O que são packer, binder e tape e como eles ajudam no bem-estar de pessoas trans Há quase dez anos, uma fábrica em Campinas (SP), composta por homens trans, transforma experiências pessoais em peças de afirmação de gênero, como o binder, faixa usada para achatar os seios, e o packer, dispositivo em formato de pênis que permite, inclusive, urinar em pé. Em cada pacote enviado pelo correio, vai mais do que um acessório: seguem histórias de quem aprendeu, no próprio corpo, o peso do preconceito e da disforia, e hoje ajuda outras pessoas trans a atravessarem esse caminho com mais conforto, dignidade e autoestima. A fábrica, criada pelo influenciador trans Stevan Queiroz, atende clientes de todo o Brasil e de mais 14 países. Segundo Queiroz, é uma das primeiras a se especializar no bem-estar de pessoas trans no país. Para quem produz, é mais do que um emprego. É acolhimento e pertencimento em um cenário que contrasta com a realidade da maioria das pessoas trans no mercado formal, mas que dá esperança – segundo levantamento, 80% já enfrentaram discriminação em alguma etapa de processos seletivos. Entenda: disforia de gênero é a sensação de sofrimento provocada pela incongruência entre o corpo e a identidade com a qual a pessoa se identifica. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Campinas no WhatsApp No Dia da Visibilidade Trans, celebrado nesta quinta-feira (29), o g1 reúne relatos de homens trans que encontraram no trabalho uma forma de se reconhecer, e de fazer com que outros também se reconheçam. Nas falas, eles destacam: o orgulho de ter um emprego digno, em que se sentem acolhidos e respeitados sendo eles mesmos; a importância de conviver com pessoas que compartilham vivências semelhantes; a emoção de levar a outros homens trans produtos que um dia transformaram a vida deles; e a satisfação em viver a representatividade de ponta a ponta, da linha de produção ao feedback dos clientes. Cueca com packer e binder: fábrica em Campinas produz acessórios de bem-estar para pessoas transmasculinas Estevão Mamédio/g1 'Aqui eu tive meu primeiro contato com outros meninos trans' - Erick, 27 anos 'Aqui eu tive meu primeiro contato com outros meninos trans' - Erick, 27 anos “Quando eu cheguei aqui, me senti igual criança. Porque o valor emocional de eu ter entrado aqui, sabendo que é uma coisa tão importante… Eu fico muito emocionado”. O relato é de Erick Anton, de 27 anos. Auxiliar de estoque da Transtore há quase cinco meses, ele se lembra bem da primeira vez que vestiu um binder, peça que deixa o tórax reto, tornando os seios menos evidentes. Hoje, sua principal satisfação está em proporcionar a mesma alegria para outros jovens que, assim como ele, só querem pertencer ao próprio corpo. “Quando eu abri aquele pacotinho lá, eu vi, eu coloquei e eu senti a felicidade [...] e saber que eu estou sendo parte, uma pequena parte do processo de dar essa felicidade para outros meninos que nem eu…”. “É uma sensação que eu não consigo explicar, sabe? Tipo, uma mistura de emoções. O fato de que a gente pega um produto, coloca em uma caixa, fecha uma caixa, manda para o correio”. Acolhimento que ele oferece ao próximo, mas que também desfruta todo dia. Foi trabalhando com homens trans, sendo ele mesmo e se reconhecendo nas experiências dos colegas, que sua identidade ganhou mais força. As palavras de Erick evidenciam que a representatividade importa, e muito. “Quando eu cheguei aqui e eu tive meu primeiro contato com um menino trans, eu fiquei assim… 'Nossa, que legal', porque eu já venho passando uns anos tentando esse processo. E agora eu estou achando que, bom, estou tendo certeza, de que está começando a dar certo”. “Medo, disforia, como as pessoas vão me olhar, será que é isso mesmo? Mas o fato de eu estar aqui e me sentir acolhido com pessoas que são como eu, que sabem muito bem a sensação de não ter pessoas por perto que falem: 'nossa, Erick, vai dar certo, sim'. É muito gratificante”. 