Conferência sobre transição dos combustíveis fósseis começa nesta sexta; entenda o que está em jogo

Guia Modelo Escrito em 24/04/2026


Queima de gás (flaring) em área de produção de petróleo: prática libera metano, um dos principais gases de efeito estufa associados aos combustíveis fósseis. Leslie Von Pless/NASA Pela primeira vez na história da diplomacia climática, um grupo de países se reúne fora do sistema da ONU com um único objetivo: discutir como abandonar os combustíveis fósseis. A Conferência Internacional sobre Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis começa nesta sexta-feira (24) em Santa Marta, na Colômbia, e vai até o dia 29 de abril. O encontro é organizado pela Colômbia e pela Holanda e deve reunir representantes de mais de 60 países, além de cientistas, organizações da sociedade civil, sindicatos e o setor privado. O Brasil participa e também estão confirmados Austrália, Canadá, Noruega, Angola, México, Alemanha, França e Reino Unido, entre outros. Os maiores produtores mundiais de combustíveis fósseis, contudo, como os Estados Unidos, a China, a Arábia Saudita e a Rússia, ficaram de fora. Mesmo assim, o encontro é visto como uma chance de alinhar posições entre os países presentes e dar impulso às negociações sobre o tema. "Santa Marta pode fortalecer uma coalizão de países comprometidos com a transição energética justa para que a pauta avance por meio de cooperação internacional", diz Anna Cárcamo, especialista em política climática do Greenpeace Brasil. Abaixo, entenda como isso pode acontecer e qual a importância dessa conferência. Veja os vídeos que estão em alta no g1 O que é a conferência de Santa Marta (e por que ela importa) Esse encontro nasceu da frustração acumulada em quase três décadas de negociações climáticas da ONU. Nas COPs, qualquer país pode bloquear uma decisão — basta discordar. É esse mecanismo de consenso que tem permitido a países produtores de petróleo enterrarem acordos sobre fósseis ao longo dos anos. Como funcionam as negociações na COP: qual o caminho dos acordos e o que acontece nas salas da conferência Na COP28, em Dubai em 2023, os países conseguiram incluir pela primeira vez em um documento oficial da ONU a linguagem sobre transição para longe dos combustíveis fósseis. Isso foi considerado um avanço histórico. Mas na COP30, em Belém, em novembro passado, o texto final da conferência NÃO trouxe nenhuma menção explícita ao tema, apesar de mais de 80 países terem defendido isso nas negociações. O resultado é que os combustíveis fósseis ainda respondem por 80% das emissões globais de carbono, e as emissões voltaram a bater recorde em 2025. Por isso, Santa Marta foi anunciada durante a própria COP30 pela Colômbia e a Holanda como uma resposta a esse impasse. O encontro acontece fora do sistema da ONU, não exige unanimidade e não produz decisões vinculantes — mas também não pode ser travado por um único país. "Os países passaram quase trinta COPs sem conseguir tratar do tema dos fósseis", diz Cárcamo. "Na COP28, finalmente adotaram uma decisão visando a transição, mas não conseguiram dar passos concretos para implementá-la." A lógica da conferência é simples: reunir os países que já decidiram avançar e trabalhar os detalhes práticos de como fazer isso, sem depender de quem não quer chegar a nenhum acordo. "Santa Marta muda o foco: sai do 'se devemos transicionar' e vai para o 'como'", afirma Ricardo Fujii, especialista de conservação do WWF-Brasil. Homem observa a baía de Santa Marta, na Colômbia, em 16 de abril de 2026. Luis Acosta/AFP O que está em debate As discussões estão organizadas em três eixos. O primeiro, e mais politicamente sensível, é como países que dependem financeiramente do petróleo e do gás para bancar serviços públicos conseguem se comprometer com uma saída ordenada desses recursos sem quebrar economicamente no processo. Essa é uma questão especialmente crítica para nações do Sul Global, que historicamente receberam menos financiamento climático. O segundo eixo trata da transformação da oferta e da demanda de energia: o que fazer com os subsídios que ainda privilegiam os fósseis, como expandir