Exames já indicavam suspeita de câncer no papa Leão XIV; veja nota do Vaticano O adenocarcinoma de pulmão, tipo de câncer diagnosticado no Papa Leão XIV, tem sobrevida de 90% a 92% em cinco anos quando é descoberto no estágio mais inicial, o 1A1, segundo dados da Associação Internacional para o Estudo do Câncer de Pulmão (IASLC). O índice cai conforme a doença avança: fica entre 52% e 65% no estágio 2, entre 12% e 41% no 3 e chega a, no máximo, 15% no 4. O estágio do tumor do Papa, de 71 anos, não foi divulgado. Leão XIV foi operado na terça-feira (13), no hospital Gemelli, em Roma, para retirar uma lesão encontrada em exame de rotina. Teve o lobo inferior do pulmão direito removido, em uma cirurgia videoassistida de cerca de 90 minutos, sem complicações, segundo o boletim médico do Vaticano. O pontífice acordou normalmente e a previsão é de uma semana de internação. O Papa Leão XIII lidera a oração do Angelus da janela do Palácio Apostólico no Vaticano, em 11 de outubro de 2026 Vatican Media/Elisabetta Trevisan/Divulgação via REUTERS Duas respostas que ainda faltam O estágio e as mutações do tumor são as informações que vão dizer o que acontece daqui para frente, e nenhuma das duas foi divulgada. O estágio indica a extensão da doença e, com ele, a chance de cura. As mutações, alterações genéticas que o laboratório procura no tumor retirado, mostram se há remédios feitos sob medida para atacá-lo e se o Papa precisará de tratamento complementar depois da cirurgia. Oncologista do grupo Oncoclínicas e colaborador da instituição científica Americas Health Foundation, Stephen Stefani explica que pesquisa das mutações é obrigatória em todo paciente com adenocarcinoma e costuma ocorrer enquanto ele se recupera da operação. Ele ressalta que o fato de o tumor ter sido achado em exame de rotina, e não por sintomas, aumenta a taxa de cura. Uma parte do pulmão O pulmão direito é dividido em três partes, chamadas lobos, e o esquerdo em duas. A retirada do lobo inferior direito, como no caso do Papa, não é uma cirurgia pequena, observa Stefani, mas deixa o paciente com a maior parte do órgão funcionando. Antes de operar, a equipe confere se o paciente tem reserva de pulmão suficiente para viver sem aquela parte. A cirurgia do Papa foi videoassistida, uma técnica minimamente invasiva em que o médico trabalha olhando o interior do tórax por uma câmera. O Vaticano não detalhou outros aspectos do procedimento. Em operações desse tipo, a câmera e os instrumentos entram por pequenos orifícios na parede do tórax. As pinças e os demais instrumentos servem para separar o lobo dos tecidos ao redor e fechar os vasos sanguíneos e os brônquios, as vias por onde o ar chega ao pulmão. As informações são de Ricardo Terra, professor de Cirurgia Torácica da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica. O instrumental é o mesmo da cirurgia aberta. O lobo é então colocado dentro de um saco bastante reforçado e puxado para fora do tórax por um dos orifícios, um pouco maior que os demais, mas sem espaço para a passagem de uma mão. A peça precisa sair inteira, destaca Terra, porque esse é um princípio da cirurgia oncológica: retirar o tumor com uma margem adequada de tecido saudável ao redor reduz as chances de a doença voltar. A peça inteira também permite ao patologista, o médico que examina o tecido no laboratório, fazer uma análise mais completa. Quando o tumor aparece e o que o causa O adenocarcinoma nasce nas células que revestem as vias respiratórias e produzem muco, e costuma se formar na parte mais periférica do pulmão. Responde por cerca de 40% dos cânceres de pulmão, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos. O cigarro é, disparado, a maior causa da doença, e a fumaça contém mais de 7 mil substâncias, ao menos 50 delas cancerígenas, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca). O adenocarcinoma, no entanto, é o tipo com mais chance de surgir também em quem nunca fumou. Nesses casos, o tumor pode estar ligado a mutações sem uma causa específica conhecida, e a exposição à poluição, ao gás radônio e ao amianto também entra na lista de riscos. A doença avança em silêncio. Os tumores da borda do pulmão costumam não dar sintomas, e quando os sinais surgem são respiratórios: tosse que não alivia, falta de ar desproporcional ao que a pessoa está acostumada, infecções de repetição e perda de peso sem motivo. Qualquer um deles