Formandos de universidades dos EUA vaiam discursos sobre IA; entenda por quê A cena clássica de uma colação de grau, em geral, inclui aplausos para cada um dos (muitos) nomes chamados ao palco, mensagens motivacionais, agradecimentos, reflexões, lágrimas de alívio e capelos sendo jogados para cima. Nos últimos meses, no entanto, o que se escutou nos Estados Unidos em casos pontuais foram… vaias. Sim, em plena cerimônia de formatura, em alto e bom som, a cada vez que a expressão “inteligência artificial” era mencionada. Na Universidade da Flórida Central, quando a executiva do setor imobiliário Gloria Caulfield fez um discurso aos formandos e chamou a IA de “a próxima Revolução Industrial”, provocou revolta nos alunos. Foi vaiada. Na Universidade do Arizona, Eric Schmidt, ex-CEO do Google, falou dos “arquitetos da inteligência artificial”, nomeados pela revista “Time” como “pessoas do ano”. Vaiado. E na Universidade Estadual do Meio do Tennessee, Scott Borchetta , executivo musical, ousou dizer aos formandos que a IA está “reescrevendo o processo de produção”. Vaiado também. Nos três casos, vídeos mostrando o descontentamento dos estudantes viralizaram nas redes sociais. “Os alunos esperam discursos de incentivo, de otimismo, de sabedoria ou de ânimo, como costuma acontecer em todas as formaturas”, afirma Adriano Peixoto, professor e membro da comissão de inteligência artificial da Universidade Federal da Bahia (UFBA). “Aí, eles ouvem uma referência à IA. É como enfiar uma faca no peito deles, justamente em um dia tão importante.” Mas, afinal, por que ouvir uma exaltação a essa tecnologia na colação de grau dói tanto? Segundo os especialistas ouvidos pelo g1, há as seguintes hipóteses: medo de não conseguir um emprego após se formar; sensação de dependência da IA; revolta em relação a estes porta-vozes, que representam “big techs” (grandes empresas de tecnologia); frustração de expectativas em relação ao real uso da inteligência artificial; protesto contra os prejuízos ao meio ambiente. Leia abaixo. 💥Medo de não conseguir o primeiro emprego Discursantes são vaiados em cerimônias de formatura nos EUA Reprodução/Redes sociais Segundo Paulo Blikstein, professor do Teachers College e afiliado ao departamento de Educação da Universidade Columbia, em Nova York, o avanço da inteligência artificial já traz o temor da substituição de humanos por máquinas. E, na perspectiva dos recém-formados, justamente os empregos de quem está em início de carreira podem ser os mais atingidos. “Os mais jovens se sentem ameaçados, porque sabem que vão ser impactados”, diz o especialista. As dificuldades financeiras, agravadas pelas dívidas estudantis, dão mais peso a essas preocupações. “No caso dos Estados Unidos, os alunos provavelmente contraíram um empréstimo e têm uma série de dívidas. Eles veem o nível crescente de desemprego e percebem que os trabalhos de nível inicial, de ‘entrada’, estão sendo substituídos por IA”, diz Peixoto, da UFBA. “Então, é aquela coisa: ‘eu fiz tudo isso, e agora? O que vai acontecer?’. É um sentimento de frustração. E aí isso se junta a um discurso de algum grande nome da indústria falando de inteligência artificial em tom de otimismo. Isso gera uma desconexão entre o que o estudante está sentindo e o que o palestrante está falando.” 💥Sensação de dependência da IA O ponto atual em que a sociedade está a respeito da IA deixa claro, segundo os especialistas ouvidos pelo g1, que as consequências do uso dessa ferramenta vão muito além de apenas facilitar tarefas do dia a dia. “Já há uma dualidade: os alunos percebem que sim, a inteligência artificial é útil, mas, por outro lado, também notam que estão ficando dependentes dela”, diz Blikstein. As vaias traduziriam essa angústia. “Algo que começou empoderando as pessoas acaba também tornando-as reféns.” 💥Revolta em relação às 'big techs' É importante observar quem são as pessoas vaiadas: todas representam grandes empresas de tecnologia. O protesto dos recém-formados provavelmente tem relação com esse perfil. “A reação deles pode nem ser à tecnologia em si, mas aos interesses econômicos envolvidos e à eventual falta de limites éticos”, explicam Carlson Luís Pires de Toledo e Alexandre Marcondes, diretores do Colégio Visconde de Porto Seguro (SP). Os discursos proferidos nas cerimônias podem soar como fantasiosos. “Os alunos sabem que não é apenas uma vontade de contribuir com o futuro da humanidade. As big techs evidentemente querem diminuir os custos com pessoal, por exemplo. Agentes de IA não fazem greve, não pedem aumento, não reclamam de trabalhar 24 horas por dia, 7 dias por semana”, afirma Blikstein, da Universidade Columbia. O fato de esses interesses do setor privado não serem explicitamente mencionados — e sim permanecerem disfarçados pelo discurso de “avanços da sociedade” — contribuiria para essa revolta. “As pessoas perderam a paciência com essa conversa do Vale do Silício de ‘deixe que vamos entregar o futuro para vocês’”, diz o professor. Andrea Jotta, psicóloga especializada em ciberpsicologia pela PUC-SP, concorda que o distanciamento entre o que é dito nos discursos das empresas e o que de fato é percebido pelos alunos aumenta essa rejeição. “A gente quer a IA como ferramenta, não como dona dos nossos pensamentos. E a linha que divide isso não está clara. Há de se esperar um levante [contra as grandes empresas] até que tudo se ajuste”, diz. 