as energias renováveis sem comprometer a segurança energética e como lidar com o setor petroquímico, que se tornou o principal motor de crescimento da demanda por petróleo à medida que a demanda por combustíveis cai. O terceiro eixo envolve cooperação internacional e um tema jurídico que tem travado políticas climáticas em vários países: o mecanismo que permite empresas do setor de energia processar governos quando decisões ambientais afetam seus investimentos. A Colômbia anunciou na semana passada que vai se retirar desse sistema, um sinal de que o assunto deve ganhar protagonismo nos debates. Também será lançado em Santa Marta um Painel Científico para a Transição Energética Global, coordenado pelos pesquisadores Johan Rockström, do Instituto Potsdam de Pesquisa sobre Impactos Climáticos, e o climatologista Carlos Nobre, da Universidade de São Paulo. O painel vai produzir recomendações diretas para governos sobre como construir planos nacionais de saída dos fósseis, incluindo a apresentação de um rascunho de mapa do caminho para a Colômbia e 12 recomendações práticas voltadas à implementação. Os dois últimos dias do encontro, 28 e 29 de abril, são reservados ao segmento de alto nível, com ministros de Estado. Licypriya Kangujam, uma ativista climática indígena da Índia, segura uma faixa com os dizeres "Acabem com os combustíveis fósseis. Salvem nosso planeta e o nosso futuro", em um protesto durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de Dubai, a COP 28. REUTERS/Thomas Mukoya O que pode sair da conferência Santa Marta NÃO vai produzir um tratado nem decisões com força legal. O resultado esperado é um relatório elaborado pelos países anfitriões com base nos debates, entregue nas semanas seguintes. Esse documento vai alimentar diretamente um processo que o Brasil está conduzindo como presidente da COP30: a elaboração de um mapa do caminho global para a transição dos combustíveis fósseis, com entrega prevista até a COP31, marcada para novembro deste ano em Antália, na Turquia. 🗺️ 🛣️ ENTENDA O TERMO: “Mapa do caminho” ou roadmap (em inglês) é o termo usado em negociações internacionais para designar planos de ação que estabelecem etapas, prazos e metas concretas rumo a um objetivo comum. Na prática, trata-se de um roteiro político e técnico que define “quem faz o quê, até quando e com quais recursos”. "Os resultados de Santa Marta devem alimentar diretamente esse mapa do caminho", diz Fujii. "Para o Brasil, que sedia a transição entre a COP30 e a próxima, é uma oportunidade de traduzir o discurso de liderança climática em entregas concretas." Justamente por isso, Stela Herschmann, especialista em política climática do Observatório do Clima, reconhece o potencial do encontro mas aponta uma fragilidade: o vínculo com as negociações formais ainda não está garantido. "Não tem nada dizendo que a COP31 tem que recepcionar esse relatório, tem que considerar, tem que incorporar, nada", afirma. A saída, na avaliação do Observatório, seria que os países presentes em Santa Marta levem o tema para dentro das negociações formais e proponham incluir o debate sobre combustíveis fósseis como item explícito na agenda da COP31. "Eles podem levar isso para dentro da negociação — e, na verdade, isso é o que nós gostaríamos que fosse feito", diz Herschmann. Para Cárcamo, do Greenpeace, independentemente dos desdobramentos formais, a existência do encontro já representa uma mudança. "Gerir a eliminação dos combustíveis fósseis de forma que nenhum país fique em desvantagem exigirá cooperação internacional. É aqui que Santa Marta pode ser um ponto de virada", diz. O teste real, porém, virá depois. A principal prova de efetividade será a capacidade de envolver países produtores, já que, sem essa participação, a substituição dos combustíveis fósseis dificilmente avança de forma crível. LEIA TAMBÉM: Onça, aves raras e morcegos: os animais do Pantanal que estão na COP15 Adeus, sabão? Spray cria efeito 'antissujeira' que permite limpar roupas só com água À deriva no Mediterrâneo, 'navio-fantasma' russo vira bomba ambiental Gato-do-mato ameaçado de extinção é registrado em parque no RJ