20 anos da Lei Maria da Penha: 'Eu já me via morta', diz mulher que superou violência doméstica em Manaus

Guia Modelo Escrito em 07/08/2026


Lei Maria da Penha faz 20 anos; violência doméstica cresce no Amazonas O ano era 2018 quando a técnica de enfermagem Eriberta da Silva Gomes começou a sofrer agressões dentro de casa. Segundo ela, as violências aconteciam, principalmente, durante a madrugada, após discussões com o então marido. “Geralmente as agressões aconteciam quando a gente discutia durante o dia. A gente ia dormir e, quando eu estava dormindo, ele batia na minha cabeça do nada. Ao invés de resolver quando estava todo mundo acordado, ele deixava para fazer quando a gente já tinha ido dormir”, relembra. ♀️ Nesta sexta-feira (7), a Lei Maria da Penha completa 20 anos. Para marcar a data, o g1 conta histórias de mulheres que romperam o ciclo da violência e reconstruíram suas vidas. Após cerca de dois anos convivendo com as agressões, Eriberta decidiu procurar ajuda. Em 2020, ela registrou a denúncia na Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher e conseguiu uma medida protetiva. “Eu fui atrás de socorro, de ajuda na Delegacia da Mulher, e eles concederam a medida protetiva porque eu estava sofrendo as agressões”, contou. De acordo com dados da Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, do Ministério das Mulheres, quase 70% das denúncias registradas em 2025 apontaram que a violência ocorreu dentro de casa. Em muitos casos, o agressor é alguém que, para as outras pessoas, aparenta ter uma vida comum. “Ele era completamente fora de qualquer suspeita. Não bebia, praticava esporte de luta, tudo certo até certo ponto”, disse. Lei Maria da Penha completa 20 anos em 2026. Freepik Filhos também sofreram com a violência Além do medo pelas próprias agressões, Eriberta tinha outra preocupação: os dois filhos, que presenciavam a violência. “Meus dois filhos acordavam chorando, ouvindo os barulhos e a confusão. Eu tive que criar forças e sair daquela situação porque poderia acabar em algo pior do que agressão, e eu poderia não estar aqui para contar essa história.” Mesmo após a medida protetiva, ela conta que o ex-companheiro se recusava a deixar a residência onde a família morava. “Eu fiz a denúncia, consegui a medida, mas ele não queria sair de casa. A gente morava em cima da casa dos meus pais e ele dizia que a casa era dele, que ia ficar lá. Ele só saiu quando o oficial de Justiça entrou na casa e determinou que ele deixasse o imóvel.” Com o apoio da rede de proteção às mulheres, ela e os filhos passaram a receber acompanhamento psicológico. “Na época eu tinha o apoio da rede da mulher. Meus filhos receberam atendimento psicológico, eu também tive acompanhamento e orientação para que eles conseguissem colocar tudo aquilo para fora. Até hoje minha filha lembra daquela época, mas não com a mesma dor que sentia.” A rede de atendimento conta com o Centro Estadual de Referência e Apoio à Mulher, o Cream. Um lugar que conta com apoio de assistentes sociais, psicólogos, pedagogos e profissionais de apoio administrativo direcionados pro acolhimento das vítimas e orientando sobre seus direitos. O Cream fica na Avenida Presidente Kennedy, 399, no bairro Educandos. “Hoje eu vejo que foi um livramento” Anos depois, Eriberta afirma que consegue olhar para o passado com outro sentimento. “Hoje, olhando para trás, eu vejo que foi um livramento de Deus, literalmente. Eu já me via morta, porque as agressões aconteciam e eu sempre tentava me defender por mim e pelas crianças. A gente nunca sabe onde aquilo vai parar.” Ela também faz um alerta sobre o preconceito enfrentado por mulheres vítimas de violência. “Sempre existe uma discriminação. As pessoas dizem que a mulher está naquela situação porque quer, que ela é culpada. Mas não é assim", destaca. Atualmente, Eriberta é formada como técnica de enfermagem, atua também como massoterapeuta e está concluindo uma graduação. Ela afirma que pretende criar um grupo de apoio para incentivar outras mulheres a romperem o ciclo da violência. “Eu sempre digo para terem fé, independentemente da religião, para não desistirem, procurarem ajuda e reunirem forças para buscar as pessoas certas. É um dia após o outro.” Onde buscar ajuda Mulheres em situação de violência podem procurar atendimento nas Delegacias Especializadas em Crimes Contra a Mulher, acionar a Polícia Militar pelo telefone 190 ou buscar orientação e acolhimento por meio da Central de Atendimento à Mulher, pelo Ligue 180, serviço gratuito que funciona 24 horas por dia em todo o país. As delegacias da Mulher funcionam em três endereços: Avenida Mário Ypiranga, 3395, Parque 10 de novembro, Zona Centro- Sul. Rua Desembargador Filismo Soares, Colônia Oliveira Machado, Zona Sul. Avenida Nossa Senhora da Conceição, Cidade de Deus, Zona Leste. Violência contra mulher: como pedir ajuda