'A gente sabe como é difícil o mercado de trabalho' - Arthur, 23 anos 'A gente sabe como é difícil o mercado de trabalho para quem é trans' - Arthur, 23 anos O supervisor de produção Arthur Henrique define sua trajetória na empresa como um processo marcado pelo acolhimento, experiência ainda pouco comumf para pessoas trans que buscam um trabalho. "Minha jornada aqui foi muito bonita, de muito acolhimento, de uma recepção boa. Você poder trabalhar num lugar onde você se sente bem, se sente reconhecido, que você é importante...". “Para a gente que é trans, a gente sabe como é difícil o mercado de trabalho, a gente sabe que lá fora a gente não é bem visto, se puder ser excluído, a gente é excluído”. Estar em um ambiente cercado por pessoas como ele tem impactado diretamente a qualidade de vida. “Tem um peso grande na minha jornada em relação ao que é acolher, sabe? Ao que é se sentir bem, ao que é se sentir confortável, para poder ter uma vida boa”. O sentimento descrito é de gratidão por fazer parte de algo que transforma não só a própria realidade, mas a de outras pessoas. “Ter algo que cause um conforto, que vai causar uma emoção na pessoa quando ela receber aquele produto”. No fim, Arthur resume o sentido do que faz diariamente: “Todo mundo tem o direito de se sentir bem ao se olhar no espelho”, completa. 'A gente faz como se fosse pra gente' - Theodoro, 30 anos 'A gente faz como se fosse pra gente' - Theodoro, 30 anos Theodoro Amancio, de 30 anos, é auxiliar de produção e chegou à empresa já atravessado por uma relação íntima com os produtos. Ele acompanhava a loja enquanto vivia o começo da própria transição. “Eu comecei a utilizar mesmo em 2020, quando eu realmente olhei para o mundo e vi que estava totalmente desconfortável. Eu tenho muita disforia com o meu corpo”. O binder e a tape surgiram como formas de aliviar esse incômodo, especialmente diante dos olhares externos. “Dependendo dos locais, dos olhares das pessoas, dá um alívio”. Hoje, esse sentimento é o que ele busca proporcionar para outras pessoas, participando de todo o processo de produção. “A gente faz do zero até chegar na mão do pessoal. Eu faço como se fosse pra mim”. Assim como os colegas, ele conta que encontrou no espaço de trabalho um lugar de escuta e troca. O acolhimento cotidiano tem o ajudado a transformar experiências difíceis em apoio compartilhado. “Eu também já passei por um preconceito imenso no decorrer dessa transição [...] Aqui, uma coisa que você sente, desconforto, coisa que uma pessoa já passou, ela te ajuda a lidar com aquilo”. 'Nenhum lugar que eu tenha passado na vida tem tanta importância igual aqui' - Bruno, 32 anos 'Nenhum lugar que eu tenha passado na vida tem importância igual aqui' - Bruno, 32 anos Bruno Roberto passou por diferentes empregos antes de chegar ao atual. Em alguns deles, a identidade de gênero foi motivo direto de exclusão. “Já teve lugares em que eu trabalhei e, quando os chefes descobriram que eu era um homem trans, pediram carta de demissão”, relembra. “Acho que, passando por vários lugares, eu senti o peso de estar num lugar assim [como hoje, cercado por pessoas trans], sendo um homem trans. Acho que, pra mim, nenhum lugar que eu tenha passado na vida tem tanta importância igual aqui“. Trabalhar com um produto que um dia transformou sua relação com o espelho torna esse processo ainda mais especial. O auxiliar de produção diz que é, justamente isso, que torna seus dias mais felizes e esperançosos. “É o que eu sempre até digo para os meninos que estão comigo todo dia. Quando eu venho aqui não tem aquela coisa maçante, aquele peso de: 'vou ter que de novo trabalhar' [...]“. “A gente sabe do peso que é entregar um produto desse, porque eu estou ali na produção direta e eu acho que cada passo a passo é muito importante. A gente vê nos detalhes para poder entregar o melhor para o próximo. Eu, como cliente antigamente, também pensava da mesma forma“. 