Pacientes morrem esperando remédios contra o câncer que o SUS já aprovou Quando Larissa Amorim morreu, aos 33 anos, o remédio que seus médicos consideravam essencial contra a leucemia já existia, já havia passado pela avaliação técnica do governo federal e já integrava as políticas públicas de assistência oncológica. A família também tinha em mãos uma decisão judicial determinando que a União o fornecesse de imediato. Ainda assim, o medicamento nunca chegou. Entre a ordem da Justiça e a morte, passaram-se 59 dias. Larissa deixou dois filhos. O caso não é isolado. A Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale) protocolou uma representação na Procuradoria-Geral da República (PGR) pedindo a investigação do que classifica como descumprimento estrutural da política de assistência farmacêutica oncológica: terapias oficialmente incorporadas ao Sistema Único de Saúde (SUS) seguem fora do alcance de parte dos pacientes meses —e, às vezes, anos— depois de aprovadas. O g1 procurou o Ministério da Saúde. O governo afirma que há um plano de ampliação da oferta de remédios, mas não comenta diretamente o prazo legal nem a representação na Procuradoria (veja mais abaixo). Larissa Amorim morreu aos 33 anos; deixou dois filhos Arquivo Pessoal A aprovação não é o fim da fila A incorporação de um medicamento ao SUS costuma ser lida como o ponto final de um processo. É, no entanto, apenas o encerramento da avaliação científica. Antes de chegar à rede pública, uma terapia passa por análises de eficácia, segurança, custo-benefício e impacto orçamentário conduzidas pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Só então o Ministério da Saúde decide incluí-la nas políticas de saúde. A lei dá ao poder público até 180 dias, depois da decisão de incorporação, para organizar compras, definir protocolos, estruturar a distribuição e preparar a rede. Quando se trata de câncer, o prazo deveria correr em regime prioritário, conforme alteração introduzida na Lei Orgânica da Saúde em 2023. Para as entidades de pacientes, é justamente nesse intervalo que muitos tratamentos ficam parados. A gerente de Políticas Públicas e Advocacy da Abrale, Luana Ferreira Lima, diz que os atrasos se concentram na definição de quem compra, de como se financia e de como se distribui —se a aquisição é centralizada pelo Ministério da Saúde ou feita pelos estados. É nesse trecho que o prazo costuma se perder. "O paciente teria, teoricamente, que ter acesso ao medicamento dentro do prazo de 180 dias. Mas esse prazo se esgota, e ele não recebe o remédio, por questões burocráticas, de operacionalização, de coordenação e de recursos", diz. O resultado é que pacientes aguardam medicamentos cujo benefício o próprio Estado já reconheceu. "Há pacientes morrendo antes de receber medicamentos aos quais já têm direito", afirma. Os números da entidade dão a dimensão do gargalo. A Abrale acompanha hoje 185 pacientes com dificuldade para acessar tratamentos já incorporados. Em 2025, quase metade dos atendimentos de seu serviço sociojurídico —46,49%— envolveu problemas de acesso ao tratamento; desses, 85% eram usuários do SUS. Em mais de um quarto dos casos, a saída foi a Justiça. A associação monitora pelo menos 64 processos relacionados a entraves de acesso. Alguns ultrapassam de longe o prazo legal. Pacientes ainda relatam dificuldade para obter o imunoterápico brentuximabe, incorporado ao SUS em 2019. No câncer, o relógio é parte do tratamento Para quem trata doenças oncológicas de evolução rápida, a espera não é uma questão burocrática. Ela muda o curso da doença. O blinatumomabe, o medicamento que Larissa esperava, é uma imunoterapia que estimula o sistema imunológico a atacar as células leucêmicas que carregam a proteína CD19. Segundo o onco-hematologista e vice-diretor da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo, Breno Gusmão, ele