Revolução Liberal: entenda o movimento que transformou Sorocaba na capital de São Paulo Em maio de 1842, Sorocaba se tornou o centro da Revolução Liberal, movimento que contestava o poder imperial e defendia maior autonomia para as províncias. A cidade ganhou destaque nacional ao se tornar, ainda que por pouco tempo, capital da província, equivalente hoje à sede do governo do estado. Porto Feliz e São Roque (SP) acompanharam o movimento, que ajudou a moldar o futuro republicano do Brasil. Presidente do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba (IHGGS), o professor Adilson Cezar é um dos especialistas sobre essa fase da história brasileira. Na semana do aniversário de 372 anos de Sorocaba, o g1 conversou com o historiador, que compartilhou dados e informações de um dos momentos mais importantes da política nacional. 📲 Participe do canal do g1 Sorocaba e Jundiaí no WhatsApp Canhões que deveriam apoiar Sorocaba (SP) na Revolução Liberal de 1842; ao fundo, estátua de Brigadeiro Tobias, líder do movimento Eric Mantuan/g1 No dia 17 de maio, Rafael Tobias de Aguiar, líder do Partido Liberal Paulista e figura central da Revolução, foi aclamado presidente interino da província de São Paulo em cerimônia realizada na cidade, que passou a funcionar como sede provisória do governo. LEIA TAMBÉM: Sorocaba celebra 372 anos com shows, desfile cívico e passeios de balão no Paço Municipal Agenda cultural tem Aniversário de Sorocaba, Feira Beco do Inferno, Supla e mais Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba inaugura duas exposições inéditas Uma ata da Câmara Municipal de Sorocaba da época registrou esse momento. Parte deste documento segue preservado no Instituto Histórico. O padre Diogo Antônio Feijó, ex-regente do Império, aderiu à revolta e deu uma espécie de legitimidade política ao movimento. "Reúnem-se aqui em Sorocaba várias lideranças do partido liberal e estas lideranças querem que se retire do poder de São Paulo o Barão de Monte Alegre, que era o presidente nomeado para a província." O historiador Adilson Cezar, de Sorocaba (SP), fala sobre a revolução que transformou a cidade em capital Marcel Scinocca/g1 "Como eu já falei da grandeza e da importância de Sorocaba dentro das tropas de muares, por exemplo, das grandes feiras que aqui ocorriam e vinha gente do país inteiro, em um grande comércio. Precisamos lembrar que Itu, por exemplo, era também riquíssima, principalmente na lavoura cafeeira. Enfim, toda essa região era uma região próspera e, portanto, uma região forte. Sentindo-se pressionados, eles resolvem rebelar-se", conta Adilson Cezar. Porto Feliz, marcada pela tradição liberal, foi uma das primeiras cidades a apoiar Tobias, enviando homens para reforçar as tropas rebeldes. São Roque também entrou no conflito, mas foi transformada em ponto de resistência legalista para conter o avanço dos revoltosos rumo à capital. Itu (SP), Capivari (SP) e Porto Feliz se alinharam ao movimento, enquanto Campinas (SP) permaneceu sob controle das forças imperiais e acabou sendo palco da derrota decisiva dos liberais em uma batalha sangrenta. "Lembrando que em Campinas predominava o partido conservador. Enquanto Sorocaba e Itu era o partido liberal, assim como algumas outras vilas desta nossa região. Eles se declaram totalmente contrários ao presidente da província de São Paulo, Barão de Monte Alegre. E aclamam o sorocabano Rafael Tobias de Aguiar como presidente interino da província de São Paulo. Portanto, se transforma numa cidade rebelde", explica. Feijó chegou a ser nomeado presidente. "O padre Diogo Feijó estava praticamente paralítico, impossibilitado, ele fica então na presidência interina do presidente a Sorocaba, e ele parte para o sul, em fuga. Só que esta fuga tinha interesse, ou seja, encontrar-se com os farroupilhas e trazer, quem sabe, a Revolução Farroupilha, que acorria no Rio Grande do Sul, para a região de Sorocaba." Ata da sessão da Câmara de Sorocaba (SP), em 1842, que transformou a cidade em capital de São Paulo Eric Mantuan/g1 Reação rápida e batalhas sangrentas O governo central reagiu rápido. Luís Alves de Lima e Silva, o Barão de Caxias, foi nomeado para comandar a repressão. "Entretanto, nós não tínhamos a experiência militar. Era gente do povo, era Guarda Nacional, ou seja, aqueles comandantes eram mais elementos de elite e que reuniam debaixo da guarda deles ou algum grupo de homens que de base de seus próprios recursos armados e se formavam os seus grupos de 'força armada'." Initial plugin text "São Paulo fica em polvorosa e comunica-se com o Rio de Janeiro. Sorocaba consegue armar por volta mais ou menos de 1 mil homens, entre sorocabanos, ituanos e outros. E estes vão atacar São Paulo." Monumento ao Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, em Sorocaba