Desde 2024, governo do RJ cortou verba para 'Informação e Inteligência', deixou de executar projetos e reduziu meta de capacitação de policiais na área

Guia Modelo Escrito em 26/04/2026


ATENÇÃO, IMAGENS FORTES: Mulher chora após identificar parente entre os mortos na megaoperação o Rio; corpos foram levados por moradores até praça no Complexo da Penha. REUTERS/Ricardo Moraes Nos últimos 2 anos, o governo do RJ deixou de executar projetos ou reduziu metas que poderiam reforçar ações de inteligência na área de segurança. Além disso, cortou pela metade a verba prevista no orçamento da Secretaria de Segurança para a subfunção "Informação e Inteligência" em 2025. A implantação de um centro tecnológico de inteligência foi excluída do planejamento do governo e o projeto de criar agências de inteligência em 12 delegacias foi adiado. Já a meta de capacitar quase 1.200 policiais em temas de inteligência foi reduzida para 477. As informações sobre os projetos e a capacitação dos policiais constam no último relatório disponível de avaliação das atividades executadas pelo governo. Os dados se referem a 2024 e foram divulgados em março de 2025. Já as informações sobre a dotação orçamentária são da Secretaria da Fazenda e estavam disponíveis até outubro. O Rio de Janeiro tem se consolidado como um refúgio para chefes do tráfico vindos de diferentes estados do país, que se aproveitam da complexidade territorial e da atuação fragmentada das forças de segurança para se esconder. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça Veja os vídeos que estão em alta no g1 Embora a polícia realize operações frequentes em comunidades e áreas estratégicas, muitas dessas ações acabam não resultando na prisão dos principais líderes criminosos, levantando questionamentos sobre a eficácia e o planejamento dessas investigações. Um exemplo emblemático foi a Operação Contenção, realizada em outubro do ano passado nos complexos da Penha e do Alemão, que terminou com 122 mortos — a mais letal da história do país — e, ainda assim, não conseguiu capturar alvos centrais do crime organizado, como o traficante Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca. Ele continua foragido até agora. Especialistas apontam que a ausência de um trabalho de inteligência mais integrado e preciso pode comprometer o alcance dessas ações, permitindo que figuras-chave escapem mesmo diante de um grande aparato policial. Segundo Karine Vargas, economista e coordenadora do Observatório de Orçamento e Finanças Públicas dos Entes Subnacionais do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o orçamento destinado à inteligência é baixo e isso influencia no resultado das operações. "Não é suficiente para pensar em uma polícia bem preparada, com tecnologia de ponta que faça uma investigação com precisão e que estabeleça resultados de qualidade para o controle do crime organizado”, disse Vargas. Em nota (veja a íntegra no fim da reportagem), o governo do Rio de Janeiro informou que investiu mais de R$ 377,5 milhões em equipamentos de inteligência e que foram aplicados, por parte da Polícia Civil, mais de R$ 201 milhões em ações voltadas à inteligência, tecnologia e estrutura. Entre as principais aquisições destacam-se câmeras, software e drones. "De novembro do ano passado até agora, já foram instaladas câmeras embarcadas nas viaturas e o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) realizou a aquisição de seis drones equipados com câmeras de zoom de até 400x, sensores térmicos, telêmetro a laser e tecnologia de posicionamento preciso - ampliando a capacidade de monitoramento e apoio a operações de inteligência", diz a nota. 'Acabamos sendo relegados' Em reunião da Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência do Congresso Nacional, depois da megaoperação nos complexos da Penha e do Alemão, o diretor da área de ensino e instrução da Subsecretaria de Inteligência da Polícia Militar do Rio de Janeiro, capitão Daniel Ferreira de Souza, disse que o resultado “foi algo ínfimo dentro do poder do Comando Vermelho e das outras facções na estrutura do Rio de Janeiro". Ele também defendeu que a atividade de inteligência é essencial para a tomada de decisões e para a definição de políticas públicas, mas acaba ficando em segundo plano. "Por muitas vezes, nós acabamos sendo relegados a uma atividade secundária quando, na verdade, o conhecimento do que estava acontecendo estava dentro das agências de inteligência, mas nós estávamos em segundo plano [...]