pede investigação, que começa pela radiografia de tórax e segue para a tomografia se houver suspeita. Chance de cura cai a cada estágio O estágio em que o tumor é descoberto é o que mais pesa no prognóstico. Ele é definido por três medidas: o tamanho do tumor, o comprometimento dos linfonodos da região e a presença de metástase, quando a doença chega a outros órgãos. Segundo Stefani, no estágio 1A, o mais inicial, a taxa de cura passa de 90%. A partir do estágio 2 a queda é brusca, e no estágio 4, com a doença espalhada, a minoria dos pacientes está viva cinco anos depois. A tabela abaixo detalha a sobrevida em cada subdivisão dos estágios. Sobrevida global em cinco anos, por estágio do câncer de pulmão Os números são aproximados, variam conforme a edição do sistema de classificação dos tumores (TNM) e a população estudada, e não incorporam plenamente os avanços recentes em imunoterapia e terapias direcionadas. Fonte: Associação Internacional para o Estudo do Câncer de Pulmão (IASLC). Tratamento depende do que o laboratório encontrar A cirurgia é a principal estratégia contra a doença localizada, e pode retirar um pedaço do pulmão, um segmento ou o lobo inteiro. Depois, a análise do material, junto com o estágio, indica se há necessidade de tratamentos que agem no organismo todo: remédios direcionados às mutações do tumor, imunoterapia, que ajuda o sistema de defesa a reconhecer as células doentes, ou quimioterapia. A radioterapia tem papel mais restrito, reduzindo o risco de a doença voltar no local quando a cirurgia não deixa margem de segurança, e aliviando sintomas quando o tumor não pode ser retirado. Mesmo depois do tratamento, o acompanhamento é longo. O Inca recomenda exames de imagem a cada três meses nos dois primeiros anos e a cada seis meses até o quinto ano, período em que se concentra a maior parte dos retornos da doença, e depois tomografia anual, já que o risco de um novo tumor persiste. Os percentuais de cura refletem o que a literatura médica reúne hoje, lembra Stefani, e tendem a melhorar com o avanço dos tratamentos. Não devem ser lidos como previsão para um paciente em particular.
Câncer de pulmão diagnosticado no Papa tem chance de cura acima de 90% em estágio inicial; entenda
Guia Modelo Escrito em 14/10/2026
Exames já indicavam suspeita de câncer no papa Leão XIV; veja nota do Vaticano O adenocarcinoma de pulmão, tipo de câncer diagnosticado no Papa Leão XIV, tem sobrevida de 90% a 92% em cinco anos quando é descoberto no estágio mais inicial, o 1A1, segundo dados da Associação Internacional para o Estudo do Câncer de Pulmão (IASLC). O índice cai conforme a doença avança: fica entre 52% e 65% no estágio 2, entre 12% e 41% no 3 e chega a, no máximo, 15% no 4. O estágio do tumor do Papa, de 71 anos, não foi divulgado. Leão XIV foi operado na terça-feira (13), no hospital Gemelli, em Roma, para retirar uma lesão encontrada em exame de rotina. Teve o lobo inferior do pulmão direito removido, em uma cirurgia videoassistida de cerca de 90 minutos, sem complicações, segundo o boletim médico do Vaticano. O pontífice acordou normalmente e a previsão é de uma semana de internação. O Papa Leão XIII lidera a oração do Angelus da janela do Palácio Apostólico no Vaticano, em 11 de outubro de 2026 Vatican Media/Elisabetta Trevisan/Divulgação via REUTERS Duas respostas que ainda faltam O estágio e as mutações do tumor são as informações que vão dizer o que acontece daqui para frente, e nenhuma das duas foi divulgada. O estágio indica a extensão da doença e, com ele, a chance de cura. As mutações, alterações genéticas que o laboratório procura no tumor retirado, mostram se há remédios feitos sob medida para atacá-lo e se o Papa precisará de tratamento complementar depois da cirurgia. Oncologista do grupo Oncoclínicas e colaborador da instituição científica Americas Health Foundation, Stephen Stefani explica que pesquisa das mutações é obrigatória em todo paciente com adenocarcinoma e costuma ocorrer enquanto ele se recupera da operação. Ele ressalta que o fato de o tumor ter sido achado em exame de rotina, e não por sintomas, aumenta a taxa de cura. Uma parte do pulmão O pulmão direito é dividido em três partes, chamadas lobos, e o esquerdo em duas. A retirada do lobo inferior direito, como no caso do Papa, não é uma cirurgia pequena, observa Stefani, mas deixa o paciente com a maior parte do órgão funcionando. Antes de