'É como se estivesse cuidando de mim' - Denis, 33 anos 'É como se estivesse cuidando de mim' - Denis, 33 anos Goiano, Denis Alan Pires Nunes chegou a São Paulo antes mesmo de iniciar a transição de gênero. Ainda tentando se situar na cidade, se aproximou da loja primeiro como colaborador eventual, fazendo fotos, até que surgiu a possibilidade de trabalho fixo. O vínculo com os produtos veio antes do emprego. “Meu primeiro packer eu comprei aqui e aí eu fiquei muito emocionado”. A lembrança marca um momento de virada pessoal, atravessado por ansiedade e expectativa. Pouco tempo depois, Denis foi chamado para a entrevista e acabou ficando. “Desde então, estou aqui há cinco anos”. Hoje, como líder de estoque, reconhece no próprio trabalho algo que dialoga diretamente com sua vivência. “Eu sou muito feliz por produzir produtos que eu já tinha feito uso antes”. A identificação aparece no cuidado com cada etapa do processo. “É tudo um cuidado mesmo. É como se estivesse cuidando de mim”. Saber que outras pessoas trans recebem e usam aquilo que ele ajuda a preparar cria uma conexão silenciosa, mas profunda. “Eu sei como é importante. Vai chegar pra pessoa, a pessoa vai usar e se sentir confortável também”. O resultado disso é que, ao ver as reações de quem recebe, Denis reconhece sentimentos que já viveu. “A gente entende a felicidade da pessoa”. 'Às vezes a pessoa chega querendo apoio e acaba lendo comentários ofensivos' - Matteo, 27 anos 'A pessoa chega querendo apoio e acaba lendo comentários ofensivos' - Matteo, 27 anos Em meio aos relatos de quem tem aprendido a ressignificar as batalhas, ainda há muitos desafios. O ódio, infelizmente, é um deles. Matteo Anibal, de 27 anos, lida diariamente com reações hostis nas redes sociais. Entre mensagens de apoio e pedidos de ajuda, surgem ataques, denúncias e comentários ofensivos direcionados a pessoas trans. “Nosso maior desafio hoje é conseguir chegar nas pessoas de uma melhor forma. A gente sofre muito ataque. O nosso Instagram, normalmente cai bastante. As publicações são limitadas, porque as pessoas que chegam e não entendem o intuito. Denunciam”, conta. Segundo o gerente, “normalmente, os clientes chegam no atendimento também querendo um apoio emocional”. Em vez disso, muitas vezes se deparam com reações violentas. “Às vezes chegam comentários maldosos, agredindo nossos clientes [...] A gente tem que ficar sempre olhando o que está chegando ali para que as pessoas não leiam aqueles comentários ofensivos”. Anibal diz que o problema vai além da moderação de conteúdo. Trata-se de evitar que o ódio online produza mais exclusão. “Às vezes a pessoa chega no nosso perfil querendo apoio, querendo ler ali uma coisa legal e ela acaba tendo que ler esses comentários maliciosos, maldosos”. De pessoas trans para pessoas trans Fundada por um homem transexual, empresa em Campinas produz peças de bem-estar para pessoas transmasculinas Estevão Mamedio/g1 Sediada em Campinas, no interior de São Paulo, a empresa foi criada em 2017 por Stevan Queiroz. Inicialmente, a venda começou como um produto artesanal e depois foi aberta com quatro modelos de packers. Atualmente são 27, além de binders, tapes, cuecas e cintas, vibradores, lubrificantes, entre outros. O objetivo, segundo o gerente, Matteo Anibal, é oferecer produtos a preços mais acessíveis que os praticados no exterior. "A gente não tinha esses itens tão acessíveis como é hoje. Só tinha fora do país, a taxa de importação era muito alta, o dólar muito caro e, por conta disso, decidiu ele mesmo fazer um produto. Ele foi, fez o packer, costurou, fez o binder, que eram produtos que não tinha aqui no Brasil", comenta Anibal. "Ele postou isso em um grupo do Facebook para pessoas trans, onde o pessoal se ajuda, troca informações sobre cirurgia, hormonização, aspectos psicológicos... E foi lá que ele encontrou esse espaço pra poder divulgar o trabalho dele. As pessoas gostaram e perguntaram: 'você faz pra mim?'. Ele viu que era um mercado bem carente e começou a fazer", completa o gerente. VÍDEOS: Tudo sobre Campinas e Região Veja mais notícias sobre a região na página do g1 Campinas.
'Como se cuidasse de mim’: em mercado desafiado pela exclusão, homens trans criam produtos voltados à autoestima de pessoas trans
Guia Modelo Escrito em 29/01/2026
O que são packer, binder e tape e como eles ajudam no bem-estar de pessoas trans Há quase dez anos, uma fábrica em Campinas (SP), composta por homens trans, transforma experiências pessoais em peças de afirmação de gênero, como o binder, faixa usada para achatar os seios, e o packer, dispositivo em formato de pênis que permite, inclusive, urinar em pé. Em cada pacote enviado pelo correio, vai mais do que um acessório: seguem histórias de quem aprendeu, no próprio corpo, o peso do preconceito e da disforia, e hoje ajuda outras pessoas trans a atravessarem esse caminho com mais conforto, dignidade e autoestima. A fábrica, criada pelo influenciador trans Stevan Queiroz, atende clientes de todo o Brasil e de mais 14 países. Segundo Queiroz, é uma das primeiras a se especializar no bem-estar de pessoas trans no país. Para quem produz, é mais do que um emprego. É acolhimento e pertencimento em um cenário que contrasta com a realidade da maioria das pessoas trans no mercado formal, mas que dá esperança – segundo levantamento, 80% já enfrentaram discriminação em alguma etapa de processos seletivos. Entenda: disforia de gênero é a sensação de sofrimento provocada pela incongruência entre o corpo e a identidade com a qual a pessoa se identifica. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Campinas no WhatsApp No Dia da Visibilidade Trans, celebrado nesta quinta-feira (29), o g1 reúne relatos de homens trans que encontraram no trabalho uma forma de se reconhecer, e de fazer com que outros também se reconheçam. Nas falas, eles destacam: o orgulho de ter um emprego digno, em que se sentem acolhidos e respeitados sendo eles mesmos; a importância de conviver com pessoas que compartilham vivências semelhantes; a emoção de levar a outros homens trans produtos que um dia transformaram a vida deles; e a satisfação em viver a representatividade de ponta a ponta, da linha de produção ao feedback dos clientes. Cueca com packer e binder: fábrica em Campinas produz acessórios de bem-estar para pessoas transmasculinas Estevão Mamédio/g1 'Aqui eu tive meu primeiro contato com outros meninos trans' - Erick, 27 anos 'Aqui eu tive meu primeiro contato com outros meninos trans' - Erick, 27 anos “Quando eu cheguei aqui, me senti igual criança. Porque o valor emocional de eu ter entrado aqui, sabendo que é uma coisa tão importante… Eu fico muito emocionado”. O relato é de Erick Anton, de 27 anos. Auxiliar de estoque da Transtore há quase cinco meses, ele se lembra bem da primeira vez que vestiu um binder, peça que deixa o tórax reto, tornando os seios menos evidentes. Hoje, sua principal satisfação está em proporcionar a mesma alegria para outros jovens que, assim como ele, só querem pertencer ao próprio corpo. “Quando eu abri aquele pacotinho lá, eu vi, eu coloquei e eu senti a felicidade [...] e saber que eu estou sendo parte, uma pequena parte do processo de dar essa felicidade para outros meninos que nem eu…”. “É uma sensação que eu não consigo explicar, sabe? Tipo, uma mistura de emoções. O fato de que a gente pega um produto, coloca em uma caixa, fecha uma caixa, manda para o correio”. Acolhimento que ele oferece ao próximo, mas que também desfruta todo dia. Foi trabalhando com homens trans, sendo ele mesmo e se reconhecendo nas experiências dos colegas, que sua identidade ganhou mais força. As palavras de Erick evidenciam que a representatividade importa, e muito. “Quando eu cheguei aqui e eu tive meu primeiro contato com um menino trans, eu fiquei assim… 'Nossa, que legal', porque eu já venho passando uns anos tentando esse processo. E agora eu estou achando que, bom, estou tendo certeza, de que está começando a dar certo”. “Medo, disforia, como as pessoas vão me olhar, será que é isso mesmo? Mas o fato de eu estar aqui e me sentir acolhido com pessoas que são como eu, que sabem muito bem a sensação de não ter pessoas por perto que falem: 'nossa, Erick, vai dar certo, sim'. É muito gratificante”. 