. Talvez, as agências de inteligência sejam uma saída pra gente conseguir obter resultados melhores no combate dessas organizações", afirmou. O governo do RJ informou que, na gestão do então governador Cláudio Castro (PL), foi inaugurada uma Central de Inteligência da Polícia Civil, que reúne modernos softwares. É caso do Celebrite, que extrai, analisa e gerencia dados de dispositivos eletrônicos. São dois contratos, um para a Polícia Civil e outro para a Polícia Militar, no valor total de R$ 19.879.113,96. "Outro destaque é o Centro Integrado de Comando e Controle, um hub de tecnologia totalmente remodelado na gestão Cláudio Castro e que tem uma Sala de Inteligência com o sistema de reconhecimento facial, que já permitiu a prisão de mais de 500 foragidos da Justiça e acompanha em tempo real o deslocamento dos policiais militares que estão com câmeras corporais em todo o território fluminense. O contrato é de R$ 1.480.560,00", diz a nota. Castro renunciou ao cargo em março de 2026, na véspera de um julgamento no Tribunal Superior Eleitoral que o tornou inelegível – e que o cassaria se ainda estivesse no cargo. O atual governador em exercício é Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça do estado. Agências de inteligência ficaram para depois O projeto de criar agências de inteligência em 12 delegacias do Rio de Janeiro foi adiado para o segundo semestre de 2025. Segundo o último relatório de execução de atividades disponível, nenhuma das agências existe até o momento. Já o centro tecnológico de inteligência seria implantado na Secretaria de Estado de Polícia Civil, mas a ação foi excluída do planejamento do governo do RJ. A meta de capacitação de policiais civis em temas de inteligência também foi revista – era de 1.192 agentes e foi reduzida para 477. Segundo o relatório, 801 policiais foram capacitados em 2024, um número maior que a meta atualizada, mas menor que o previsto inicialmente. Para Cristiano Maronna, doutor em direito penal e diretor do Justa, uma organização que atua no campo da economia política da Justiça, o trabalho de segurança pública no Rio de Janeiro tem por pilar central a atuação da Polícia Militar, enquanto a Polícia Civil, que tem a função investigativa, é subfinanciada. “Isso enfraquece a capacidade do estado esclarecer crimes, identificar seus autores e desmantelar organizações criminosas. Você inviabiliza o trabalho de inteligência policial”, afirmou Maronna. A economista Vargas concorda. Segundo ela, ao não priorizar projetos e financiamentos na área de inteligência, o governo estadual indica que sua estratégia é o investimento em policiamento ostensivo. "Isso não é adequado para enfrentar o crime organizado de forma estrutural”, disse a especialista. O governo não se pronunciou sobre os projetos que deixaram de ser implementados ou tiveram a meta reduzida em 2024. Orçamento para 'Informação e Inteligência' cortado pela metade O orçamento destinado para a segurança pública no RJ em todo o ano de 2025 foi de R$ 24,08 bilhões. A cada R$ 100 desse montante, menos de meio centavo foi destinado especificamente para uma subfunção do orçamento estadual chamada “Informação e Inteligência”, pouco mais de R$ 1 milhão ao todo. 