representou um avanço no tratamento da leucemia linfoblástica aguda —sobretudo quando a doença volta depois de controlada ou não responde à quimioterapia inicial. São esses os quadros mais difíceis, em que as terapias convencionais já falharam. A hematologista Indianara Brandão, da Faculdade de Medicina do ABC, explica que medicamentos como o blinatumomabe funcionam então como uma terapia de resgate e como ponte para o transplante de medula óssea. Mais do que uma alternativa a mais, são uma estratégia desenhada para um momento exato da doença. Quando esse momento passa, a chance pode desaparecer. "Não enxergamos apenas o medicamento. Enxergamos uma oportunidade terapêutica dentro de um momento clínico que está sendo vivido", diz. O atraso, segundo a médica, abre espaço para a progressão da doença, para infecções graves, sangramentos e a perda das condições clínicas necessárias para avançar às etapas seguintes do tratamento. Nem a liminar bastou Larissa Amorim tratava leucemia desde a infância Arquivo Pessoal Larissa foi diagnosticada com leucemia mieloide crônica (LMC) ainda criança, em 2002. Natural da Bahia, passou a se tratar em São Paulo, e manteve a doença sob controle por mais de duas décadas —com um inibidor que, durante anos, chegou às mãos dela por meio de programas de apoio a pacientes. Foi nesse intervalo que se casou e teve dois filhos, Benjamin, hoje com 8 anos, e Sofia, com 7. "Ela era muito sonhadora, queria viver, tinha o sonho de se casar e ser mãe", conta o marido, Murilo Barbosa, promotor de vendas, de 38 anos. A estabilidade terminou em julho de 2025, quando a doença se agudizou e evoluiu para uma forma agressiva, a crise blástica linfoide B. As opções disponíveis no SUS —entre elas imatinibe, nilotinibe e a quimioterapia hyperCVAD associada ao dasatinibe— não contiveram a progressão. Os médicos indicaram então o blinatumomabe, uma imunoterapia já incorporada ao SUS que serviria de ponte para o transplante de medula óssea, em combinação com o ponatinibe. O medicamento, no entanto, não estava disponível. A família foi à Justiça. Teve o primeiro pedido negado e a ação julgada improcedente, mas conseguiu, em segunda instância, uma decisão de urgência determinando o fornecimento imediato. A União foi intimada em 16 de março de 2026. O remédio nunca chegou. Para não deixar Larissa sem tratamento durante a espera, os médicos decidiram repetir um protocolo de quimioterapia pesado, com risco de infecções graves —um ciclo que, segundo médicos ouvidos pelo g1, não precisaria ter sido refeito se a imunoterapia tivesse sido entregue. Ela contraiu uma infecção, precisou ser intubada e morreu em 14 de maio, 59 dias após a intimação. "A oncologia não espera. O câncer não espera", diz Murilo. "Cinquenta e nove dias, para quem tem câncer, é muito." Larissa Amorim tratava leucemia desde a infância Arquivo Pessoal Quatro ordens, nenhum remédio O caso de Larissa não é isolado. Na representação à PGR, a Abrale reúne situações em que decisões judiciais foram descumpridas mesmo diante de risco de morte reconhecido pela própria Justiça. "Mesmo com uma decisão favorável, mesmo com uma tutela antecipada, não há cumprimento por parte da União e dos estados", afirma Luana Ferreira Lima. Em Sergipe, a entidade acompanha [TM1.1]ao menos quatro processos na Justiça Federal. Em um deles, uma paciente com leucemia linfoblástica aguda obteve liminar para receber blinatumomabe em 15 dias; a ordem não foi cumprida e a União informou nos autos que a compra dependeria de uma licitação estimada em cerca de 120 dias —prazo incompatível com a urgência clínica. Em outro, um paciente com linfoma de Hodgkin refratário teve a entrega do brentuximabe determinada em março, sob pena de multa diária[TM2.1], sem comprovação de que o remédio chegou. Há ainda uma paciente com leucemia mieloide crônica e mutação resistente que, mesmo