'A gente sabe como é difícil o mercado de trabalho' - Arthur, 23 anos 'A gente sabe como é difícil o mercado de trabalho para quem é trans' - Arthur, 23 anos O supervisor de produção Arthur Henrique define sua trajetória na empresa como um processo marcado pelo acolhimento, experiência ainda pouco comumf para pessoas trans que buscam um trabalho. "Minha jornada aqui foi muito bonita, de muito acolhimento, de uma recepção boa. Você poder trabalhar num lugar onde você se sente bem, se sente reconhecido, que você é importante...". “Para a gente que é trans, a gente sabe como é difícil o mercado de trabalho, a gente sabe que lá fora a gente não é bem visto, se puder ser excluído, a gente é excluído”. Estar em um ambiente cercado por pessoas como ele tem impactado diretamente a qualidade de vida. “Tem um peso grande na minha jornada em relação ao que é acolher, sabe? Ao que é se sentir bem, ao que é se sentir confortável, para poder ter uma vida boa”. O sentimento descrito é de gratidão por fazer parte de algo que transforma não só a própria realidade, mas a de outras pessoas. “Ter algo que cause um conforto, que vai causar uma emoção na pessoa quando ela receber aquele produto”. No fim, Arthur resume o sentido do que faz diariamente: “Todo mundo tem o direito de se sentir bem ao se olhar no espelho”, completa. 'A gente faz como se fosse pra gente' - Theodoro, 30 anos 'A gente faz como se fosse pra gente' - Theodoro, 30 anos Theodoro Amancio, de 30 anos, é auxiliar de produção e chegou à empresa já atravessado por uma relação íntima com os produtos. Ele acompanhava a loja enquanto vivia o começo da própria transição. “Eu comecei a utilizar mesmo em 2020, quando eu realmente olhei para o mundo e vi que estava totalmente desconfortável. Eu tenho muita disforia com o meu corpo”. O binder e a tape surgiram como formas de aliviar esse incômodo, especialmente diante dos olhares externos. “Dependendo dos locais, dos olhares das pessoas, dá um alívio”. Hoje, esse sentimento é o que ele busca proporcionar para outras pessoas, participando de todo o processo de produção. “A gente faz do zero até chegar na mão do pessoal. Eu faço como se fosse pra mim”. Assim como os colegas, ele conta que encontrou no espaço de trabalho um lugar de escuta e troca. O acolhimento cotidiano tem o ajudado a transformar experiências difíceis em apoio compartilhado. “Eu também já passei por um preconceito imenso no decorrer dessa transição [...] Aqui, uma coisa que você sente, desconforto, coisa que uma pessoa já passou, ela te ajuda a lidar com aquilo”. 'Nenhum lugar que eu tenha passado na vida tem tanta importância igual aqui' - Bruno, 32 anos 'Nenhum lugar que eu tenha passado na vida tem importância igual aqui' - Bruno, 32 anos Bruno Roberto passou por diferentes empregos antes de chegar ao atual. Em alguns deles, a identidade de gênero foi motivo direto de exclusão. “Já teve lugares em que eu trabalhei e, quando os chefes descobriram que eu era um homem trans, pediram carta de demissão”, relembra. “Acho que, passando por vários lugares, eu senti o peso de estar num lugar assim [como hoje, cercado por pessoas trans], sendo um homem trans. Acho que, pra mim, nenhum lugar que eu tenha passado na vida tem tanta importância igual aqui“. Trabalhar com um produto que um dia transformou sua relação com o espelho torna esse processo ainda mais especial. O auxiliar de produção diz que é, justamente isso, que torna seus dias mais felizes e esperançosos. “É o que eu sempre até digo para os meninos que estão comigo todo dia. Quando eu venho aqui não tem aquela coisa maçante, aquele peso de: 'vou ter que de novo trabalhar' [...]“. “A gente sabe do peso que é entregar um produto desse, porque eu estou ali na produção direta e eu acho que cada passo a passo é muito importante. A gente vê nos detalhes para poder entregar o melhor para o próximo. Eu, como cliente antigamente, também pensava da mesma forma“. 