Inspirado pelo avô, cientista baiano conclui dois doutorados ao mesmo tempo na Unicamp

Guia Modelo Escrito em 30/10/2026


Inspirado pelo avô, cientista baiano conclui dois doutorados ao mesmo tempo na Unicamp O avô estudou até a quarta série, mas deixou uma lição que Rafael Vinícius de São José nunca esqueceu. Criado por ele desde os dois anos de idade, o baiano aprendeu que o conhecimento deveria caminhar junto com o respeito pelas pessoas. Anos depois, chegou à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde concluiu dois doutorados ao mesmo tempo. No Instituto de Geociências, Rafael cursou simultaneamente Geografia e Ciências da Terra. Hoje, usa o conhecimento adquirido para investigar a seca no sertão da Bahia e compreender por que a falta de água atinge de maneira tão desigual as populações da região. "Uma das coisas que ele me ensinou, que para mim é uma grande lição, é que quanto mais um ser humano estuda, mais educado ele deve ser. Meu avô faleceu já tem 11 anos, mas deixou um legado", lembrou. A lição permaneceu com Rafael e ganhou um novo significado. O menino criado pelo avô se tornou um cientista dedicado a estudar a realidade de famílias para as quais ter água em casa ainda não é uma certeza. Esta reportagem faz parte da série “Unicamp 60”, produzida pela EPTV em comemoração às seis décadas da Universidade Estadual de Campinas. Exibida no EPTV 2, a produção reúne cinco episódios que mostram, por meio de pesquisas e histórias de vida, como a universidade transforma a sociedade e contribui para o desenvolvimento do Brasil. O legado do avô Rafael Vinícius de São José ao lado do avô, que o criou desde os dois anos de idade e o inspirou a valorizar a educação, mesmo tendo estudado apenas até a quarta série Arquivo pessoal A educação sempre teve um lugar importante na família de Rafael. Mesmo com poucos anos de estudo, o avô incentivava o neto a aprender e enxergava no conhecimento uma maneira de transformar a vida. Esse incentivo acompanhou o pesquisador até um desafio pouco comum. Na Unicamp, ele decidiu cursar dois doutorados simultaneamente, enfrentando uma rotina intensa de atividades acadêmicas. "É uma carga muito grande de atividades acadêmicas que você precisa desempenhar. Eu realizei na Unicamp, no Instituto de Geociências, ao mesmo tempo. Então um doutorado foi em Geografia e o outro doutorado foi no programa de Ciências da Terra", explicou. A formação permitiu que Rafael aprofundasse os estudos sobre os riscos da seca no semiárido brasileiro. Mais do que analisar o clima, ele passou a investigar como as condições sociais tornam algumas comunidades especialmente vulneráveis à escassez de água. "A ciência, ela deve ser feita com o intuito de servir a sociedade", afirmou. Perto do rio, sem água Maria do Carmo de Almeida Ribeiro utiliza cisterna para armazenar água no bairro Alto da Maravilha, em Casa Nova (BA), onde famílias enfrentam dificuldades de abastecimento durante os períodos de seca Reprodução/EPTV A cerca de 20 quilômetros do Rio São Francisco, no bairro Alto da Maravilha, em Casa Nova, na Bahia, a aposentada Maria do Carmo de Almeida Ribeiro conhece bem o peso da seca. "Sede é muito ruim. Já senti muitas vezes sede. Aqui já chegou o dia da gente não ter nem para beber", contou. A família dela faz parte da pesquisa de Rafael. Maria do Carmo relata que uma cisterna ajudou a enfrentar os períodos de estiagem, mas que já precisou pagar até R$ 400 por uma carga de água. A situação revela um contraste no Vale do São Francisco. Na mesma região onde a agricultura irrigada produz frutas para exportação, famílias convivem com a dificuldade de garantir água para as necessidades mais básicas. "As frutas que são produzidas aqui vão para o Reino Unido, para o Canadá, para o Japão. [Enquanto isso] Nós temos comunidades que são extremamente vulneráveis às secas", afirmou Rafael. Maria do Carmo percebe que os períodos de chuva também mudaram ao longo dos anos. "As épocas estão ficando mais secas, sim. Aqui para trás a gente tinha mais chuva, era mais chuvoso. E hoje em dia não é mais assim que nem era primeiro", relatou. O cenário preocupa o pesquisador. Os estudos indicam que as secas poderão se tornar mais frequentes nas próximas décadas, agravando a escassez de água e afetando também a vegetação e a biodiversidade. "O solo tende a ficar mais seco, a vegetação tende a ficar mais seca e a escassez hídrica tende a ser excepcionalmente mais grave, além de uma enorme pressão sobre a biodiversidade dessa região", alertou. Ciência para transformar Rafael Vinícius de São José, pesquisador formado pela Unicamp, faz anotações durante trabalho de campo sobre os impactos da seca no sertão da Bahia Reprodução/EPTV Ao estudar as comunidades mais vulneráveis, Rafael busca produzir informações que ajudem o poder público a antecipar riscos e planejar medidas de prevenção. A pesquisa não resolve imediatamente a falta de água, mas pode contribuir para que seus efeitos sejam menos graves. "O Brasil, o Estado brasileiro, precisa investir em redução de risco de desastre hidrometeorológico", defendeu. Enquanto essas soluções não chegam, moradores como Maria do Carmo continuam enfrentando as dificuldades do presente. Ao receber a visita dos pesquisadores, ela agradeceu pela atenção e fez um pedido. "E o que eu peço mais é que se eles puderem, invistam nesse momento para a gente, é água e luz, porque aqui a gente não tem acesso." VÍDEOS: reveja a série sobre os 60 anos da Unicamp Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas