Queijaria na represa transforma degustação em negócio de sucesso Durante duas décadas, Martina Sgarbi trabalhou com números. Formada em contabilidade, construiu carreira como executiva financeira de uma rede de lojas e seguiu um caminho profissional bem distante da produção de alimentos. Hoje, porém, sua rotina é outra: ela produz queijos artesanais, recebe turistas em uma propriedade cercada por Mata Atlântica e comanda uma queijaria que fatura cerca de R$ 500 mil por ano. A empreendedora investiu cerca de R$ 200 mil para transformar o sítio da família, às margens de uma represa na capital paulista, na sede do negócio. É ali que produz, praticamente sozinha, nove tipos de queijo artesanal, com o apoio de três funcionárias. Dos números para os queijos Martina nunca planejou trabalhar com produção artesanal. A escolha pela contabilidade foi racional. “Eu sempre gostei de números. Na formação acadêmica eu podia ter escolhido administração ou contabilidade. Eu falei assim: um contador pode ser um administrador, mas um administrador não pode ser um contador. E aí eu fui para a contabilidade”, conta. Os queijos entraram na história anos depois, a partir de uma mudança pessoal. “Foi uma mudança alimentar, mesmo, de saúde. Eu estava estressada e comendo mal. Sabe quando você fala assim: gente, eu não aguento mais comprar remédio na farmácia? Eu recebi o remédio, vai ser meu alimento”, afirma. O que começou como um hobby surgiu de forma despretensiosa. Martina utilizava a churrasqueira do sítio do pai para fazer os primeiros experimentos e distribuir os produtos para familiares e amigos. “Eu brincava de fazer queijo”, lembra. A virada veio quando ela decidiu submeter um dos produtos a uma premiação do setor. O objetivo inicial era apenas obter uma avaliação técnica. Mas o queijo conquistou uma medalha de bronze e serviu como validação de mercado. “Foi quando eu mandei o queijo para o prêmio. Ele ganhou a medalha de bronze. Eu só queria saber o feedback dos jurados. Aí eu falei: se o mundo do queijo está me chamando. E resolvi fazer um plano de negócio”, conta. Antes de abrir a empresa, a empreendedora investiu em especialização e fez cursos no exterior para aprofundar os conhecimentos sobre produção artesanal. A ex-executiva financeira Martina Sgarbi mudou de carreira após 20 anos para produzir queijos artesanais. Sua queijaria fatura atualmente cerca de R$ 500 mil por ano. Globo/ Reprodução Barreiras regulatórias mudaram o projeto O plano inicial era criar uma queijaria urbana na cidade de São Paulo, mas a legislação obrigou uma mudança de estratégia. Martina instalou a produção em Boituva, no interior paulista, e enfrentou limitações comerciais até conseguir o Selo Arte, certificação que reconhece produtos artesanais. “Eu fui para o Ministério da Agricultura provar que eu era artesanal e consegui o Selo Arte. Aí consegui vender para o Brasil inteiro”, afirma. A certificação permitiu ampliar o mercado consumidor e consolidar o negócio. Embora tenha capacidade para produzir mais, Martina limita a fabricação a cerca de 300 quilos de queijo por mês. A decisão está ligada ao modelo de negócio adotado, voltado para a produção artesanal e para a valorização do processo. “Eu gosto de colocar a mão na massa. Eu falo que é a minha terapia fazer os meus queijos. Então não aumentar a escala”, diz. Além disso, a empreendedora aposta em uma cadeia produtiva local. O leite utilizado na fabricação vem de propriedades vizinhas. “Compro aqui do meu vizinho. Ele tem uma renda. O soro que sobra eu dou para a prefeitura. A prefeitura transforma isso em biofertilizante natural para o capim crescer, as frutas continuarem e a Mata Atlântica não morrer”, explica. Após adequar a produção às leis em Boituva, ela conquistou o Selo Arte. A produção mensal é limitada por escolha a 300 quilos. Reprodução Globo Turismo e degustação dobraram o faturamento Mais do que vender queijo, Martina passou a comercializar uma experiência. Os visitantes chegam à propriedade mediante agendamento, participam de uma aula sobre produção artesanal e encerram o passeio com degustação. A experiência recebe até 25 pessoas por vez. O passeio de barco custa R$ 80 e a degustação, R$ 250 por participante. Segundo a empresária, a estratégia transformou os resultados financeiros. “Não existe uma propaganda. A propaganda sou eu falando. Eles entram na queijaria, eu mostro. Eu mostro o natural”, afirma. “Dobrou”, responde ao ser questionada sobre o efeito da experiência turística no faturamento. Empreender exigiu mais que conhecimento técnico Apesar da experiência corporativa, Martina afirma que a maior dificuldade não esteve nos números. “Entra muito o psicológico, entra muito o seu pensamento. Sua coragem entra muito nisso. Não é só o que você aprendeu, o seu profissionalismo”, afirma. Sete anos depois de iniciar a jornada empreendedora, ela diz que os erros se transformaram em aprendizado. “Você erra. Ninguém é perfeito. Não existe acerto 100%. Às vezes eu acho que o erro é para te mostrar qual é o caminho que você tem que seguir. Talvez você mude um pouco a sua rota, mas você não pode desistir.”