com tutela concedida em 2025 e sentença favorável em fevereiro de 2026, seguia esperando o ponatinibe. Para a Abrale, o padrão se repete em outros estados e revela uma falha que ultrapassa o caso a caso: a judicialização deixou de ser exceção e virou etapa informal do acesso ao tratamento. Um problema que o próprio governo tentou organizar Em 2025, o Ministério da Saúde criou o Componente da Assistência Farmacêutica em Oncologia (AF-Onco), por meio de portaria, para reorganizar o financiamento, a compra e a distribuição de medicamentos contra o câncer. A medida mirava exatamente os problemas que vinham se acumulando: fragmentação da assistência, desigualdade regional, desabastecimento e o avanço da judicialização. A reorganização concentrou na União boa parte da coordenação. Ainda assim, segundo a representação, persistem demora na entrega, falta de estoque, negativas administrativas e descontinuidade de tratamento. O remédio existe no papel das políticas públicas; falta na ponta. Mais recentemente, o Ministério da Saúde apresentou a um conselho consultivo da política nacional de prevenção e controle do câncer as diretrizes para operacionalizar essa assistência. Luana considera o passo importante, embora tardio e ainda sem prazos firmes de entrega. "Não podemos esperar até que tudo isso se resolva, uma vez que já é um direito do paciente", diz. O problema já chegou aos órgãos de fiscalização. Em auditoria recente, o Tribunal de Contas da União (TCU) avaliou o processo de incorporação de tecnologias no SUS e incluiu entre seus objetivos verificar se as terapias aprovadas estão de fato chegando à população nos prazos previstos. A demora também passou a ter um nome no ordenamento jurídico. O Estatuto dos Direitos do Paciente, sancionado em 2026, assegura o acesso a cuidados de saúde "no tempo oportuno" e estabelece que a violação dos direitos ali previstos configura situação contrária aos direitos humanos. É nesse enquadramento que a Abrale sustenta sua representação: a omissão em entregar o que já foi incorporado deixaria de ser falha administrativa para se tornar lesão a um direito fundamental. O que diz o Ministério da Saúde Procurado, o Ministério da Saúde foi questionado sobre os relatos de falta de acesso a medicamentos já incorporados, sobre o cumprimento do prazo de 180 dias e sobre as denúncias da Abrale à PGR. Em nota, a Pasta detalha um plano de ampliação da oferta de remédios, mas não comenta diretamente o prazo legal nem a representação na Procuradoria. Segundo o ministério, serão disponibilizados outros 23 medicamentos oncológicos de alto custo na rede pública —entre eles a lenalidomida, o asciminibe e o ponatinibe—, de forma gradual a partir de outubro, conforme pactuação com estados e municípios. A Pasta afirma que o investimento é de R$ 2,2 bilhões e que se trata da maior entrega já feita pelo SUS para ampliar o acesso a tratamentos contra o câncer, com aumento de 35% na oferta desses fármacos. De acordo com o órgão, a medida deve resolver pendências que, em alguns casos, chegavam a 12 anos, e beneficiar mais de 112 mil pacientes. Sobre o blinatumomabe, a imunoterapia que Larissa esperava, o ministério afirma que o medicamento já é ofertado pelo SUS por meio das Unidades de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon) e dos Centros de Alta Complexidade em Oncologia (Cacon), responsáveis pela compra. A Pasta não esclareceu, porém, por que o remédio não chegou a Larissa, que tinha em mãos uma decisão judicial determinando o fornecimento imediato. O Ministério citou ainda o Componente da Assistência Farmacêutica em Oncologia (AF-Onco), criado no ano passado, que, segundo o ministério, unifica os protocolos clínicos, torna a compra mais eficiente e busca reduzir a burocracia e a judicialização no acesso aos remédios.
Paciente com leucemia morre sem receber remédio já incorporado ao SUS e garantido pela Justiça
