Uma partida de tênis e um grupo de ‘ninjas’: como foi desenvolvida a urna eletrônica usada nas eleições e que completa 30 anos

Guia Modelo Escrito em 04/10/2026


30 anos da urna eletrônica: como evoluiu nas eleições brasileiras O ano era 1995. Em Brasília, uma conversa durante uma partida de tênis ajudou a dar início a uma das maiores transformações das eleições brasileiras. O então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Carlos Velloso, conversava com o técnico em informática Paulo Camarão sobre a possibilidade de informatizar a votação no país. A ideia rapidamente deixou a quadra e foi parar no TSE. Para transformar o projeto em realidade, a Justiça Eleitoral reuniu especialistas de diferentes áreas. Entre eles, um grupo de engenheiros e técnicos que ficou conhecido como os “ninjas”. A equipe ficou responsável por transformar as ideias iniciais em um projeto de hardware e software e estabelecer os requisitos para a nova máquina. Em dezembro de 1995, o TSE publicou o edital para a produção dos equipamentos e, em março de 1996, a empresa brasileira Unisys venceu a licitação. Poucos meses depois, a urna eletrônica estreou nas eleições municipais de 1996. Cerca de 30% do eleitorado votou pelo novo sistema naquele primeiro pleito. A implantação foi ampliada gradualmente e, hoje, a tecnologia é utilizada em todos os municípios brasileiros. Os "ninjas" 🥷 O grupo de "ninjas" era coordenado por Paulo Camarão e reunia profissionais como Paulo Nakaya, Mauro Hashioka, Antônio Ésio Salgado, o “Toné”, Oswaldo Catsumi e Giuseppe Janino. Também participaram representantes de instituições e órgãos ligados à tecnologia e à defesa, entre eles o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Parte dessa história passa por São José dos Campos, onde estavam instituições como o Inpe, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), o então Centro Técnico Aeroespacial (CTA) e o Instituto de Estudos Avançados (IEAv). Segundo o TRE-SP, o grupo técnico se reunia duas vezes por semana, no TSE ou no próprio TRE-SP, para apresentar os trabalhos e trocar conhecimentos sobre o projeto. Foto 1: Urna usada em 1996. Foto 2: Ministro Carlos Velloso testa urna. Foto 3: Comissão técnica que ficou conhecida como 'os ninjas' TRE/SP/Arquivo Antes da urna, o voto era no papel A mudança proposta pelo TSE tinha dois grandes objetivos: reduzir problemas e possibilidades de fraude relacionados à votação e à apuração manual e acelerar a divulgação dos resultados. Antes da urna eletrônica, os eleitores votavam em cédulas de papel. Depois do encerramento da votação, os votos precisavam ser contados manualmente. O processo podia levar dias e envolvia uma grande operação de conferência e contabilização dos votos. Com a urna eletrônica, o registro dos votos passou a ser feito digitalmente e a apuração pôde ser concluída em poucas horas depois do fechamento das seções eleitorais. Para o cientista político José Maurício Cardoso do Rego, a mudança também ajudou a reduzir mecanismos tradicionais de fraude ligados à contagem manual. “Com a implantação das urnas eletrônicas, há uma inibição clara desse processo de fraude”, afirmou. Urna eletrônica usada nas eleições municipais no ano de 1996. TRE-SP De 2 MB aos modelos atuais A primeira versão, a UE96, tinha apenas 2 megabytes de memória e utilizava disquetes para armazenamento e transferência de dados. Nas eleições de 1996, cerca de 30% do eleitorado votou eletronicamente. A implantação foi ampliada gradualmente e hoje a urna é utilizada em todos os municípios brasileiros. Em 30 anos, o equipamento passou por diversas atualizações. Atualmente, conta com mecanismos como assinaturas digitais, criptografia e sistemas de verificação desenvolvidos pela Justiça Eleitoral. O TSE também realiza o Teste Público de Segurança (TPS), no qual especialistas são convidados a tentar identificar vulnerabilidades nos sistemas eleitorais. Infográfico: Veja a cronologia da urna eletrônica no Brasil Arte/g1 Da tecnologia dos anos 1990 aos equipamentos atuais Em três décadas, a urna eletrônica passou por diversas mudanças. Os equipamentos atuais contam com recursos de segurança que não existiam nos primeiros modelos, incluindo assinaturas digitais, criptografia e mecanismos próprios de verificação desenvolvidos pela Justiça Eleitoral. A segurança também é submetida a testes antes das eleições. O Tribunal Superior Eleitoral realiza periodicamente o Teste Público de Segurança (TPS), que reúne especialistas para tentar identificar vulnerabilidades nos sistemas e equipamentos utilizados no processo eleitoral. A lógica é colocar os mecanismos de proteção à prova antes que eles sejam utilizados pelos eleitores. Segundo os profissionais que participaram da criação da urna, a preocupação com a segurança já existia desde os primeiros protótipos. Antonio Esio Salgado, o Toné um dos criadores da urna eletrônica São José dos Campos na história da urna A participação de São José dos Campos nessa história está ligada ao próprio perfil tecnológico da cidade. Instituições como Inpe, ITA, CTA e IEAv concentravam pesquisadores e engenheiros envolvidos em projetos de alta complexidade. Esse conhecimento acabou sendo incorporado ao desenvolvimento da urna eletrônica, em uma colaboração entre diferentes áreas e instituições. A história da urna, portanto, também é parte da história tecnológica do Vale do Paraíba. Três décadas depois Em 2026, a urna eletrônica completa três décadas de uso oficial no Brasil. Nesse período, a tecnologia deixou de ser uma novidade e passou a fazer parte da rotina das eleições brasileiras. A experiência brasileira também ultrapassou as fronteiras do país. Segundo dados citados pelos pesquisadores envolvidos no projeto, ao menos 33 países já utilizaram algum modelo de votação eletrônica inspirado ou relacionado à experiência brasileira. Veja mais notícias do Vale do Paraíba e região bragantina