Feminicídios crescem no Vale do Paraíba; vítima que sobreviveu relembra 78 facadas e alerta para sinais abusivos

Guia Modelo Escrito em 12/08/2026


Feminicídios crescem no Vale do Paraíba; vítima que sobreviveu relembra 78 facadas Sobrevivente de uma tentativa de feminicídio com 78 facadas, Aline Guimarães hoje usa a própria história para alertar outras mulheres sobre os sinais de relacionamentos abusivos. O relato ganha ainda mais relevância em um cenário de aumento dos feminicídios no Vale do Paraíba, que registrou mais casos no primeiro semestre deste ano do que no mesmo período de 2025. A agressão aconteceu em julho de 2019, em Taubaté, após o fim de um relacionamento de três anos. Segundo Aline, o ex-namorado Cleiton Duda dos Santos não aceitou o término. Depois de semanas insistindo para reatar o namoro, ele decidiu agir. Na madrugada de um domingo, por volta das 5h, o homem invadiu a casa dela. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Vale do Paraíba e região no WhatsApp Aline foi atingida com 78 facadas e teve diversos órgãos afetados, incluindo o coração Reprodução/Rede Vanguarda Aline conta que acordou assustada com o barulho de uma janela sendo quebrada. Ao se levantar, encontrou o ex-companheiro dentro do imóvel, usando máscara e armado com uma faca. "Ele falou que eu ia morrer", relembra. O ataque deixou sequelas graves. Aline foi atingida com 78 facadas e teve diversos órgãos afetados, incluindo o coração. Ela ficou 72 horas em coma, passou uma semana na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e precisou de uma cirurgia de grande porte. Mais no g1 Vale do Paraíba e região: Irmã relata que estudante assassinada evitava sair de casa e mudou rotina após perseguição do ex: 'Ele condenou a nossa família' Com cortejo, estudante de Direito que foi assassinada a tiros é sepultada em Pindamonhangaba Estudante de Direito assassinada em Pindamonhangaba tinha medida protetiva contra ex-namorado Nas primeiras horas após a agressão, médicos informaram à família que ela precisava de doação de sangue. Segundo Aline, uma mobilização reuniu moradores de cidades vizinhas para ajudar. A recuperação levou meses. Quando recebeu alta do hospital, Aline ainda não conseguia realizar tarefas básicas sem ajuda. Ela afirma que precisou de cerca de quatro meses para recuperar a autonomia e retomar a rotina. Hoje, sete anos depois, ela diz que consegue identificar sinais que ignorou durante o relacionamento. "Ele não gostava de ser contrariado. As coisas precisavam funcionar do jeito dele. E infelizmente eu não consegui observar esses primeiros sinais." Para ela, a violência começa muito antes da agressão física. "Hoje eu sempre digo para as mulheres que já começa ali no xingamento." Aline afirma que muitas vítimas têm dificuldade para romper relacionamentos abusivos porque acreditam que a situação pode mudar. "Ela acha que com ela vai ser diferente, que é aquilo que eu pensava." Aline diz que hoje transformou a experiência que viveu em uma forma de ajudar outras mulheres. O principal conselho é não ignorar os primeiros sinais de violência. "Não negocie a sua vida. Não negocie a sua segurança. Não negocie um grito. Não negocie o primeiro empurrão." Cleiton Duda dos Santos foi condenado a 23 anos de prisão em júri popular. Após recurso, a pena foi reduzida para 14 anos. Ele está preso na Penitenciária 2 de Tremembé e tenta obter a progressão para o regime aberto, no qual o condenado pode cumprir a pena fora da prisão, desde que atenda às condições estabelecidas pela Justiça. Ele foi condenado inicialmente a 23 anos de prisão por tentativa de feminicídio, mas a pena foi reduzida para 14 anos após um recurso da defesa. A defesa de Cleiton não se manifestou sobre o pedido de progressão. Aumento de feminicídios O caso de Aline acontece em meio ao aumento dos feminicídios no estado e na região. Segundo dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP), São Paulo registrou 142 feminicídios entre janeiro e junho deste ano. No mesmo período de 2025, foram 110 casos. No Vale do Paraíba, o número subiu de oito para 11 vítimas. Na segunda-feira (10), mais uma família da região precisou lidar com a perda causada por um feminicídio. Lívia Berthoud, de 23 anos, foi morta a tiros a poucos metros da própria casa, em Pindamonhangaba. O principal suspeito é o ex-namorado, Carlos Eduardo Barbosa Vieira Leite. Segundo informações do boletim de ocorrência, ele foi encontrado em casa com um ferimento de tiro na cabeça. A suspeita é de que ele tenha atirado contra si mesmo. Carlos Eduardo permanece internado sob custódia da polícia. Contra o suspeito já havia uma medida protetiva concedida pela Justiça. Para Laura, irmã de Lívia, é preciso ampliar a proteção oferecida às mulheres. "A gente precisa fazer alguma coisa mais efetiva, a medida por si só não protege." Lívia Berthoud tinha 23 anos, cursava Direito na Unitau e fazia estágio no Tribunal de Justiça de São Paulo. Acervo pessoal/cedida família Acolhimento a vítimas Em meio ao aumento dos casos, a Polícia Militar inaugurou em Taubaté uma sala de acolhimento para vítimas de violência doméstica. O espaço acompanha mulheres que já registraram ocorrências e busca identificar situações de risco antes que a violência se agrave. As agentes realizam busca ativa das vítimas, verificam as condições de segurança e orientam sobre os serviços da rede de proteção. Além de Taubaté, o atendimento também inclui mulheres de Pindamonhangaba, Tremembé, Campos do Jordão, Santo Antônio do Pinhal, São Bento do Sapucaí, Natividade da Serra, Redenção da Serra, Lagoinha e São Luiz do Paraitinga. Veja mais notícias do Vale do Paraíba e região bragantina