Guia Modelo Escrito em 30/05/2026
Pacientes morrem esperando remédios contra o câncer que o SUS já aprovou Quando Larissa Amorim morreu, aos 33 anos, o remédio que seus médicos consideravam essencial contra a leucemia já existia, já havia passado pela avaliação técnica do governo federal e já integrava as políticas públicas de assistência oncológica. A família também tinha em mãos uma decisão judicial determinando que a União o fornecesse de imediato. Ainda assim, o medicamento nunca chegou. Entre a ordem da Justiça e a morte, passaram-se 59 dias. Larissa deixou dois filhos. O caso não é isolado. A Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale) protocolou uma representação na Procuradoria-Geral da República (PGR) pedindo a investigação do que classifica como descumprimento estrutural da política de assistência farmacêutica oncológica: terapias oficialmente incorporadas ao Sistema Único de Saúde (SUS) seguem fora do alcance de parte dos pacientes meses —e, às vezes, anos— depois de aprovadas. O g1 procurou o Ministério da Saúde. O governo afirma que há um plano de ampliação da oferta de remédios, mas não comenta diretamente o prazo legal nem a representação na Procuradoria (veja mais abaixo). Larissa Amorim morreu aos 33 anos; deixou dois filhos Arquivo Pessoal A aprovação não é o fim da fila A incorporação de um medicamento ao SUS costuma ser lida como o ponto final de um processo. É, no entanto, apenas o encerramento da avaliação científica. Antes de chegar à rede pública, uma terapia passa por análises de eficácia, segurança, custo-benefício e impacto orçamentário conduzidas pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Só então o Ministério da Saúde decide incluí-la nas políticas de saúde. A lei dá ao poder público até 180 dias, depois da decisão de incorporação, para organizar compras, definir protocolos, estruturar a distribuição e preparar a rede. Quando se trata de câncer, o prazo deveria correr em regime prioritário, conforme alteração introduzida na Lei Orgânica da Saúde em 2023. Para as entidades de pacientes, é justamente nesse intervalo que muitos tratamentos ficam parados. A gerente de Políticas Públicas e Advocacy da Abrale, Luana Ferreira Lima, diz que os atrasos se concentram na definição de quem compra, de como se financia e de como se distribui —se a aquisição é centralizada pelo Ministério da Saúde ou feita pelos estados. É nesse trecho que o prazo costuma se perder. "O paciente teria, teoricamente, que ter acesso ao medicamento dentro do prazo de 180 dias. Mas esse prazo se esgota, e ele não recebe o remédio, por questões burocráticas, de operacionalização, de coordenação e de recursos", diz. O resultado é que pacientes aguardam medicamentos cujo benefício o próprio Estado já reconheceu. "Há pacientes morrendo antes de receber medicamentos aos quais já têm direito", afirma. Os números da entidade dão a dimensão do gargalo. A Abrale acompanha hoje 185 pacientes com dificuldade para acessar tratamentos já incorporados. Em 2025, quase metade dos atendimentos de seu serviço sociojurídico —46,49%— envolveu problemas de acesso ao tratamento; desses, 85% eram usuários do SUS. Em mais de um quarto dos casos, a saída foi a Justiça. A associação monitora pelo menos 64 processos relacionados a entraves de acesso. Alguns ultrapassam de longe o prazo legal. Pacientes ainda relatam dificuldade para obter o imunoterápico brentuximabe, incorporado ao SUS em 2019. No câncer, o relógio é parte do tratamento Para quem trata doenças oncológicas de evolução rápida, a espera não é uma questão burocrática. Ela muda o curso da doença. O blinatumomabe, o medicamento que Larissa esperava, é uma imunoterapia que estimula o sistema imunológico a atacar as células leucêmicas que carregam a proteína CD19. Segundo o onco-hematologista e vice-diretor