operar, a equipe confere se o paciente tem reserva de pulmão suficiente para viver sem aquela parte. A cirurgia do Papa foi videoassistida, uma técnica minimamente invasiva em que o médico trabalha olhando o interior do tórax por uma câmera. O Vaticano não detalhou outros aspectos do procedimento. Em operações desse tipo, a câmera e os instrumentos entram por pequenos orifícios na parede do tórax. As pinças e os demais instrumentos servem para separar o lobo dos tecidos ao redor e fechar os vasos sanguíneos e os brônquios, as vias por onde o ar chega ao pulmão. As informações são de Ricardo Terra, professor de Cirurgia Torácica da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica. O instrumental é o mesmo da cirurgia aberta. O lobo é então colocado dentro de um saco bastante reforçado e puxado para fora do tórax por um dos orifícios, um pouco maior que os demais, mas sem espaço para a passagem de uma mão. A peça precisa sair inteira, destaca Terra, porque esse é um princípio da cirurgia oncológica: retirar o tumor com uma margem adequada de tecido saudável ao redor reduz as chances de a doença voltar. A peça inteira também permite ao patologista, o médico que examina o tecido no laboratório, fazer uma análise mais completa. Quando o tumor aparece e o que o causa O adenocarcinoma nasce nas células que revestem as vias respiratórias e produzem muco, e costuma se formar na parte mais periférica do pulmão. Responde por cerca de 40% dos cânceres de pulmão, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos. O cigarro é, disparado, a maior causa da doença, e a fumaça contém mais de 7 mil substâncias, ao menos 50 delas cancerígenas, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca). O adenocarcinoma, no entanto, é o tipo com mais chance de surgir também em quem nunca fumou. Nesses casos, o tumor pode estar ligado a mutações sem uma causa específica conhecida, e a exposição à poluição, ao gás radônio e ao amianto também entra na lista de riscos. A doença avança em silêncio. Os tumores da borda do pulmão costumam não dar sintomas, e quando os sinais surgem são respiratórios: tosse que não alivia, falta de ar desproporcional ao que a pessoa está acostumada, infecções de repetição e perda de peso sem motivo. Qualquer um deles pede investigação, que começa pela radiografia de tórax e segue para a tomografia se houver suspeita. Chance de cura cai a cada estágio O estágio em que o tumor é descoberto é o que mais pesa no prognóstico. Ele é definido por três medidas: o tamanho do tumor, o comprometimento dos linfonodos da região e a presença de metástase, quando a doença chega a outros órgãos. Segundo Stefani, no estágio 1A, o mais inicial, a taxa de cura passa de 90%. A partir do estágio 2 a queda é brusca, e no estágio 4, com a doença espalhada, a minoria dos pacientes está viva cinco anos depois. A tabela abaixo detalha a sobrevida em cada subdivisão dos estágios. Sobrevida global em cinco anos, por estágio do câncer de pulmão Os números são aproximados, variam conforme a edição do sistema de classificação dos tumores (TNM) e a população estudada, e não incorporam plenamente os avanços recentes em imunoterapia e terapias direcionadas. Fonte: Associação Internacional para o Estudo do Câncer de Pulmão (IASLC). Tratamento depende do que o laboratório encontrar A cirurgia é a principal estratégia contra a doença localizada, e pode retirar um pedaço do pulmão, um segmento ou o lobo inteiro. Depois, a análise do material, junto com o estágio, indica se há necessidade de tratamentos que agem no organismo todo: remédios direcionados às mutações do tumor, imunoterapia, que ajuda o sistema de defesa a reconhecer as células doentes, ou quimioterapia. A radioterapia tem papel mais restrito, reduzindo o risco de a doença voltar no local quando a cirurgia não deixa margem de segurança, e aliviando sintomas quando o tumor não pode ser retirado. Mesmo depois do tratamento, o acompanhamento é longo. O Inca recomenda exames de imagem a cada três meses nos dois primeiros anos e a cada seis meses até o quinto ano, período em que se concentra a maior parte dos retornos da doença, e depois tomografia anual, já que o risco de um novo tumor persiste. Os percentuais de cura refletem o que a literatura médica reúne hoje, lembra Stefani, e tendem a melhorar com o avanço dos tratamentos. Não devem ser lidos como previsão para um paciente em particular.