Entenda o Ebola em 7 pontos Após dez anos do que foi considerado o surto de Ebola mais grave já registrado, a doença novamente avança com rapidez, agora na República Democrática do Congo. Em junho de 2016, a epidemia da África Ocidental foi declarada encerrada com 11.325 mortes e sete países com registros de contágio. ➡️Até o momento há, oficialmente, 84 casos confirmados da doença (82 na República Democrática do Congo e dois em Uganda), mas 750 casos são investigados e foram registradas 177 mortes suspeitas por Ebola. Oito óbitos pela doença foram confirmados. O novo surto – dessa vez na África Central – mostra que, apesar da experiência global no enfrentamento da doença, a iminência de novos surtos é realidade e o cenário segue desafiador. Segundo especialistas ouvidos pelo g1, dois fatores principais contribuíram para o novo surto, e se apresentam como obstáculos para manejo da doença: O surto ser causado pela variante Bundibugyo, menos detectável pelos testes e sem vacina ou tratamento aprovados. O contexto humanitário mais complexo, de guerra civil e de grandes deslocamentos populacionais. Nesse contexto, a letalidade da nova variante é algo bastante preocupante, analisa Kleber Luz, médico infectologista da UFRN e consultor da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a elaboração de diretrizes estratégicas para prevenção e controle das arboviroses. Ele alerta sobre a letalidade da variante, que parece ser ainda maior do que as anteriores. "Esse surto de 2026 é um surto que afetou muitas pessoas e também está presente em mais de um país. Isso preocupa, a impressão que se tem é que se trata de um vírus de maior transmissibilidade", analisa o infectologista. ➡️Nesta reportagem abaixo, você entende: Quais foram os avanços no enfrentamento da doença nos últimos anos Detalhes sobre as dificuldades em conter os casos atuais de Ebola Como as particularidades culturais e religiosas ainda são um entrave no combate à doença Em que medida o Ebola é uma preocupação a nível internacional De 2016 a 2026, o que mudou? O enfrentamento de um grande surto de qualquer doença – como aconteceu com o Ebola na África Ocidental de 2014 a 2016 – deixa lições sobre como lidar com o vírus. Para Rachel Soeiro, médica da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras que trabalhou na Guiné durante a epidemia de 2014, o principal ensinamento desse período é que a resposta ao Ebola deve se basear em um conjunto de ações, que continuam sendo aplicadas atualmente. A especialista, que atualmente comanda o braço da ONG dedicado a ampliar o acesso a medicamentos, vacinas e diagnósticos, destaca as principais medidas que perduram desde o último surto: Isolamento e tratamento dos pacientes Rastreamento e monitoramento de contatos Ações de engajamento comunitário Busca ativa de casos Fortalecimento das estruturas de saúde locais Sepultamentos seguros A testagem, aprendida em 2016, foi intensificada neste ano. Duas semanas após a declaração do surto, mais de 90% dos casos confirmados estavam sendo monitorados, de acordo com a OMS. Atendimento à população na República Democrática do Congo. Jornal Nacional/ Reprodução É importante lembrar que, há dez anos, a República Democrática do Congo foi afetada pelo surto, mas em condições menos intensas que a epidemia na África Ocidental. "O engajamento comunitário tem uma importância especial, porque sem ele não é possível implementar as outras medidas", analisa a médica. Kleber Luz também ressalta a melhoria do treinamento das organizações para o controle da doença, focando especialmente na gestão da circulação de pessoas que passaram por uma região suspeita. "As medidas podem ser praticamente as mesmas, mas as equipes, até em virtude também da Covid-19, estão mais desenvolvidas", pontua. Apenas em 2022, a OMS publicou uma diretriz de enfretamento da doença. Pela primeira vez, o documento internacional trazia recomendações específicas de tratamento para profissionais de saúde — inclusive com indicação de medicamentos com eficácia comprovada para a infecção. Ebola na República Democrática do Congo e Uganda: qual é o risco real de o vírus chegar ao Brasil? As dificuldades no controle dos casos Ainda que as equipes estejam mais preparadas, haja precedente de tratamento e as ações sejam mais definidas para combater o vírus do que em surtos anteriores, o enfrentamento da doença enfrenta diversas dificuldades. A primeira, segundo os especialistas, vem da própria mutação do vírus. 