Ex-executiva troca carreira de 20 anos para fazer queijos e fatura R$ 500 mil por ano
Guia Modelo Escrito em 07/11/2026
Queijaria na represa transforma degustação em negócio de sucesso Durante duas décadas, Martina Sgarbi trabalhou com números. Formada em contabilidade, construiu carreira como executiva financeira de uma rede de lojas e seguiu um caminho profissional bem distante da produção de alimentos. Hoje, porém, sua rotina é outra: ela produz queijos artesanais, recebe turistas em uma propriedade cercada por Mata Atlântica e comanda uma queijaria que fatura cerca de R$ 500 mil por ano. A empreendedora investiu cerca de R$ 200 mil para transformar o sítio da família, às margens de uma represa na capital paulista, na sede do negócio. É ali que produz, praticamente sozinha, nove tipos de queijo artesanal, com o apoio de três funcionárias. Dos números para os queijos Martina nunca planejou trabalhar com produção artesanal. A escolha pela contabilidade foi racional. “Eu sempre gostei de números. Na formação acadêmica eu podia ter escolhido administração ou contabilidade. Eu falei assim: um contador pode ser um administrador, mas um administrador não pode ser um contador. E aí eu fui para a contabilidade”, conta. Os queijos entraram na história anos depois, a partir de uma mudança pessoal. “Foi uma mudança alimentar, mesmo, de saúde. Eu estava estressada e comendo mal. Sabe quando você fala assim: gente, eu não aguento mais comprar remédio na farmácia? Eu recebi o remédio, vai ser meu alimento”, afirma. O que começou como um hobby surgiu de forma despretensiosa. Martina utilizava a churrasqueira do sítio do pai para fazer os primeiros experimentos e distribuir os produtos para familiares e amigos. “Eu brincava de fazer queijo”, lembra. A virada veio quando ela decidiu submeter um dos produtos a uma premiação do setor. O objetivo inicial era apenas obter uma avaliação técnica. Mas o queijo conquistou uma medalha de bronze e serviu como validação de mercado. “Foi quando eu mandei o queijo para o prêmio. Ele ganhou a medalha de bronze. Eu só queria saber o feedback dos jurados. Aí eu falei: se o mundo do queijo está me chamando. E resolvi fazer um plano de negócio”, conta. Antes de abrir a empresa, a empreendedora investiu em especialização e fez cursos no exterior para aprofundar os conhecimentos sobre produção artesanal. A ex-executiva financeira Martina Sgarbi mudou de carreira após 20 anos para produzir queijos artesanais. Sua queijaria fatura atualmente cerca de R$ 500 mil por ano. Globo/ Reprodução Barreiras regulatórias mudaram o projeto O plano inicial era criar uma queijaria urbana na cidade de São Paulo, mas a legislação obrigou uma mudança de estratégia. Martina instalou a produção em Boituva, no interior paulista, e enfrentou limitações comerciais até conseguir o Selo Arte, certificação que reconhece produtos artesanais. “Eu fui para o Ministério da Agricultura provar que eu era artesanal e consegui o Selo Arte. Aí consegui vender para o Brasil inteiro”, afirma. A certificação permitiu ampliar o mercado consumidor e consolidar o negócio. Embora tenha capacidade para produzir mais, Martina limita a fabricação a cerca de 300 quilos de queijo por mês. A decisão está ligada ao modelo de negócio adotado, voltado para a produção artesanal e para a valorização do processo. “Eu gosto de colocar a mão na massa. Eu falo que é a minha terapia fazer os meus queijos. Então não aumentar a escala”, diz. Além disso, a empreendedora aposta em uma cadeia produtiva local. O leite utilizado na fabricação vem de propriedades vizinhas. “Compro aqui do meu vizinho. Ele tem uma renda. O soro que sobra eu dou para a prefeitura. A prefeitura transforma isso em biofertilizante natural para o capim crescer, as frutas continuarem e a Mata Atlântica não morrer”, explica. Após adequar a produção às leis em Boituva, ela conquistou o Selo Arte. A produção mensal é limitada por escolha a 300 quilos. Reprodução Globo Turismo e degustação dobraram o faturamento Mais do que vender queijo, Martina passou a comercializar uma experiência. Os visitantes chegam à propriedade mediante agendamento, participam de uma aula sobre produção artesanal e encerram o passeio com degustação. A experiência recebe até 25 pessoas por vez. O passeio de barco custa R$ 80 e a degustação, R$ 250 por participante. Segundo a empresária, a estratégia transformou os resultados financeiros. “Não existe uma propaganda. A propaganda sou eu falando. Eles entram na queijaria, eu mostro. Eu mostro o natural”, afirma. “Dobrou”, responde ao ser questionada sobre o efeito da experiência turística no faturamento. Empreender exigiu mais que conhecimento técnico Apesar da experiência corporativa, Martina afirma que a maior dificuldade não esteve nos números. “Entra muito o psicológico, entra muito o seu pensamento. Sua coragem entra muito nisso. Não é só o que você aprendeu, o seu profissionalismo”, afirma. Sete anos depois de iniciar a jornada empreendedora, ela diz que os erros se transformaram em aprendizado. “Você erra. Ninguém é perfeito. Não existe acerto 100%. Às vezes eu acho que o erro é para te mostrar qual é o caminho que você tem que seguir. Talvez você mude um pouco a sua rota, mas você não pode desistir.”