💥Frustração de expectativas Outro fator que pode ajudar a explicar as vaias é a mudança na percepção pública sobre o que a inteligência artificial prometia entregar. Quando ferramentas como o ChatGPT ganharam popularidade, há cerca de dois ou três anos, era comum ouvir previsões otimistas sobre o potencial para resolver grandes problemas da humanidade. "Havia uma expectativa de que a inteligência artificial ajudaria a curar o câncer, combater o aquecimento global, democratizar a educação e ampliar o acesso ao conhecimento", afirma Blikstein. Segundo ele, porém, o discurso mudou rapidamente. "De um ou dois anos para cá, ficou mais claro que a utopia estava virando uma distopia. A conversa passou de 'vamos curar o câncer' para 'vamos substituir todos os advogados da empresa' ou 'vamos substituir professores nas universidades'." Para o especialista, os estudantes percebem essa mudança de foco e passam a enxergar a tecnologia com mais desconfiança. "Existe uma corrida para ver quem consegue explorar primeiro e melhor esse espaço de substituição do trabalho humano. E esses graduandos não estão mais olhando isso com bons olhos", diz. 💥Protesto contra os prejuízos ao meio ambiente As preocupações com o impacto ambiental da inteligência artificial também podem estar por trás das manifestações dos formandos. Nos Estados Unidos, cresce o debate sobre o enorme consumo de energia e água dos data centers, estruturas responsáveis por armazenar e processar os sistemas de IA. Segundo Peixoto, da UFBA, muitos estudantes associam esses custos ambientais aos interesses econômicos das grandes empresas de tecnologia. Na avaliação do professor, parte da insatisfação surge da percepção de que os benefícios da tecnologia ficam concentrados em um grupo pequeno de pessoas, enquanto os custos são compartilhados por todo o planeta. "Os ganhos ficam para os bilionários. Ao mesmo tempo, a população está lidando com dificuldades para pagar as contas e conseguir emprego", diz.
Por que alunos estão vaiando a inteligência artificial em formaturas de universidades dos EUA?
Guia Modelo Escrito em 11/06/2026
Formandos de universidades dos EUA vaiam discursos sobre IA; entenda por quê A cena clássica de uma colação de grau, em geral, inclui aplausos para cada um dos (muitos) nomes chamados ao palco, mensagens motivacionais, agradecimentos, reflexões, lágrimas de alívio e capelos sendo jogados para cima. Nos últimos meses, no entanto, o que se escutou nos Estados Unidos em casos pontuais foram… vaias. Sim, em plena cerimônia de formatura, em alto e bom som, a cada vez que a expressão “inteligência artificial” era mencionada. Na Universidade da Flórida Central, quando a executiva do setor imobiliário Gloria Caulfield fez um discurso aos formandos e chamou a IA de “a próxima Revolução Industrial”, provocou revolta nos alunos. Foi vaiada. Na Universidade do Arizona, Eric Schmidt, ex-CEO do Google, falou dos “arquitetos da inteligência artificial”, nomeados pela revista “Time” como “pessoas do ano”. Vaiado. E na Universidade Estadual do Meio do Tennessee, Scott Borchetta , executivo musical, ousou dizer aos formandos que a IA está “reescrevendo o processo de produção”. Vaiado também. Nos três casos, vídeos mostrando o descontentamento dos estudantes viralizaram nas redes sociais. “Os alunos esperam discursos de incentivo, de otimismo, de sabedoria ou de ânimo, como costuma acontecer em todas as formaturas”, afirma Adriano Peixoto, professor e membro da comissão de inteligência artificial da Universidade Federal da Bahia (UFBA). “Aí, eles ouvem uma referência à IA. É como enfiar uma faca no peito deles, justamente em um dia tão importante.” Mas, afinal, por que ouvir uma exaltação a essa tecnologia na colação de grau dói tanto? Segundo os especialistas ouvidos pelo g1, há as seguintes hipóteses: medo de não conseguir um emprego após se formar; sensação de dependência da IA; revolta em relação a estes porta-vozes, que representam “big techs” (grandes empresas de tecnologia); frustração de expectativas em relação ao real uso da inteligência artificial; protesto contra os prejuízos ao meio ambiente. Leia abaixo. 