👉O surto atual é causado pela variante Bundibugyo, que já havia sida identificada anteriormente, mas permanece sendo rara. Esse é apenas o terceiro surto registrado com esse vírus, após episódios em 2007–2008 e 2012. "O principal fator que diferencia este vírus é que vacinas e tratamentos que podem ser usados com sucesso contra as variantes mais comuns não funcionam ou tem eficácia muito pequena contra ele. As poucas pesquisas existentes mostram resultados pouco promissores ou inconclusivos", explica Soeiro. Além disso, o diagnóstico desse tipo de variante é mais complexo, porque os testes rápidos utilizados anteriormente não são tão eficazes na detecção. A própria OMS afirmou que a falta de testes específicos está atrasando a resposta ao vírus no país africano. De acordo com a organização, a região afetada consegue realizar apenas seis testes por hora para identificar a cepa Bundibugyo. Isso, somado ao fato de não existirem tratamentos específicos para esse tipo de vírus, nem vacinas aprovadas, permite que os casos se espalhem rapidamente. Outro ponto enfatizado pelos especialistas é que a realidade de conflitos armados ativos na região, deslocamentos contínuos de uma grande quantidade de pessoas por conta da violência e infraestrutura de saúde fragilizada são fatores determinantes para a dificuldade de combate ao vírus. ➡️Em 2025, conflito armado na região se intensificou, e atingiram a marca de 7 mil mortes em janeiro. Em setembro do ano passado, 8,2 milhões de pessoas estavam deslocadas, número que deverá chegar a 9 milhões até o final de 2026, incluindo 5,8 milhões de deslocados internos, de acordo com a ACNUR. "Esses fatores dificultam a vigilância epidemiológica, impedem o rastreamento de contatos e limitam o acesso da população a cuidados. Isso indica que, neste sentido, a resposta ao surto atual pode ser mais desafiadora do que na epidemia de 2014-16", compara Rachel. Influências culturais e religiosas Desde surtos anteriores, especialmente o de 2014 a 2016, se sabe que os rituais religiosos característicos de culturas africanas, especialmente os funerais, são também um complicador no combate ao Ebola. A importância do diálogo entre saúde e crença entrou em pauta. Isso porque há uma tradição de submeter os mortos a rituais de lavagem, com um contato direto de familiares com o cadáver. "Esse contato que a esposa tem com o marido que morreu de Ebola, por exemplo. Ela já teve contato com os vômitos, com as fezes, com o sangue, e passa a ser uma pessoa de alto risco para o desenvolvimento da doença", analisa Luz. Ele comenta ainda que intervir nesse tipo de procedimento muitas vezes é complexo, uma vez que se trata de uma bagagem cultural de séculos. Raquel Soeiro reafirma que é essencial a construção de confiança entre os agentes de saúde, as organizações não governamentais e as comunidades locais, sem tentar impor procedimentos. "A realização de funerais dignos e seguros continua sendo um fator muito importante para evitar a expansão da doença", diz. Preocupação a nível internacional Por mais que a OMS tenha classificado a situação na República Democrática do Congo como uma "emergência de saúde internacional" e não uma emergência pandêmica, há uma preocupação sobre o nível crescente de casos na região. A organização afirma que a maior apreensão se dá pela possibilidade de propagação internacional devido à intensa mobilidade populacional. Rachel ressalta que medidas como fechamentos de fronteiras ou restrições amplas de viagem não são eficazes e podem prejudicar a resposta, já que dificultam o envio de equipes e suprimentos às áreas atingidas. Mas que são necessárias ações coordenadas para combater o surto. "Mais do que ser visto como uma ameaça global, o Ebola é um problema que deveria contar com uma abordagem coletiva que colaborasse com o combate à doença", defende. Ainda de acordo com a OMS, o risco do aumento do surto em escala global é baixo, mas bastante elevado em níveis nacional e regional. A tendência é que o número de casos e mortes siga aumentando à medida que mais insumos e profissionais de saúde cheguem ao local para realização dos testes. "Como o surto ainda não acabou, é difícil traçar um paralelo, mas dois pontos são chave: é uma cepa que parece ter uma letalidade maior e uma cepa que está presente em vários locais ao mesmo tempo, diferentemente de 2016. Então, do ponto de vista epidemiológico, as perspectivas são de uma situação ainda mais grave", prevê Kleber.
Novo surto de Ebola na África: o que (não) mudou em uma década?
