Concessionária tem descumprido contrato de concessão do Vale do Anhangabaú desde o ano passado, dizem documentos O prefeito Ricardo Nunes (MDB) anunciou na quinta-feira (9) que já iniciou o processo de encerramento do contrato de concessão do Novo Vale do Anhangabaú, no Centro de São Paulo, que está sob responsabilidade da Viva o Vale, consórcio ligado à construtora WTorre. O início do processo de caducidade do contrato acontece depois de uma série de infrações contratuais por parte da concessionária, que vinha descumprindo o acordo com a gestão municipal na administração do espaço desde a assinatura do contrato de concessão, em julho de 2021. 🔎 Considerada uma medida extrema, a caducidade (ou extinção do contrato) pode ocorrer quando confirmado que a concessionária descumpre obrigações contratuais e não tem condições de manter a prestação de serviços à população. Depois da reforma de mais de R$ 105 milhões, a gestão Bruno Covas (PSDB), que tinha Nunes como vice, concedeu o espaço à Viva o Vale, mas a empresa infringiu diversos itens do contrato. Levantamento feito pelo g1 apontou que, desde que a área foi concedida à iniciativa privada, a empresa foi multada 32 vezes, no valor de R$ 1,5 milhão. Além de não ocupar adequadamente os quiosques, demorar a instalar equipamentos obrigatórios, a empresa também teve problemas com barulho em shows de música eletrônica que raiavam o dia no espaço (veja mais aqui). A gota d'água para o deterioramento da relação da WTorre com a prefeitura foi a proposta que a empresa fez, em agosto de 2025, de transformar 80% da área concedida em um bolsão de estacionamento para 333 vagas de carros. O pedido veio à tona na quarta-feira (8), após o vereador Nabil Bonduki (PT) flagrar grades com cobrança de valet na área de concessão, sem a devida autorização da gestão municipal. O chamado 'Novo Vale do Anhangabaú', que pode abrigar um bolsão de estacionamento para 333 vagas de carro no Centro de São Paulo. Reprodução/Rodrigo Rodrigues, g1 e Nabil Bonduki/Redes Sociais Após a denúncia do vereador, a Secretaria Municipal das Subprefeituras informou que “notificou a empresa ‘Viva o Vale’ por infração contratual ao instalar irregularmente um estacionamento na área da concessão e apreendeu nesta quarta-feira (08) os equipamentos como gradis, guarda-sol e demais acessórios que estavam no local”. “A atividade foi encerrada no mesmo instante da ação de fiscalização por não ter as devidas licenças e autorizações administrativas exigíveis, além das demais vedações contratuais”, declarou a pasta. O g1 procurou a assessoria da concessionária para comentar o assunto, mas não recebeu retorno até a última atualização desta reportagem. A instalação do estacionamento no Vale do Anhangabaú sem a devida autorização municipal foi a primeira iniciativa da concessionária para tentar implantar o projeto, protocolado em agosto passado na prefeitura. A empresa apresentou um plano para criação de um grande estacionamento na área, com 333 vagas distribuídas em 35 mil metros quadrados da área concedida pela prefeitura. A área total de concessão do Anhangabaú tem cerca de 43 mil metros quadrados. Pelo plano, a empresa pretendia transformar 81% da área de concessão em estacionamento. “A implantação do Projeto de Estacionamentos do Vale do Anhangabaú, proporcionará diversas vantagens ao usuário, incluindo maior segurança, melhor fluxo de trânsito e mais acessibilidade para visitantes”, diz trecho da proposta da empresa ligada à WTorre. Estacionamento irregular debaixo do Viaduto do Chá, Centro de SP, montado pela concessionária Viva o Vale, sem autorização da prefeitura. Reprodução Opinião dos urbanistas O g1 ouviu alguns urbanistas sobre a proposta de transformar o local em bolsão de estacionamento, e eles foram unânimes em dizer que se tratava de um “retrocesso e é uma violação do interesse público na cidade”. “O Vale do Anhangabaú é um espaço simbólico e histórico na cidade, que já foi estacionamento na década de 50, e estava coalhado de automóveis. Ao longo da história, se conseguiu reverter isso e retomar a ideia original do Anhangabaú como uma espécie de 'sala de visitas' da cidade. E essa sala de visitas pública tem que ser de usufruto público, democrático, coletivo. Foi um retrocesso sugerir o retorno para a condição de estacionamento privado. É um retrocesso e é uma violação do interesse público na cidade”, afirmou o professor Kazuo Nakano, do Instituto das Cidades da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Os arquitetos e urbanistas Kazuo Nakano, Silvio Oksman e Fernado Túlio Franco discutem o destino do Vale do Anhangabaú, no Centro de São Paulo. Reprodução/Redes Sociais O arquiteto e urbanista Silvio Oksman, sócio do escritório Metrópole Arquitetos e estudioso da história do Centro de São Paulo, avalia a proposta da concessionária como uma "provocação" da empresa. “Me parece, e eu estou aqui levantando uma hipótese, que esse plano de estacionamento é a concessionária dizendo para a prefeitura: ‘Eu não quero mais isso. Pega de volta, pelo amor de Deus. E eu vou te dar motivos pra isso. Fazer uma proposta absurda.’ Só faltou dizer que vai se cercar com muros...”, afirmou. “É uma proposta que só poderia ser olhada pela prefeitura – proprietária do espaço - como quebra contratual. E te digo mais: é uma quebra contratual que deveria ter a aplicação de multa. Porque a concessionária não propôs uma qualificação do espaço público pra população paulistana. Me parece que esticaram a corda pra prefeitura pegar o espaço de volta”, disse. Busca de novo administrador Na quinta (9), o prefeito Ricardo Nunes (MDB) disse que já está em contato com outros "players" do mercado de entretenimento para sondar ser há outras empresas interessadas em assumir a concessão do Novo Vale do Anhangabaú assim que o atual contrato for finalizado. Mas o urbanista Silvio Oksman diz que o problema de rentabilidade do espaço que a empresa Viva o Vale apresentou durante os cinco anos de concessão do espaço são indícios de que a própria gestão municipal precisa assumir a administração da área. “Então, é um equívoco ceder o espaço de novo para iniciativa privada, como se isso fosse uma possibilidade de uma mina de dinheiro. O Anhangabaú nunca vai ter retorno financeiro se o caráter público dele for realmente mantido. A rentabilidade descaracteriza o próprio objeto da concessão”, argumentou. O arquiteto Fernando Tulio Franco, professor do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH Zurich), na Suíça, e ex-presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), defende que associações sem fins lucrativos sejam usadas para a gestão desses espaços na cidade. “A gente tem uma possibilidade agora [com a caducidade do contrato] da gestão pública ser realizada por um outro caminho. Acho que é muito interessante a gestão por meio de associações sem fins lucrativos. E esse é o modelo que estou vendo na Suíça”, comentou. "Tem uma série de áreas públicas, por exemplo, jardins voltados para produção de alimentos, para hortas urbanas. São terrenos públicos em que você tem uma concessão de 30, 40, 50 anos. E isso se dá justamente por meio de uma associação sem fins lucrativos. A entidade está lá justamente para apoiar e para dialogar com o poder público, para promover a zeladoria, a qualificação desses espaços." O vereador Nabil Bonduki (PT) e o prefeito Ricardo Nunes (MDB). Montagem/g1/Juliana Hipólito/Rede Câmara e Fernando Frazão/Agência Brasil O vereador Nabil Bonduki (PT), que também é urbanista e professor da FAU-USP, critica aol longo de todo o mandado a gestão da Viva o Vale e disse que acionou o Ministério Público para investigar a concessão. "A ideia de transformar o Anhangabaú em um grande estacionamento é inaceitável. Vai na contramão do que se espera para o uso de um espaço público na região central da cidade. A Prefeitura investiu mais de R$ 100 milhões em um projeto de requalificação do Anhangabaú para as pessoas usarem – e não para a iniciativa privada buscar a rentabilização do local com vagas para carros", afirmou. "Já entrei com uma representação no Ministério Público, mostrando que essa concessão é irregular, pois não foi aprovada pela Câmara Municipal. E também apresentei um Projeto de Lei que proíbe expressamente qualquer outra concessão do Vale do Anhangabaú", declarou. Polêmicas e devolução da concessão Barulho, luzes e tapumes: as festas que viram a noite e tiram o sono de vizinhos do Vale do Anhangabaú A concessionária Viva o Vale tem encontrado dificuldades para gerar receitas dentro do Novo Vale do Anhangabaú para manter a concessão da área. Uma das alternativas foram os shows de música eletrônica, que durante todo o ano passado ocuparam a agenda cultural do espaço. Mas depois de reclamações dos moradores, após as "raves" invadirem a madrugada e as manhãs, diante de muito barulho e luzes que perturbavam a vizinhança, a gestão Ricardo Nunes (MDB) proibiu esse tipo de evento na área, impondo horários e limites de emissão de ruídos no local. Isso inviabilizou uma fonte importante de receita da concessionária, que já começou tratativas com a prefeitura para negociar uma possível devolução da concessão, segundo o g1 apurou. O g1 questionou as duas partes sobre como estão essas tratativas, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.