da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo, Breno Gusmão, ele representou um avanço no tratamento da leucemia linfoblástica aguda —sobretudo quando a doença volta depois de controlada ou não responde à quimioterapia inicial. São esses os quadros mais difíceis, em que as terapias convencionais já falharam. A hematologista Indianara Brandão, da Faculdade de Medicina do ABC, explica que medicamentos como o blinatumomabe funcionam então como uma terapia de resgate e como ponte para o transplante de medula óssea. Mais do que uma alternativa a mais, são uma estratégia desenhada para um momento exato da doença. Quando esse momento passa, a chance pode desaparecer. "Não enxergamos apenas o medicamento. Enxergamos uma oportunidade terapêutica dentro de um momento clínico que está sendo vivido", diz. O atraso, segundo a médica, abre espaço para a progressão da doença, para infecções graves, sangramentos e a perda das condições clínicas necessárias para avançar às etapas seguintes do tratamento. Nem a liminar bastou Larissa Amorim tratava leucemia desde a infância Arquivo Pessoal Larissa foi diagnosticada com leucemia mieloide crônica (LMC) ainda criança, em 2002. Natural da Bahia, passou a se tratar em São Paulo, e manteve a doença sob controle por mais de duas décadas —com um inibidor que, durante anos, chegou às mãos dela por meio de programas de apoio a pacientes. Foi nesse intervalo que se casou e teve dois filhos, Benjamin, hoje com 8 anos, e Sofia, com 7. "Ela era muito sonhadora, queria viver, tinha o sonho de se casar e ser mãe", conta o marido, Murilo Barbosa, promotor de vendas, de 38 anos. A estabilidade terminou em julho de 2025, quando a doença se agudizou e evoluiu para uma forma agressiva, a crise blástica linfoide B. As opções disponíveis no SUS —entre elas imatinibe, nilotinibe e a quimioterapia hyperCVAD associada ao dasatinibe— não contiveram a progressão. Os médicos indicaram então o blinatumomabe, uma imunoterapia já incorporada ao SUS que serviria de ponte para o transplante de medula óssea, em combinação com o ponatinibe. O medicamento, no entanto, não estava disponível. A família foi à Justiça. Teve o primeiro pedido negado e a ação julgada improcedente, mas conseguiu, em segunda instância, uma decisão de urgência determinando o fornecimento imediato. A União foi intimada em 16 de março de 2026. O remédio nunca chegou. Para não deixar Larissa sem tratamento durante a espera, os médicos decidiram repetir um protocolo de quimioterapia pesado, com risco de infecções graves —um ciclo que, segundo médicos ouvidos pelo g1, não precisaria ter sido refeito se a imunoterapia tivesse sido entregue. Ela contraiu uma infecção, precisou ser intubada e morreu em 14 de maio, 59 dias após a intimação. "A oncologia não espera. O câncer não espera", diz Murilo. "Cinquenta e nove dias, para quem tem câncer, é muito." Larissa Amorim tratava leucemia desde a infância Arquivo Pessoal Quatro ordens, nenhum remédio O caso de Larissa não é isolado. Na representação à PGR, a Abrale reúne situações em que decisões judiciais foram descumpridas mesmo diante de risco de morte reconhecido pela própria Justiça. "Mesmo com uma decisão favorável, mesmo com uma tutela antecipada, não há cumprimento por parte da União e dos estados", afirma Luana Ferreira Lima. Em Sergipe, a entidade acompanha [TM1.1]ao menos quatro processos na Justiça Federal. Em um deles, uma paciente com leucemia linfoblástica aguda obteve liminar para receber blinatumomabe em 15 dias; a ordem não foi cumprida e a União informou nos autos que a compra dependeria de uma licitação estimada em cerca de 120 dias —prazo incompatível com a urgência clínica. Em outro, um paciente com linfoma de Hodgkin refratário teve a entrega do brentuximabe determinada em março, sob pena de multa diária[TM2.1], sem comprovação de que o remédio chegou. Há ainda uma paciente