Casa de luxo no Ceará e pagamentos via Pix: MP investiga “vaquinha” para prefeito comprar mansão

Guia Modelo Escrito em 09/03/2026


"Vaquinha da Corrupção" : O MP investiga transferências suspeitas para quitar a casa de praia do prefeito de Ananindeua. Uma mansão em um condomínio de luxo à beira-mar, no litoral do Ceará, virou alvo de uma investigação que envolve suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e uso de recursos públicos desviados. O imóvel fica em Fortim, pequena cidade litorânea a cerca de duas horas de Fortaleza. A casa, avaliada em cerca de R$ 4 milhões já mobiliada, é apontada pelo Ministério Público como um dos principais indícios de um suposto esquema que teria beneficiado o prefeito de Ananindeua (PA), Daniel Santos (PSB). Segundo os investigadores, o pagamento do imóvel teria sido feito por empresas e pessoas ligadas ao município do Pará, numa espécie de “vaquinha da corrupção”. A casa investigada O condomínio onde fica a residência reúne imóveis de alto padrão em uma área reservada do litoral cearense. A casa investigada é a número 4, localizada perto da portaria. No lançamento do empreendimento, ela funcionava como “casa modelo” — totalmente decorada e equipada para atrair compradores. Sem mobília, o imóvel custa cerca de R$ 2,5 milhões. Já completo e pronto para uso, chega a mais de R$ 4 milhões. O contrato de compra e venda foi feito em nome da empresa Agropecuária JD, pertencente ao prefeito. Pagamentos ligados a contratos com a prefeitura De acordo com o Ministério Público, a aquisição dessa casa seria parte de um esquema maior de corrupção. Segundo os investigadores, dinheiro público que deveria financiar educação, saúde e infraestrutura em Ananindeua teria sido desviado para pagar patrimônios pessoais do prefeito. A investigação identificou um padrão nas movimentações financeiras: empresas recebiam pagamentos da prefeitura e, logo depois, transferiam dinheiro para quitar parcelas do imóvel. Uma dessas empresas é a Neo BRS, fornecedora de materiais escolares para a Secretaria de Educação de Ananindeua. Em setembro e outubro de 2024, a empresa emitiu duas notas fiscais que somam R$ 1.488.137 por cadernos, canetas, réguas e tesouras vendidos à prefeitura. Segundo os documentos analisados a prefeitura pagou o valor em uma conta da empresa; no dia seguinte, a Neo BRS transferiu R$ 866 mil dessa mesma conta para pagar uma parcela da casa no Ceará. O Fantástico procurou representantes da empresa, mas não encontrou ninguém no local para comentar o caso. Outro exemplo citado nas investigações envolve a Ferreira Comercial, que vende produtos de limpeza para a Secretaria de Educação. Em outubro de 2024, a empresa emitiu uma nota fiscal de R$ 521 mil. A prefeitura pagou o valor à empresa pela manhã; horas depois, a Ferreira Comercial transferiu R$ 250 mil para pagar outra parcela da casa de veraneio. A equipe da reportagem foi ao endereço informado na nota fiscal da empresa, mas moradores da rua disseram não conhecer a companhia. O Ministério Público também aponta participação de pessoas ligadas à administração municipal. Um dos casos citados envolve Alexandre Gomes, vereador que assumiu a Secretaria de Habitação de Ananindeua em fevereiro de 2024. Cinco dias após tomar posse, segundo a investigação, a construtora ligada a ele fez dois depósitos que somam R$ 1 milhão para pagar parcelas da casa no Ceará. O vereador não respondeu aos contatos da reportagem por telefone nem por e-mail. Patrimônio do prefeito é alvo de investigação O procurador-geral de Justiça do Pará, Alexandre Tourinho, afirma que o Ministério Público investiga uma evolução patrimonial considerada incompatível com a renda declarada do prefeito. Segundo ele, há indícios de que empresas contratadas pela prefeitura ajudavam a pagar despesas pessoais do gestor. Entre os pagamentos citados por investigadores estão: combustível e óleo diesel para fazenda do prefeito parcelas de uma aeronave particular outros bens de alto valor Segundo depoimentos coletados na investigação, diferentes empresas teriam pago cotas de um avião avaliado em cerca de R$ 10,9 milhões. A aeronave estava registrada em nome da Agropecuária JD. Durante buscas realizadas no Pará e no Ceará, investigadores também encontraram cerca de R$ 4,1 milhões em relógios de luxo em um apartamento ligado ao prefeito em Fortaleza. Entre as marcas estavam Rolex e Patek Philippe, bens considerados indícios de lavagem de dinheiro pelos investigadores. Foi nesse mesmo apartamento que os agentes encontraram o contrato de compra da casa de Fortim, o que levou os investigadores até o imóvel. Investigação chegou ao STF Daniel Santos declarou à Justiça Eleitoral, em 2024, um patrimônio de R$ 4,8 milhões. Mesmo assim, o Ministério Público pediu o bloqueio de mais de R$ 130 milhões em bens, incluindo: uma fazenda comprada por R$ 16 milhões imóveis aeronave outros patrimônios ligados ao prefeito. Patrimônio declarado pelo prefeito de Ananindeua (PA) em 2024. Reprodução/Fantástico Inicialmente, as investigações tramitavam na Justiça do Pará, mas parte do caso foi levada ao Supremo Tribunal Federal. Isso ocorreu porque a defesa do prefeito tentou incluir no processo a esposa dele, a deputada federal Alessandra Haber (MDB), que possui foro privilegiado. Segundo o Ministério Público, ela não é investigada no processo. A deputada federal Alessandra Haber (MDB). Reprodução/Fantástico Promotores afirmam que, após uma operação policial, o prefeito tentou transferir a casa de Fortim para o nome da esposa. A escritura, no entanto, não foi concluída porque seria necessário comprovar a origem do dinheiro usado na compra. Agora, caberá à ministra Cármen Lúcia decidir se o caso continuará no STF ou se retornará à Justiça do Pará. Após as operações policiais, o prefeito teria tentado transferir a casa de Fortim para o nome da esposa. A escritura não foi assinada porque seria necessário declarar a origem dos recursos usados na compra. Recentemente, a defesa de Daniel Santos pediu ao STF a anulação das investigações, alegando irregularidades na atuação do Ministério Público. O ministro Alexandre de Moraes suspendeu temporariamente o processo até análise do pedido. A reportagem tentou contato com o prefeito na prefeitura de Ananindeua. Até a publicação desta reportagem, Daniel Santos não respondeu. Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. 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