Pedido para criar estacionamento no Vale do Anhangabaú levou Prefeitura de SP a anunciar fim da concessão; entenda
Guia Modelo Escrito em 11/04/2026
Concessionária tem descumprido contrato de concessão do Vale do Anhangabaú desde o ano passado, dizem documentos O prefeito Ricardo Nunes (MDB) anunciou na quinta-feira (9) que já iniciou o processo de encerramento do contrato de concessão do Novo Vale do Anhangabaú, no Centro de São Paulo, que está sob responsabilidade da Viva o Vale, consórcio ligado à construtora WTorre. O início do processo de caducidade do contrato acontece depois de uma série de infrações contratuais por parte da concessionária, que vinha descumprindo o acordo com a gestão municipal na administração do espaço desde a assinatura do contrato de concessão, em julho de 2021. 🔎 Considerada uma medida extrema, a caducidade (ou extinção do contrato) pode ocorrer quando confirmado que a concessionária descumpre obrigações contratuais e não tem condições de manter a prestação de serviços à população. Depois da reforma de mais de R$ 105 milhões, a gestão Bruno Covas (PSDB), que tinha Nunes como vice, concedeu o espaço à Viva o Vale, mas a empresa infringiu diversos itens do contrato. Levantamento feito pelo g1 apontou que, desde que a área foi concedida à iniciativa privada, a empresa foi multada 32 vezes, no valor de R$ 1,5 milhão. Além de não ocupar adequadamente os quiosques, demorar a instalar equipamentos obrigatórios, a empresa também teve problemas com barulho em shows de música eletrônica que raiavam o dia no espaço (veja mais aqui). A gota d'água para o deterioramento da relação da WTorre com a prefeitura foi a proposta que a empresa fez, em agosto de 2025, de transformar 80% da área concedida em um bolsão de estacionamento para 333 vagas de carros. O pedido veio à tona na quarta-feira (8), após o vereador Nabil Bonduki (PT) flagrar grades com cobrança de valet na área de concessão, sem a devida autorização da gestão municipal. O chamado 'Novo Vale do Anhangabaú', que pode abrigar um bolsão de estacionamento para 333 vagas de carro no Centro de São Paulo. Reprodução/Rodrigo Rodrigues, g1 e Nabil Bonduki/Redes Sociais Após a denúncia do vereador, a Secretaria Municipal das Subprefeituras informou que “notificou a empresa ‘Viva o Vale’ por infração contratual ao instalar irregularmente um estacionamento na área da concessão e apreendeu nesta quarta-feira (08) os equipamentos como gradis, guarda-sol e demais acessórios que estavam no local”. “A atividade foi encerrada no mesmo instante da ação de fiscalização por não ter as devidas licenças e autorizações administrativas exigíveis, além das demais vedações contratuais”, declarou a pasta. O g1 procurou a assessoria da concessionária para comentar o assunto, mas não recebeu retorno até a última atualização desta reportagem. A instalação do estacionamento no Vale do Anhangabaú sem a devida autorização municipal foi a primeira iniciativa da concessionária para tentar implantar o projeto, protocolado em agosto passado na prefeitura. A empresa apresentou um plano para criação de um grande estacionamento na área, com 333 vagas distribuídas em 35 mil metros quadrados da área concedida pela prefeitura. A área total de concessão do Anhangabaú tem cerca de 43 mil metros quadrados. Pelo plano, a empresa pretendia transformar 81% da área de concessão em estacionamento. “A implantação do Projeto de Estacionamentos do Vale do Anhangabaú, proporcionará diversas vantagens ao usuário, incluindo maior segurança, melhor fluxo de trânsito e mais acessibilidade para visitantes”, diz trecho da proposta da empresa ligada à WTorre. Estacionamento irregular debaixo do Viaduto do Chá, Centro de SP, montado pela concessionária Viva o Vale, sem autorização da prefeitura. Reprodução Opinião dos urbanistas O g1 ouviu alguns urbanistas sobre a proposta de transformar o local em bolsão de estacionamento, e eles foram unânimes em dizer que se tratava de um “retrocesso e é uma violação do interesse público na cidade”. “O Vale do Anhangabaú é um espaço simbólico e histórico na cidade, que já foi estacionamento na década de 50, e estava coalhado de automóveis. Ao longo da história, se conseguiu reverter isso e retomar a ideia original do Anhangabaú como uma espécie de 'sala de visitas' da cidade. E essa sala de visitas pública tem que ser de usufruto público, democrático, coletivo. Foi um retrocesso sugerir o retorno para a condição de estacionamento privado. É um retrocesso e é uma violação do interesse público na cidade”, afirmou o professor Kazuo Nakano, do Instituto das Cidades da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Os arquitetos e urbanistas Kazuo Nakano, Silvio Oksman e Fernado Túlio Franco discutem o destino do Vale do Anhangabaú, no Centro de São Paulo. Reprodução/Redes Sociais O arquiteto e urbanista Silvio Oksman, sócio do escritório Metrópole Arquitetos e estudioso da história do Centro de São Paulo, avalia a proposta da concessionária como uma "provocação" da empresa. “Me parece, e eu estou aqui levantando uma hipótese, que esse plano de estacionamento é a concessionária dizendo para a prefeitura: ‘Eu não quero mais isso. Pega de volta, pelo amor de Deus. E eu vou te dar motivos pra isso. Fazer uma proposta absurda.’ Só faltou dizer que vai se cercar com muros...”, afirmou. “É uma proposta que só poderia ser olhada pela prefeitura – proprietária do espaço - como quebra contratual. E te digo mais: é uma quebra contratual que deveria ter a aplicação de multa. Porque a concessionária não propôs uma qualificação do espaço público pra população paulistana. Me parece que esticaram a corda pra prefeitura pegar o espaço de volta”, disse. Busca de novo administrador Na quinta (9), o prefeito Ricardo Nunes (MDB) disse que já está em contato com outros "players" do mercado de entretenimento para sondar ser há outras empresas interessadas em assumir a concessão do Novo Vale do Anhangabaú assim que o atual contrato for finalizado. Mas o urbanista Silvio Oksman diz que o problema de rentabilidade do espaço que a empresa Viva o Vale apresentou durante os cinco anos de concessão do espaço são indícios de que a própria gestão municipal precisa assumir a administração da área. “Então, é um equívoco ceder o espaço de novo para iniciativa privada, como se isso fosse uma possibilidade de uma mina de dinheiro. O Anhangabaú nunca vai ter retorno financeiro se o caráter público dele for realmente mantido. A rentabilidade descaracteriza o próprio objeto da concessão”, argumentou. O arquiteto Fernando Tulio Franco, professor do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH Zurich), na Suíça, e ex-presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), defende que associações sem fins lucrativos sejam usadas para a gestão desses espaços na cidade. “A gente tem uma possibilidade agora [com a caducidade do contrato] da gestão pública ser realizada por um outro caminho. Acho que é muito interessante a gestão por meio de associações sem fins lucrativos. E esse é o modelo que estou vendo na Suíça”, comentou. "Tem uma série de áreas públicas, por exemplo, jardins voltados para produção de alimentos, para hortas urbanas. São terrenos públicos em que você tem uma concessão de 30, 40, 50 anos. E isso se dá justamente por meio de uma associação sem fins lucrativos. A entidade está lá justamente para apoiar e para dialogar com o poder público, para promover a zeladoria, a qualificação desses espaços." O vereador Nabil Bonduki (PT) e o prefeito Ricardo Nunes (MDB). Montagem/g1/Juliana Hipólito/Rede Câmara e Fernando Frazão/Agência Brasil O vereador Nabil Bonduki (PT), que também é urbanista e professor da FAU-USP, critica aol longo de todo o mandado a gestão da Viva o Vale e disse que acionou o Ministério Público para investigar a concessão. "A ideia de transformar o Anhangabaú em um grande estacionamento é inaceitável. Vai na contramão do que se espera para o uso de um espaço público na região central da cidade. A Prefeitura investiu mais de R$ 100 milhões em um projeto de requalificação do Anhangabaú para as pessoas usarem – e não para a iniciativa privada buscar a rentabilização do local com vagas para carros", afirmou. "Já entrei com uma representação no Ministério Público, mostrando que essa concessão é irregular, pois não foi aprovada pela Câmara Municipal. E também apresentei um Projeto de Lei que proíbe expressamente qualquer outra concessão do Vale do Anhangabaú", declarou. Polêmicas e devolução da concessão Barulho, luzes e tapumes: as festas que viram a noite e tiram o sono de vizinhos do Vale do Anhangabaú A concessionária Viva o Vale tem encontrado dificuldades para gerar receitas dentro do Novo Vale do Anhangabaú para manter a concessão da área. Uma das alternativas foram os shows de música eletrônica, que durante todo o ano passado ocuparam a agenda cultural do espaço. Mas depois de reclamações dos moradores, após as "raves" invadirem a madrugada e as manhãs, diante de muito barulho e luzes que perturbavam a vizinhança, a gestão Ricardo Nunes (MDB) proibiu esse tipo de evento na área, impondo horários e limites de emissão de ruídos no local. Isso inviabilizou uma fonte importante de receita da concessionária, que já começou tratativas com a prefeitura para negociar uma possível devolução da concessão, segundo o g1 apurou. O g1 questionou as duas partes sobre como estão essas tratativas, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.