💥Medo de não conseguir o primeiro emprego Discursantes são vaiados em cerimônias de formatura nos EUA Reprodução/Redes sociais Segundo Paulo Blikstein, professor do Teachers College e afiliado ao departamento de Educação da Universidade Columbia, em Nova York, o avanço da inteligência artificial já traz o temor da substituição de humanos por máquinas. E, na perspectiva dos recém-formados, justamente os empregos de quem está em início de carreira podem ser os mais atingidos. “Os mais jovens se sentem ameaçados, porque sabem que vão ser impactados”, diz o especialista. As dificuldades financeiras, agravadas pelas dívidas estudantis, dão mais peso a essas preocupações. “No caso dos Estados Unidos, os alunos provavelmente contraíram um empréstimo e têm uma série de dívidas. Eles veem o nível crescente de desemprego e percebem que os trabalhos de nível inicial, de ‘entrada’, estão sendo substituídos por IA”, diz Peixoto, da UFBA. “Então, é aquela coisa: ‘eu fiz tudo isso, e agora? O que vai acontecer?’. É um sentimento de frustração. E aí isso se junta a um discurso de algum grande nome da indústria falando de inteligência artificial em tom de otimismo. Isso gera uma desconexão entre o que o estudante está sentindo e o que o palestrante está falando.” 💥Sensação de dependência da IA O ponto atual em que a sociedade está a respeito da IA deixa claro, segundo os especialistas ouvidos pelo g1, que as consequências do uso dessa ferramenta vão muito além de apenas facilitar tarefas do dia a dia. “Já há uma dualidade: os alunos percebem que sim, a inteligência artificial é útil, mas, por outro lado, também notam que estão ficando dependentes dela”, diz Blikstein. As vaias traduziriam essa angústia. “Algo que começou empoderando as pessoas acaba também tornando-as reféns.” 💥Revolta em relação às 'big techs' É importante observar quem são as pessoas vaiadas: todas representam grandes empresas de tecnologia. O protesto dos recém-formados provavelmente tem relação com esse perfil. “A reação deles pode nem ser à tecnologia em si, mas aos interesses econômicos envolvidos e à eventual falta de limites éticos”, explicam Carlson Luís Pires de Toledo e Alexandre Marcondes, diretores do Colégio Visconde de Porto Seguro (SP). Os discursos proferidos nas cerimônias podem soar como fantasiosos. “Os alunos sabem que não é apenas uma vontade de contribuir com o futuro da humanidade. As big techs evidentemente querem diminuir os custos com pessoal, por exemplo. Agentes de IA não fazem greve, não pedem aumento, não reclamam de trabalhar 24 horas por dia, 7 dias por semana”, afirma Blikstein, da Universidade Columbia. O fato de esses interesses do setor privado não serem explicitamente mencionados — e sim permanecerem disfarçados pelo discurso de “avanços da sociedade” — contribuiria para essa revolta. “As pessoas perderam a paciência com essa conversa do Vale do Silício de ‘deixe que vamos entregar o futuro para vocês’”, diz o professor. Andrea Jotta, psicóloga especializada em ciberpsicologia pela PUC-SP, concorda que o distanciamento entre o que é dito nos discursos das empresas e o que de fato é percebido pelos alunos aumenta essa rejeição. “A gente quer a IA como ferramenta, não como dona dos nossos pensamentos. E a linha que divide isso não está clara. Há de se esperar um levante [contra as grandes empresas] até que tudo se ajuste”, diz. 💥Frustração de expectativas Outro fator que pode ajudar a explicar as vaias é a mudança na percepção pública sobre o que a inteligência artificial prometia entregar. Quando ferramentas como o ChatGPT ganharam popularidade, há cerca de dois ou três anos, era comum ouvir previsões otimistas sobre o potencial para resolver grandes problemas da humanidade. "Havia uma expectativa de que a inteligência artificial ajudaria a curar o câncer, combater o aquecimento global, democratizar a educação e ampliar o acesso ao conhecimento", afirma Blikstein. Segundo ele, porém, o discurso mudou rapidamente. "De um ou dois anos para cá, ficou mais claro que a utopia estava virando uma distopia. A conversa passou de 'vamos curar o câncer' para 'vamos substituir todos os advogados da empresa' ou 'vamos substituir professores nas universidades'." Para o especialista, os estudantes percebem essa mudança de foco e passam a enxergar a tecnologia com mais desconfiança. "Existe uma corrida para ver quem consegue explorar primeiro e melhor esse espaço de substituição do trabalho humano. E esses graduandos não estão mais olhando isso com bons olhos", diz. 💥Protesto contra os prejuízos ao meio ambiente As preocupações com o impacto ambiental da inteligência artificial também podem estar por trás das manifestações dos formandos. Nos Estados Unidos, cresce o debate sobre o enorme consumo de energia e água dos data centers, estruturas responsáveis por armazenar e processar os sistemas de IA. Segundo Peixoto, da UFBA, muitos estudantes associam esses custos ambientais aos interesses econômicos das grandes empresas de tecnologia. Na avaliação do professor, parte da insatisfação surge da percepção de que os benefícios da tecnologia ficam concentrados em um grupo pequeno de pessoas, enquanto os custos são compartilhados por todo o planeta. "Os ganhos ficam para os bilionários. Ao mesmo tempo, a população está lidando com dificuldades para pagar as contas e conseguir emprego", diz.