com leucemia mieloide crônica e mutação resistente que, mesmo com tutela concedida em 2025 e sentença favorável em fevereiro de 2026, seguia esperando o ponatinibe. Para a Abrale, o padrão se repete em outros estados e revela uma falha que ultrapassa o caso a caso: a judicialização deixou de ser exceção e virou etapa informal do acesso ao tratamento. Um problema que o próprio governo tentou organizar Em 2025, o Ministério da Saúde criou o Componente da Assistência Farmacêutica em Oncologia (AF-Onco), por meio de portaria, para reorganizar o financiamento, a compra e a distribuição de medicamentos contra o câncer. A medida mirava exatamente os problemas que vinham se acumulando: fragmentação da assistência, desigualdade regional, desabastecimento e o avanço da judicialização. A reorganização concentrou na União boa parte da coordenação. Ainda assim, segundo a representação, persistem demora na entrega, falta de estoque, negativas administrativas e descontinuidade de tratamento. O remédio existe no papel das políticas públicas; falta na ponta. Mais recentemente, o Ministério da Saúde apresentou a um conselho consultivo da política nacional de prevenção e controle do câncer as diretrizes para operacionalizar essa assistência. Luana considera o passo importante, embora tardio e ainda sem prazos firmes de entrega. "Não podemos esperar até que tudo isso se resolva, uma vez que já é um direito do paciente", diz. O problema já chegou aos órgãos de fiscalização. Em auditoria recente, o Tribunal de Contas da União (TCU) avaliou o processo de incorporação de tecnologias no SUS e incluiu entre seus objetivos verificar se as terapias aprovadas estão de fato chegando à população nos prazos previstos. A demora também passou a ter um nome no ordenamento jurídico. O Estatuto dos Direitos do Paciente, sancionado em 2026, assegura o acesso a cuidados de saúde "no tempo oportuno" e estabelece que a violação dos direitos ali previstos configura situação contrária aos direitos humanos. É nesse enquadramento que a Abrale sustenta sua representação: a omissão em entregar o que já foi incorporado deixaria de ser falha administrativa para se tornar lesão a um direito fundamental. O que diz o Ministério da Saúde Procurado, o Ministério da Saúde foi questionado sobre os relatos de falta de acesso a medicamentos já incorporados, sobre o cumprimento do prazo de 180 dias e sobre as denúncias da Abrale à PGR. Em nota, a Pasta detalha um plano de ampliação da oferta de remédios, mas não comenta diretamente o prazo legal nem a representação na Procuradoria. Segundo o ministério, serão disponibilizados outros 23 medicamentos oncológicos de alto custo na rede pública —entre eles a lenalidomida, o asciminibe e o ponatinibe—, de forma gradual a partir de outubro, conforme pactuação com estados e municípios. A Pasta afirma que o investimento é de R$ 2,2 bilhões e que se trata da maior entrega já feita pelo SUS para ampliar o acesso a tratamentos contra o câncer, com aumento de 35% na oferta desses fármacos. De acordo com o órgão, a medida deve resolver pendências que, em alguns casos, chegavam a 12 anos, e beneficiar mais de 112 mil pacientes. Sobre o blinatumomabe, a imunoterapia que Larissa esperava, o ministério afirma que o medicamento já é ofertado pelo SUS por meio das Unidades de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon) e dos Centros de Alta Complexidade em Oncologia (Cacon), responsáveis pela compra. A Pasta não esclareceu, porém, por que o remédio não chegou a Larissa, que tinha em mãos uma decisão judicial determinando o fornecimento imediato. O Ministério citou ainda o Componente da Assistência Farmacêutica em Oncologia (AF-Onco), criado no ano passado, que, segundo o ministério, unifica os protocolos clínicos, torna a compra mais eficiente e busca reduzir a burocracia e a judicialização no acesso aos remédios.