🔎Despesas registradas nessa subfunção do orçamento público estão voltadas para programas e aquisições que ajudam na tomada de decisões estratégicas. Locação e manutenção de softwares e equipamentos de análise de dados, por exemplo, além de treinamento e capacitação em Tecnologia da Informação e Comunicação, são gastos classificados na subfunção “Informação e Inteligência”. O recurso previsto para essa rubrica em 2025 era maior, de R$ 2,3 milhões, mas a dotação inicial foi cortada em mais da metade – e a verba acabou em julho. A redução de orçamento para “Informação e Inteligência” vai na contramão do aumento na dotação orçamentária inicial para a segurança pública no estado. O valor previsto era R$ 19,4 bilhões, mas o valor aumentou quase 24%. Nem todos os gastos com inteligência na segurança pública estão inseridos dentro dessa subfunção. Existem ações pulverizadas no orçamento que também são ligadas à política, o que inviabiliza qualquer controle e fiscalização, segundo especialistas ouvidos pelo g1. O governo do RJ confirmou que "o aparato relacionado à area de inteligência não está incluído em apenas uma rubrica do orçamento estadual" e justificou que o enquadramento das despesas fica a critério de cada órgão, respeitando o orçamento próprio das secretarias. Segundo a economista Vargas, falta transparência nos gastos, o que limita o planejamento e a inteligência em segurança pública. “Quando os gastos não são devidamente divulgados e detalhados, torna-se difícil identificar falhas de alocação, gastos redundantes ou ausência de investimento em áreas prioritárias, explicou. 'Investimento não é perene' Somente a partir de 2021, os gastos na subfunção “Informação e Inteligência” aparecem anualmente no sistema do governo estadual. Aquele foi o ano com mais orçamento empenhado na categoria até hoje: R$ 23,4 milhões. O valor foi fruto de um incremento de 15% em relação à dotação inicial. Já em 2022, o recurso minguou. Foram previstos inicialmente R$ 6,4 milhões para a subfunção, mas pouco mais da metade foi empenhado (R$ 3,3 milhões). Legalmente, os governos podem alterar a previsão orçamentária no decorrer do ano, mas, segundo Vargas, tal prática pode desmantelar a política pública. Em 2023, embora a previsão orçamentária para “Informação e Inteligência” tenha sido de R$ 17,4 milhões, apenas R$ 2,2 milhões foram empenhados e R$ 1,7 milhão efetivamente pago - quase 90% a menos do que o previsto na dotação inicial. Já em 2024, a subfunção recebeu um aumento de 610% em relação ao valor previsto. A dotação inicial era de R$ 2,3 milhões e foi aumentada para R$ 16,4 milhões ao longo do ano. Desse total, R$ 14,3 milhões foram empenhados. A maior parte do recurso, R$ 10 milhões, foi gasto com locação de softwares. A economista Úrsula Peres, professora da Universidade São Paulo e pesquisadora associada ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública, destaca que, mesmo quando há grandes aumentos percentuais, o investimento na área não é perene e ainda está longe do valor necessário. O recurso empenhado em “Informação e Inteligência” correspondeu a 0,08% do orçamento total da Segurança Pública em 2024, que foi R$ 16,4 bilhões. Foi a subfunção que recebeu o segundo menor percentual. Esse valor fica acima apenas do gasto com formação de recursos humanos, que recebeu R$ 5,7 milhões em 2024, o que corresponde a 0,03% do orçamento total da Segurança Pública. Em 2025 a ordem se inverteu. A subfunção "Formação de Recursos Humanos" recebeu o segundo menor percentual de gastos na segurança pública, depois de “Informação e Inteligência”. O valor empenhado de R$ 8,5 milhões corresponde a 0,06% do total de recursos empenhados na Segurança Pública, que foi R$ 13,9 bilhões, ou seja, seis centavos a cada R$ 100 gastos. Segundo Vargas, os custos com cursos de investigação, táticas e de inteligência dos policiais são mapeados na subfunção “Formação de Recursos Humanos", especialmente na ação “Capacitação de Policiais Civis”. "A baixa aplicação de recursos em Informação e Inteligência e na Formação de Recursos Humanos impacta diretamente na estratégia de desenvolvimento das operações policiais e na qualificação dos policiais", disse a especialista. Em relação aos recursos para formação e capacitação dos policiais, principalmente na área de inteligência, o governo do RJ não se manifestou. Verba para polícia técnico-científica caiu pela metade Para o especialista Maronna, além da falta de investimentos na Polícia Civil, que investiga crimes, também é preocupante a redução de orçamento para a polícia