Guia Modelo Escrito em 23/05/2026
Entenda o Ebola em 7 pontos Após dez anos do que foi considerado o surto de Ebola mais grave já registrado, a doença novamente avança com rapidez, agora na República Democrática do Congo. Em junho de 2016, a epidemia da África Ocidental foi declarada encerrada com 11.325 mortes e sete países com registros de contágio. ➡️Até o momento há, oficialmente, 84 casos confirmados da doença (82 na República Democrática do Congo e dois em Uganda), mas 750 casos são investigados e foram registradas 177 mortes suspeitas por Ebola. Oito óbitos pela doença foram confirmados. O novo surto – dessa vez na África Central – mostra que, apesar da experiência global no enfrentamento da doença, a iminência de novos surtos é realidade e o cenário segue desafiador. Segundo especialistas ouvidos pelo g1, dois fatores principais contribuíram para o novo surto, e se apresentam como obstáculos para manejo da doença: O surto ser causado pela variante Bundibugyo, menos detectável pelos testes e sem vacina ou tratamento aprovados. O contexto humanitário mais complexo, de guerra civil e de grandes deslocamentos populacionais. Nesse contexto, a letalidade da nova variante é algo bastante preocupante, analisa Kleber Luz, médico infectologista da UFRN e consultor da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a elaboração de diretrizes estratégicas para prevenção e controle das arboviroses. Ele alerta sobre a letalidade da variante, que parece ser ainda maior do que as anteriores. "Esse surto de 2026 é um surto que afetou muitas pessoas e também está presente em mais de um país. Isso preocupa, a impressão que se tem é que se trata de um vírus de maior transmissibilidade", analisa o infectologista. ➡️Nesta reportagem abaixo, você entende: Quais foram os avanços no enfrentamento da doença nos últimos anos Detalhes sobre as dificuldades em conter os casos atuais de Ebola Como as particularidades culturais e religiosas ainda são um entrave no combate à doença Em que medida o Ebola é uma preocupação a nível internacional De 2016 a 2026, o que mudou? O enfrentamento de um grande surto de qualquer doença – como aconteceu com o Ebola na África Ocidental de 2014 a 2016 – deixa lições sobre como lidar com o vírus. Para Rachel Soeiro, médica da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras que trabalhou na Guiné durante a epidemia de 2014, o principal ensinamento desse período é que a resposta ao Ebola deve se basear em um conjunto de ações, que continuam sendo aplicadas atualmente. A especialista, que atualmente comanda o braço da ONG dedicado a ampliar o acesso a medicamentos, vacinas e diagnósticos, destaca as principais medidas que perduram desde o último surto: Isolamento e tratamento dos pacientes Rastreamento e monitoramento de contatos Ações de engajamento comunitário Busca ativa de casos Fortalecimento das estruturas de saúde locais Sepultamentos seguros A testagem, aprendida em 2016, foi intensificada neste ano. Duas semanas após a declaração do surto, mais de 90% dos casos confirmados estavam sendo monitorados, de acordo com a OMS. Atendimento à população na República Democrática do Congo. Jornal Nacional/ Reprodução É importante lembrar que, há dez anos, a República Democrática do Congo foi afetada pelo surto, mas em condições menos intensas que a epidemia na África Ocidental. "O engajamento comunitário tem uma importância especial, porque sem ele não é possível implementar as outras medidas", analisa a médica. Kleber Luz também ressalta a melhoria do treinamento das organizações para o controle da doença, focando especialmente na gestão da circulação de pessoas que passaram por uma região suspeita. "As medidas podem ser praticamente as mesmas, mas as equipes, até em virtude também da Covid-19, estão mais desenvolvidas", pontua. Apenas em 2022, a OMS publicou uma diretriz de enfretamento da doença. Pela primeira vez, o documento internacional trazia recomendações específicas de tratamento para profissionais de saúde — inclusive com indicação de medicamentos com eficácia comprovada para a infecção. Ebola na República Democrática do Congo e Uganda: qual é o risco real de o vírus chegar ao Brasil? As dificuldades no controle dos casos Ainda que as equipes estejam mais preparadas, haja precedente de tratamento e as ações sejam mais definidas para combater o vírus do que em surtos anteriores, o enfrentamento da doença enfrenta diversas dificuldades. A primeira, segundo os especialistas, vem da própria mutação do vírus. 