'É como se estivesse cuidando de mim' - Denis, 33 anos 'É como se estivesse cuidando de mim' - Denis, 33 anos Goiano, Denis Alan Pires Nunes chegou a São Paulo antes mesmo de iniciar a transição de gênero. Ainda tentando se situar na cidade, se aproximou da loja primeiro como colaborador eventual, fazendo fotos, até que surgiu a possibilidade de trabalho fixo. O vínculo com os produtos veio antes do emprego. “Meu primeiro packer eu comprei aqui e aí eu fiquei muito emocionado”. A lembrança marca um momento de virada pessoal, atravessado por ansiedade e expectativa. Pouco tempo depois, Denis foi chamado para a entrevista e acabou ficando. “Desde então, estou aqui há cinco anos”. Hoje, como líder de estoque, reconhece no próprio trabalho algo que dialoga diretamente com sua vivência. “Eu sou muito feliz por produzir produtos que eu já tinha feito uso antes”. A identificação aparece no cuidado com cada etapa do processo. “É tudo um cuidado mesmo. É como se estivesse cuidando de mim”. Saber que outras pessoas trans recebem e usam aquilo que ele ajuda a preparar cria uma conexão silenciosa, mas profunda. “Eu sei como é importante. Vai chegar pra pessoa, a pessoa vai usar e se sentir confortável também”. O resultado disso é que, ao ver as reações de quem recebe, Denis reconhece sentimentos que já viveu. “A gente entende a felicidade da pessoa”. 'Às vezes a pessoa chega querendo apoio e acaba lendo comentários ofensivos' - Matteo, 27 anos 'A pessoa chega querendo apoio e acaba lendo comentários ofensivos' - Matteo, 27 anos Em meio aos relatos de quem tem aprendido a ressignificar as batalhas, ainda há muitos desafios. O ódio, infelizmente, é um deles. Matteo Anibal, de 27 anos, lida diariamente com reações hostis nas redes sociais. Entre mensagens de apoio e pedidos de ajuda, surgem ataques, denúncias e comentários ofensivos direcionados a pessoas trans. “Nosso maior desafio hoje é conseguir chegar nas pessoas de uma melhor forma. A gente sofre muito ataque. O nosso Instagram, normalmente cai bastante. As publicações são limitadas, porque as pessoas que chegam e não entendem o intuito. Denunciam”, conta. Segundo o gerente, “normalmente, os clientes chegam no atendimento também querendo um apoio emocional”. Em vez disso, muitas vezes se deparam com reações violentas. “Às vezes chegam comentários maldosos, agredindo nossos clientes [...] A gente tem que ficar sempre olhando o que está chegando ali para que as pessoas não leiam aqueles comentários ofensivos”. Anibal diz que o problema vai além da moderação de conteúdo. Trata-se de evitar que o ódio online produza mais exclusão. “Às vezes a pessoa chega no nosso perfil querendo apoio, querendo ler ali uma coisa legal e ela acaba tendo que ler esses comentários maliciosos, maldosos”. De pessoas trans para pessoas trans Fundada por um homem transexual, empresa em Campinas produz peças de bem-estar para pessoas transmasculinas Estevão Mamedio/g1 Sediada em Campinas, no interior de São Paulo, a empresa foi criada em 2017 por Stevan Queiroz. Inicialmente, a venda começou como um produto artesanal e depois foi aberta com quatro modelos de packers. Atualmente são 27, além de binders, tapes, cuecas e cintas, vibradores, lubrificantes, entre outros. O objetivo, segundo o gerente, Matteo Anibal, é oferecer produtos a preços mais acessíveis que os praticados no exterior. "A gente não tinha esses itens tão acessíveis como é hoje. Só tinha fora do país, a taxa de importação era muito alta, o dólar muito caro e, por conta disso, decidiu ele mesmo fazer um produto. Ele foi, fez o packer, costurou, fez o binder, que eram produtos que não tinha aqui no Brasil", comenta Anibal. "Ele postou isso em um grupo do Facebook para pessoas trans, onde o pessoal se ajuda, troca informações sobre cirurgia, hormonização, aspectos psicológicos... E foi lá que ele encontrou esse espaço pra poder divulgar o trabalho dele. As pessoas gostaram e perguntaram: 'você faz pra mim?'. Ele viu que era um mercado bem carente e começou a fazer", completa o gerente. VÍDEOS: Tudo sobre Campinas e Região Veja mais notícias sobre a região na página do g1 Campinas.