técnico-científica, responsável pela produção de provas por meio de tecnologia, análise de vestígios e perícia. De acordo com um levantamento do RJ2, de 2022 a 2025, a verba para polícia técnico-científica caiu quase pela metade: de R$ 53 milhões para menos de R$ 30 milhões. Uma das consequências do menor investimento nas polícias investigativas é a falta de elucidação de crimes como homicídio. De acordo com o Instituto Sou da Paz, apenas 1 em cada 4 assassinatos no RJ é esclarecido e esse percentual vem caindo ao longo dos anos. O governo afirmou que vem investindo em equipamentos, como as câmeras operacionais portáteis, compradas no valor de R$ 207.118.200,00 e as câmeras embarcadas para viaturas, no valor de R$ 116.151.768,00, contratadas em licitações conduzidas pela Casa Civil nos anos de 2021 a 2025. "Também estão sendo adquiridos drones pelo Gabinete de Segurança Institucional, num valor empenhado de R$ 2.538.551,93. Esses equipamentos são importantes aliados em ações de inteligência das Forças de Segurança e Defesa Civil. Ainda sobre investimentos em inteligência, há um montante de R$ 30.348.493,54 destinado a aquisições de microomputadores desktops, soluções de backup e recuperação de dados", diz a nota. Nota do governo do RJ "O Governo do Estado do Rio já investiu mais de R$ 377,5 milhões em equipamentos de inteligência. Entre as principais aquisições, destacam-se câmeras, software e drones. Na gestão do governador Cláudio Castro foi inaugurada uma Central de Inteligência da Polícia Civil, que reúne modernos software, como é o caso do Celebrite, que extrai, analisa e gerencia dados de dispositivos eletrônicos. São dois contratos, um para a Polícia Civil e outro para a Polícia Militar, no valor total de R$ 19.879.113,96. Entre os equipamentos, destacam-se as câmeras operacionais portáteis, no valor de R$ 207.118.200,00 e as câmeras embarcadas para viaturas, no valor de R$ 116.151.768,00, contratadas em licitações conduzidas pela Casa Civil nos anos de 2021 a 2025. Outro destaque é o Centro Integrado de Comando e Controle, um hub de tecnologia totalmente remodelado na gestão Cláudio Castro e que tem uma Sala de Inteligência com o sistema de reconhecimento facial, que já permitiu a prisão de mais de 500 foragidos da Justiça e acompanha em tempo real o deslocamento dos policiais militares que estão com câmeras corporais em todo o território fluminense. O contrato é de R$ 1.480.560,00. Também estão sendo adquiridos drones pelo Gabinete de Segurança Institucional, num valor empenhado de R$ 2.538.551,93. Esses equipamentos são importantes aliados em ações de inteligência das forças de segurança e defesa civil. Ainda sobre investimentos em inteligência, há um montante de R$ 30.348.493,54 destinado a aquisições de microcomputadores desktops, soluções de backup e recuperação de dados. É importante destacar que o enquadramento das despesas fica a critério de cada órgão, respeitando o orçamento próprio das secretarias. Portanto, esses valores são apurados para serem apresentados de maneira global, seguindo o entendimento da gestão de cada órgão. Além disso, podem existir recursos disponíveis em uma despesa de outra subfunção, ou seja, todo o aparato relacionado à área de inteligência não está incluído em apenas uma rubrica do orçamento estadual. De novembro do ano passado até o agora, já foram instaladas câmeras embarcadas nas viaturas e o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) realizou a aquisição de seis drones equipados com câmeras de zoom de até 400x, sensores térmicos, telêmetro a laser e tecnologia de posicionamento preciso - ampliando a capacidade de monitoramento e apoio a operações de inteligência. Por parte da Policia Civil, já foram aplicados mais de R$ 201 milhões em ações voltadas à inteligência, tecnologia e estrutura. Os investimentos incluem a compra de drones, softwares especializados, equipamentos modernos e a capacitação contínua dos agentes. O objetivo é aprimorar a eficiência operacional, reduzir riscos e aumentar a precisão das ações no enfrentamento às organizações criminosas."