👉O surto atual é causado pela variante Bundibugyo, que já havia sida identificada anteriormente, mas permanece sendo rara. Esse é apenas o terceiro surto registrado com esse vírus, após episódios em 2007–2008 e 2012. "O principal fator que diferencia este vírus é que vacinas e tratamentos que podem ser usados com sucesso contra as variantes mais comuns não funcionam ou tem eficácia muito pequena contra ele. As poucas pesquisas existentes mostram resultados pouco promissores ou inconclusivos", explica Soeiro. Além disso, o diagnóstico desse tipo de variante é mais complexo, porque os testes rápidos utilizados anteriormente não são tão eficazes na detecção. A própria OMS afirmou que a falta de testes específicos está atrasando a resposta ao vírus no país africano. De acordo com a organização, a região afetada consegue realizar apenas seis testes por hora para identificar a cepa Bundibugyo. Isso, somado ao fato de não existirem tratamentos específicos para esse tipo de vírus, nem vacinas aprovadas, permite que os casos se espalhem rapidamente. Outro ponto enfatizado pelos especialistas é que a realidade de conflitos armados ativos na região, deslocamentos contínuos de uma grande quantidade de pessoas por conta da violência e infraestrutura de saúde fragilizada são fatores determinantes para a dificuldade de combate ao vírus. ➡️Em 2025, conflito armado na região se intensificou, e atingiram a marca de 7 mil mortes em janeiro. Em setembro do ano passado, 8,2 milhões de pessoas estavam deslocadas, número que deverá chegar a 9 milhões até o final de 2026, incluindo 5,8 milhões de deslocados internos, de acordo com a ACNUR. "Esses fatores dificultam a vigilância epidemiológica, impedem o rastreamento de contatos e limitam o acesso da população a cuidados. Isso indica que, neste sentido, a resposta ao surto atual pode ser mais desafiadora do que na epidemia de 2014-16", compara Rachel. Influências culturais e religiosas Desde surtos anteriores, especialmente o de 2014 a 2016, se sabe que os rituais religiosos característicos de culturas africanas, especialmente os funerais, são também um complicador no combate ao Ebola. A importância do diálogo entre saúde e crença entrou em pauta. Isso porque há uma tradição de submeter os mortos a rituais de lavagem, com um contato direto de familiares com o cadáver. "Esse contato que a esposa tem com o marido que morreu de Ebola, por exemplo. Ela já teve contato com os vômitos, com as fezes, com o sangue, e passa a ser uma pessoa de alto risco para o desenvolvimento da doença", analisa Luz. Ele comenta ainda que intervir nesse tipo de procedimento muitas vezes é complexo, uma vez que se trata de uma bagagem cultural de séculos. Raquel Soeiro reafirma que é essencial a construção de confiança entre os agentes de saúde, as organizações não governamentais e as comunidades locais, sem tentar impor procedimentos. "A realização de funerais dignos e seguros continua sendo um fator muito importante para evitar a expansão da doença", diz. Preocupação a nível internacional Por mais que a OMS tenha classificado a situação na República Democrática do Congo como uma "emergência de saúde internacional" e não uma emergência pandêmica, há uma preocupação sobre o nível crescente de casos na região. A organização afirma que a maior apreensão se dá pela possibilidade de propagação internacional devido à intensa mobilidade populacional. Rachel ressalta que medidas como fechamentos de fronteiras ou restrições amplas de viagem não são eficazes e podem prejudicar a resposta, já que dificultam o envio de equipes e suprimentos às áreas atingidas. Mas que são necessárias ações coordenadas para combater o surto. "Mais do que ser visto como uma ameaça global, o Ebola é um problema que deveria contar com uma abordagem coletiva que colaborasse com o combate à doença", defende. Ainda de acordo com a OMS, o risco do aumento do surto em escala global é baixo, mas bastante elevado em níveis nacional e regional. A tendência é que o número de casos e mortes siga aumentando à medida que mais insumos e profissionais de saúde cheguem ao local para realização dos testes. "Como o surto ainda não acabou, é difícil traçar um paralelo, mas dois pontos são chave: é uma cepa que parece ter uma letalidade maior e uma cepa que está presente em vários locais ao mesmo tempo, diferentemente de 2016. Então, do ponto de vista epidemiológico, as perspectivas são de uma situação ainda mais grave", prevê Kleber.