Afogamento pode acontecer em segundos e em silêncio: o alerta de médicos para proteger crianças na água

Guia Modelo Escrito em 07/07/2026


Crianças se refrescam na piscina Hamilton Fish, em 18 de julho de 2017, no bairro Lower East Side, em Nova York. AP/Mary Altaffer, Arquivo A cena costuma ser diferente daquela mostrada em filmes: uma criança se afogando nem sempre grita, bate os braços ou consegue pedir ajuda. Em muitos casos, tudo acontece em silêncio — e em questão de segundos. É por isso que médicos e especialistas em segurança aquática reforçam que a principal proteção para crianças perto da água continua sendo a vigilância ativa de um adulto. “Em casos de afogamento, segundos fazem toda a diferença”, afirma Rohit Shenoi, médico e autor de um novo alerta da Academia Americana de Pediatria (AAP). Um resgate rápido e o início da reanimação podem definir não apenas a sobrevivência, mas também reduzir o risco de sequelas permanentes. Nos Estados Unidos, entre 4 mil e 5 mil pessoas morrem afogadas todos os anos. A maior parte dos casos envolve adultos em ambientes naturais, como rios, lagos e oceanos. Mas, proporcionalmente, o risco é especialmente alto para crianças: o afogamento é a principal causa de morte na faixa de 1 a 4 anos e uma das principais entre 5 e 14 anos. Agora no g1 Atenção pode falhar Entre crianças pequenas, os acidentes acontecem com frequência em piscinas e nem sempre envolvem ausência de adultos. Muitas vezes, o problema é a falsa sensação de que alguém está observando. Foi o que aconteceu com Stewie Leonard, de 21 meses, durante uma viagem em família para a ilha de São Martinho, no Caribe, em 1989. Mais de uma dúzia de pessoas estava reunida para comemorar o aniversário de 3 anos da irmã mais velha do menino. O pai, Stew Leonard, organizava a festa na área externa; a mãe, Kim, preparava um bolo dentro da casa. Outros familiares também circulavam perto da piscina. Kim lembra que viu o filho do lado de fora e presumiu que o marido estivesse responsável por ele. “Nunca nos comunicávamos: ‘Você está olhando ele?’”, disse. “Quando todos estão olhando, ninguém está olhando.” Poucos minutos depois, a família percebeu que Stewie havia desaparecido. O pai encontrou o menino dentro da piscina. A morte levou o casal a criar uma fundação voltada à prevenção de afogamentos, com financiamento de aulas de natação e campanhas de segurança. Mortes voltaram a subir As mortes acidentais de crianças por afogamento nos EUA diminuíram de cerca de 2 mil por ano na década de 1980 para menos de mil no início dos anos 2000. A redução foi associada a uma combinação de fatores: campanhas de conscientização, ampliação do acesso a aulas de natação e regras de segurança, como a instalação de cercas ao redor de piscinas. Entre 2000 e 2019, autoridades de saúde americanas registraram queda de 38% nesses óbitos. Depois da pandemia de Covid-19, porém, a tendência mudou. O número de crianças mortas por afogamento passou de 756 em 2019 para 865 em 2024, último ano com dados completos disponíveis. Especialistas apontam que a interrupção de aulas de natação e programas de formação de salva-vidas durante a pandemia pode ter contribuído para o cenário. Ao mesmo tempo, houve aumento no uso de piscinas sem supervisão adequada em alguns locais. Tecnologia ajuda, mas não substitui Nos últimos anos, surgiram dispositivos criados para aumentar a segurança de crianças perto da água, como pulseiras que emitem alertas quando ficam submersas. A orientação dos especialistas, no entanto, é que esses recursos sejam vistos apenas como uma proteção adicional — e nunca como substitutos da presença de um responsável. A Academia Americana de Pediatria aponta que a prevenção depende de diferentes camadas de segurança: supervisão contínua de um adulto; aulas de natação apropriadas para a idade; uso correto de coletes salva-vidas; barreiras físicas em piscinas, como cercas completas e portões com fechamento automático. Para crianças pequenas, a recomendação é que um adulto seja claramente definido como responsável pela observação quando elas estiverem perto da água. Isso significa evitar celular, leitura ou conversas que desviem a atenção. “Desliguem seus celulares quando estiverem perto da piscina observando as crianças. Não fiquem sentados lendo um livro ou conversando com amigos enquanto negligenciam uma criança perto da água”, afirma Leonard. Depois de transformar a perda do filho em trabalho de prevenção, ele defende que aprender a nadar deve ser tratado como uma habilidade essencial. “Eu adoro balé, caratê, aulas de tênis, todas as atividades que as crianças podem fazer”, diz. “Mas a única coisa que você pode fazer para salvar a vida delas é colocá-las em aulas de natação.”