O cérebro interpreta a intensidade sonora como ameaça, elevando a liberação de cortisol, hormônio relacionado à resposta de alerta. O resultado pode ser irritabilidade, dificuldade de concentração e sensação de esgotamento cognitivo. Nesse contexto, o uso de protetores auriculares não protege apenas a audição. Ao reduzir o estímulo sonoro, diminui também a ativação desses circuitos de estresse, funcionando como uma barreira indireta contra a sobrecarga neural. Foliões se beijam sob a chuva durante cortejo do bloco Bantantã Folia, nas imediações do Metrô Butantã WALMOR CARVALHO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO Noites em claro fazem o cérebro perder o freio Se o barulho mantém o cérebro em alerta, a privação de sono impede que ele se recupere. A primeira região a sofrer com uma noite mal dormida é o córtex pré-frontal, responsável por julgamento, planejamento e controle de impulsos. Em seguida, áreas ligadas à memória, como o hipocampo, também passam a funcionar de forma menos eficiente. Olival explica que, após 24 horas acordado, o desempenho cognitivo pode se aproximar do observado em alguém sob efeito significativo de álcool, com prejuízo da atenção e da capacidade de reação. Biologicamente, há aumento do cortisol, desregulação de neurotransmissores e maior ativação da amígdala, estrutura associada às respostas emocionais. A privação repetida gera o que os especialistas chamam de “dívida de sono”. Uma boa noite pode aliviar a sensação subjetiva de cansaço, mas as funções executivas demoram dias para se normalizar. Em casos prolongados —48 ou 72 horas sem dormir— o cérebro pode apresentar alucinações, crises convulsivas e episódios de “apagão” como mecanismo de proteção. Picarelli ressalta que cada pessoa tem um limiar individual, mas, de modo geral, adultos precisam de cerca de 8 horas de sono por noite para manter desempenho adequado. Dormir menos por vários dias consecutivos compromete memória, raciocínio e reflexos —cenário que se repete com frequência após a maratona de blocos. Concentração da saída do bloco de Bell Marques Jackson Martins /Agfpontes Álcool: primeiro desliga o freio, depois o motor O álcool atua como depressor do sistema nervoso central. Inicialmente, inibe neurônios responsáveis pelo controle inibitório, o que explica a sensação de euforia e desinibição nas primeiras doses. À medida que a concentração aumenta, regiões como o cerebelo (ligado à coordenação motora) e o hipocampo (essencial para a formação de memórias) passam a ser afetadas. É nesse estágio que surgem fala arrastada, desequilíbrio e os chamados “apagões”, quando períodos inteiros deixam de ser registrados na memória. Em níveis mais elevados, pode haver depressão respiratória e coma alcoólico. Os efeitos variam conforme a velocidade de ingestão, a presença de alimento no estômago, o metabolismo individual e a concentração da bebida. Bebidas destiladas, com teor alcoólico acima de 40%, elevam rapidamente a quantidade de álcool no sangue. O consumo repetido em grandes quantidades —o chamado binge drinking— pode gerar efeito cumulativo. Ao longo dos anos, o uso frequente está associado à atrofia cerebral, prejuízo cognitivo, neuropatias periféricas e deficiência de vitaminas do complexo B, além de danos hepáticos graves, como cirrose. Bloco do Urso em 2025, em Santa Rita do Sapucaí (MG) Bloco do Urso/Divulgação A combinação que multiplica riscos Separadamente, barulho intenso, falta de sono e álcool já comprometem o desempenho cerebral. Juntos, os efeitos se potencializam. A privação de sono reduz o controle inibitório; o álcool enfraquece ainda mais esse sistema. O resultado é maior impulsividade, pior avaliação de risco e aumento da probabilidade de acidentes, conflitos e comportamentos perigosos. A mistura com energéticos pode mascarar a sonolência, mas não reduz o prejuízo cognitivo. Ao contrário, prolonga o tempo de exposição ao álcool e pode aumentar o risco de arritmias e convulsões em pessoas predispostas. Indivíduos com enxaqueca, epilepsia, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) ou transtornos de ansiedade formam um grupo ainda mais vulnerável. Alterações de sono e estímulos intensos são gatilhos conhecidos para crises, especialmente em quem já tem diagnóstico neurológico prévio. Quando procurar ajuda Após o Carnaval, alguns sinais exigem avaliação médica. Zumbido persistente (avaliar com otorrinolaringologista com urgência). Confusão mental. Amnésia prolongada. Desorientação. Dor de cabeça súbita e intensa. Convulsões. Fraqueza em um lado do corpo. Perda visual. É possível curtir sem sobrecarregar? Os especialistas reforçam que o cérebro responde positivamente a estímulos prazerosos, como música e dança. O problema está no excesso e na ausência de recuperação. Algumas medidas simples ajudam a proteger o sistema nervoso durante o Carnaval: Dormir de 6 a 8 horas sempre que possível. Intercalar momentos de descanso entre os blocos e eventos. Manter hidratação adequada ao longo do dia. Evitar misturar álcool com energéticos. Usar proteção auditiva em ambientes com som muito alto.