Por que mangas de cemitério despertam curiosidade no Acre? Especialistas explicam

Guia Modelo Escrito em 02/11/2026


Por que mangas de cemitério despertam curiosidade no Acre? Especialistas explicam 🥭Você tem coragem de comer manga de cemitério? No Acre, os frutos colhidas nestes espaços são cercadas por uma mistura de curiosidade e receio. Enquanto há quem diga que as mangas cultivadas nesses locais são excelentes e até mais saborosas, outras pessoas evitam por acharem que faz mal. Mas o que há de verdade nessas histórias? O g1 ouviu três especialistas para entender o que acontece com as mangueiras e se existe risco em comer essas frutas. Entre eles, é unânime o fato de que não existe comprovação científica de que as mangas sejam contaminadas apenas por crescerem em áreas de sepultamento. ✅ Participe do canal do g1 AC no WhatsApp Isso porque as plantas não absorvem restos humanos diretamente nem transportam partes dos corpos para os frutos. No entanto, as condições do solo, a presença de possíveis contaminantes e a falta de avaliação sanitária do ambiente exigem alguns cuidados. Cemitério São João Batista, em Rio Branco Rayssa Menezes/Arquivo pessoal A bióloga e mestre em Ecologia Larissa Araújo explica que as raízes das mangueiras absorvem água e nutrientes disponíveis no solo, e não doenças de pessoas que foram enterradas no local. Por isso, a especialista recomenda lavar bem as frutas antes do consumo e evitar aquelas que apresentam rachaduras ou que caíram no chão. "Do ponto de vista biológico, a manga não contrai doenças de quem está enterrado. A árvore absorve pelas raízes apenas água e nutrientes do solo. Entretanto, a casca pode conter microrganismos e pesticidas que possam ter sido usados no controle de pragas do cemitério", esclareceu. LEIA TAMBÉM: Jovens católicos oferecem orações a familiares de defuntos em cemitério de Rio Branco: 'Acolher e confortar' Entre figuras notáveis e pessoas comuns, cemitério mais antigo de Rio Branco guarda mais de 1 século de histórias Familiares reclamam de túmulos danificados e objetos roubados em cemitério de Rio Branco: 'Absurdo' Cemitério São João Batista, em Rio Branco Rayssa Menezes/Arquivo pessoal O que acontece no solo durante a decomposição? Embora não exista uma transferência direta de restos humanos para os frutos, a decomposição dos corpos provoca alterações no ambiente onde as árvores estão plantadas. É nesse processo que está parte da explicação científica por trás da crença popular. A engenheira agrônoma Nárcya Trindade explicou ao g1 que, durante a decomposição, parte dos nutrientes presentes nos tecidos retorna ao solo. Entre eles estão elementos como carbono, nitrogênio e fósforo, que também são importantes para o desenvolvimento das plantas. Assim, dependendo das características do terreno, essa disponibilidade de nutrientes pode influenciar o crescimento das árvores e a produção de frutos. Isso, porém, não significa que as mangas de cemitérios sejam necessariamente maiores ou mais doces, como sugere outra parte da crença popular. "As plantas precisam desses nutrientes para crescer e produzir frutos, então, dependendo das condições daquele solo, essa alteração na disponibilidade de nutrientes pode influenciar o desenvolvimento das plantas. Mas isso não significa necessariamente que os frutos serão maiores ou mais doces", ressaltou. Cemitério São João Batista, em Rio Branco Júnior Andrade/Rede Amazônica A engenheira agrônoma ressalta que estudos já identificaram mudanças na composição química de solos de cemitérios, inclusive com alterações na concentração de metais e outros elementos. Isso não significa, entretanto, que todos esses terrenos sejam mais férteis ou que os frutos produzidos neles estejam contaminados. "Não dá para dizer que toda fruta produzida em cemitério faz mal, mas também não dá para afirmar que seja sempre segura [...] para responder isso com mais segurança, seria necessário avaliar as condições do solo e da água e, principalmente, analisar os próprios frutos para verificar se existe algum contaminante em concentração que ofereça risco", ponderou. Possíveis contaminantes O biólogo Marcos Silveira, professor e coordenador do Programa de Pesquisa em Biodiversidade da Amazônia Ocidental (PPBio), da Universidade Federal do Acre (Ufac), também explica que as raízes podem absorver substâncias liberadas durante a decomposição dos cadáveres. Um dos pontos de atenção é o necrochorume, líquido produzido nesse processo. Isso não significa que esses materiais necessariamente chegarão à polpa da manga em quantidades capazes de provocar danos à saúde. Segundo Marcos, as plantas possuem mecanismos fisiológicos que regulam a absorção, o transporte e o metabolismo de diferentes substâncias. "No caso de mangueira antiga em cemitério bem drenado, não há motivo científico para considerar os frutos perigosos apenas pela localização. Mangueiras próximas a sepulturas recentes, em solo encharcado ou sujeito a inundações, requerem maior cautela, especialmente com frutos caídos no chão. No caso de cemitérios com histórico de contaminação, seria recomendável analisar o solo e a polpa dos frutos antes de consumi-los regularmente", destacou. Manga de cemitério faz mal? Especialistas explicam NSC TV/Divulgação O pesquisador reforçou que as condições ambientais fazem diferença nessa avaliação. Uma mangueira antiga, instalada em um cemitério com boa drenagem do solo, não deve ser considerada perigosa apenas por estar próxima de sepulturas. "Como botânico e cientista posso alegar que não existe fundamento científico para afirmar que mangas de cemitérios são contaminadas por cadáveres apenas porque as raízes crescem próximas às sepulturas. O risco, quando existe, depende das condições ambientais e da presença efetiva de contaminantes", afirmou. Afinal, pode comer manga de cemitério? Os três especialistas concordam que não é possível afirmar que todas as mangas cultivadas em cemitérios fazem mal, mas também não há elementos suficientes para garantir que sejam sempre seguras. Para isso, seria necessário analisar as condições do solo e da água e, principalmente, realizar exames nos próprios frutos para identificar a presença de possíveis contaminantes. Por isso, os cuidados com a higienização são indispensáveis. A recomendação é lavar e higienizar os frutos com produtos próprios para alimentos, seguindo as orientações do fabricante, e descartar aqueles que estiverem rachados ou tiverem caído diretamente no solo. "Existem os cuidados normais de segurança alimentar: lavar e higienizar adequadamente os frutos com produtos próprios para alimentos, seguindo as orientações do fabricante, evitar consumir frutos que tenham ficado em contato com o chão e considerar também a possibilidade de contaminação microbiológica, principalmente pela presença e circulação de animais no local", finalizou Nárcya. VÍDEOS: g1