Nos bailes rurais

Guia Modelo Escrito em 13/10/2026


O dia começou como qualquer outro naquela manhã de sábado, no sítio em Santa Catarina. O galo cantou ao amanhecer, Antônio Prigol saiu para a roça com o chapéu na cabeça, e os meninos, Luiz, Remi e Renato, foram para a escola cantar o hino. Depois da aula, enquanto Renato e os irmãos descansavam à sombra de uma laranjeira, viram o pai voltar mais cedo da plantação. — Falei com o seu Enidio, vamos fazer um baile na casa dele hoje à noite. Preciso que vocês vão à casa dos vizinhos para convidá-los e passem na casa do gaiteiro para ver se ele pode tocar. Seu Enidio era o vizinho que tinha a maior sala da região. Para fazer os bailes, bastava afastar os móveis e o salão estava pronto. Além disso, ele tinha uma vinícola na propriedade e era amigo de Antônio havia anos. Os meninos ficaram faceiros. Baile era sinônimo de risadas, conversa e descanso depois de uma semana de trabalho no campo. Os três saíram pelas propriedades para fazer os convites, percorrendo as estradas de chão batido sem esquecer ninguém. Há amores que nascem em um salão e dançam juntos pela vida inteira. Divulgação/Paulo Henrique Mailho. A casa do gaiteiro ficava no caminho. Seu Sebastião não perdia uma oportunidade de tocar sua gaita para a comunidade e animar as noites de sábado. Era ele quem dava o ritmo às músicas que levavam o pessoal para o salão. Os meninos voltaram para casa suados, mas felizes por terem cumprido a missão. Tomaram um banho gelado, vestiram as roupas de baile e esperaram o pai para irem juntos à casa de Enidio preparar o salão. A noite caiu e os convidados começaram a chegar. O som da gaita de Sebastião se espalhava pelo salão, conduzindo os pares que se formavam ao ritmo da música. As risadas e conversas de quem não dançava se misturavam ao som dos instrumentos e ao cheiro da madeira do piso antigo. Lá fora, o vento frio tentava, sem sucesso, invadir a alegria daquele espaço. Os bailes só terminavam ao amanhecer. Na saída, os participantes contemplavam o orvalho que cobria a grama da propriedade. É dessa forma que Renato Vitório Prigol, hoje com 79 anos, se lembra dos primeiros bailes de sua vida. São histórias que ele conta aos netos e bisnetos. Mas há uma delas que costuma deixar para o final. A dança que mudou uma vida Quando tinha 19 anos, Renato já havia se mudado com a família para Catanduvas, no Paraná. Na região, as comunidades rurais se reuniam no salão de uma pequena igreja amarela para realizar os bailes. Foi em uma dessas noites que ele viu, pela primeira vez, Dorvalina dos Santos, que futuramente receberia o sobrenome Prigol. Não foi amor à primeira vista, mas à primeira dança. Os dois eram novos na cidade e, por acaso, Renato a convidou para ser sua parceira. Depois de cansarem os pés, ficaram conversando por horas. O amor foi crescendo aos poucos. Dorvalina chegou a dizer à mãe que nunca se casaria com aquele menino, mas acabou cedendo ao destino. Jovens e apaixonados, Renato e Dorvalina ainda não sabiam que dançariam juntos por toda a vida. Divulgação/Arquivo pessoal. Alguns bailes terminaram ao amanhecer. O de Dorvalina e Renato, porém, segue até hoje, quase seis décadas depois, cercado pelos filhos, netos e bisnetos. Agora, são as memórias que embalam a história de um amor construído ao longo de uma vida inteira. Quando o baile era o ponto de encontro Antes das festas e baladas, eram nos bailes que muitas pessoas costumavam se encontrar. Segundo a professora universitária Gracieli Schubert, formada em História e mestre em Sociedade, Cultura e Fronteiras, esses eventos estavam entre os principais momentos de convivência das comunidades rurais. “Tinham muitos bailes, alguns maiores, para toda a comunidade, e outros menores, realizados entre grupos de famílias. Eram momentos de encontro, diversão e entretenimento. A partir desses bailes, surgiram amizades, laços e até casamentos”, explica. Mais do que festas, os bailes eram espaços de convivência e pertencimento. Era ali que os vizinhos se reuniam para espairecer depois de longas semanas de trabalho nas plantações, trocar histórias e celebrar a vida no campo. Quase 60 anos de amor e cumplicidade. Divulgação/Paulo Henrique Mailho. Para a professora universitária e psicóloga Naiade Barreto, esses encontros também tinham importância do ponto de vista psicológico, contribuindo para a redução do isolamento, a construção da identidade coletiva e o fortalecimento do sentimento de pertencimento. “Quando vivemos algo que nos toca afetivamente, como uma música, um encontro ou um olhar, nosso cérebro registra isso de forma muito mais intensa. Os bailes, especialmente os da juventude, reuniam tudo isso: a novidade, o desejo e as primeiras relações sociais mais amplas. Por isso, mesmo com o passar do tempo, essas memórias seguem vivas. Elas carregam não apenas o que aconteceu, mas também o que foi sentido”, elucida Naiade. Mais do que uma recordação, as lembranças dos bailes fazem parte da memória coletiva das comunidades rurais. São retratos de uma época em que a vida social se encontrava ao redor da gaita, e o amor, muitas vezes, começava com um simples convite para dançar. Texto produzido por Ana Cláudia Teodoroski, acadêmica do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, sob orientação da professora Julliane Brita, para a 24ª edição da Revista Verbo, veiculada na 5ª edição do City Farm FAG.Tudo começou em um baile. Há quase 60 anos, o amor continua dançando no mesmo ritmo. Foto: Paulo Henrique Mailho.