Eric Mantuan / g1 Com o Império avisado, eles sequer chegam à capital, de fato. Em 21 de junho, as forças do governo entram em Sorocaba e prendem Feijó. Tobias conseguiu escapar, mas foi capturado meses depois no Rio Grande do Sul. A revolta foi sufocada, mas deixou marcas profundas na política paulista. O movimento surgiu como resposta às reformas de 1841, que ampliaram o poder do imperador e reduziram a autonomia provincial. Para os liberais, a dissolução da Câmara dos Deputados pelo Poder Moderador representava um retrocesso. Apesar da derrota, a revolução consolidou a identidade liberal no interior paulista e reforçou a luta pela descentralização política. Em 1844, os líderes foram anistiados e Tobias voltou à vida pública, reforçando sua influência política. Legado Canhões instalados para defender Sorocaba não chegaram a ser acionados Eric Mantuan / g1 Sorocaba guarda até hoje a memória desse período por meio de monumentos e construções históricas. Na Praça Arthur Fajardo, está o Monumento ao Brigadeiro Tobias, homenagem ao líder da revolta, junto a dois canhões fundidos na Real Fábrica de Ferro de São João do Ipanema e que foram ali instalados para serem usados pelas tropas rebeldes. Entretanto, acabaram não sendo disparados em combate com a chegada das forças do governo imperial lideradas pelo Duque de Caxias. Rafael Tobias de Aguiar viveu na cidade e morou no chamado Casarão de Brigadeiro Tobias, imóvel que preserva parte de sua trajetória e simboliza sua ligação com Sorocaba no bairro que leva o seu nome. "A importância de todo esse contexto e da cidade de Sorocaba nesse período foi inigualável em todos os tempos, até os dias de hoje. Nunca Sorocaba alcançou esse poderio em determinado período: riqueza incomensurável, proveniente de tropas, do algodão e várias outras atividades comerciais que se multiplicavam aqui de forma vigorosa. Sorocaba foi berço, logo após esse período, de inúmeros processos industriais que se transformaram em grandes empreendimentos." Cezar lembra que quando Tobias recebe anistia, se encerra a rebelião de 1842. "Entretanto, o espírito dela não está encerrado e ele continua. Comparando 1842 com 1932 (Revolução Constitucionalista), a derrota se transforma posteriormente em vitória. Um dos grupos liberais defende duas causas de grande importância: o abolicionismo e a república. Vitória, por fim." Casarão de Brigadeiro Tobias em Sorocaba Matheus Fazolin/G1 Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM
Revolução Liberal de 1842: entenda o movimento que transformou Sorocaba na capital de São Paulo
Guia Modelo Escrito em 15/08/2026
Revolução Liberal: entenda o movimento que transformou Sorocaba na capital de São Paulo Em maio de 1842, Sorocaba se tornou o centro da Revolução Liberal, movimento que contestava o poder imperial e defendia maior autonomia para as províncias. A cidade ganhou destaque nacional ao se tornar, ainda que por pouco tempo, capital da província, equivalente hoje à sede do governo do estado. Porto Feliz e São Roque (SP) acompanharam o movimento, que ajudou a moldar o futuro republicano do Brasil. Presidente do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba (IHGGS), o professor Adilson Cezar é um dos especialistas sobre essa fase da história brasileira. Na semana do aniversário de 372 anos de Sorocaba, o g1 conversou com o historiador, que compartilhou dados e informações de um dos momentos mais importantes da política nacional. 📲 Participe do canal do g1 Sorocaba e Jundiaí no WhatsApp Canhões que deveriam apoiar Sorocaba (SP) na Revolução Liberal de 1842; ao fundo, estátua de Brigadeiro Tobias, líder do movimento Eric Mantuan/g1 No dia 17 de maio, Rafael Tobias de Aguiar, líder do Partido Liberal Paulista e figura central da Revolução, foi aclamado presidente interino da província de São Paulo em cerimônia realizada na cidade, que passou a funcionar como sede provisória do governo. LEIA TAMBÉM: Sorocaba celebra 372 anos com shows, desfile cívico e passeios de balão no Paço Municipal Agenda cultural tem Aniversário de Sorocaba, Feira Beco do Inferno, Supla e mais Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba inaugura duas exposições inéditas Uma ata da Câmara Municipal de Sorocaba da época registrou esse momento. Parte deste documento segue preservado no Instituto Histórico. O padre Diogo Antônio Feijó, ex-regente do Império, aderiu à revolta e deu uma espécie de legitimidade política ao movimento. "Reúnem-se aqui em Sorocaba várias lideranças do partido liberal e estas lideranças querem que se retire do poder de São Paulo o Barão de Monte Alegre, que era o presidente nomeado para a província." O historiador Adilson Cezar, de Sorocaba (SP), fala sobre a revolução que transformou a cidade em capital Marcel Scinocca/g1 "Como eu já falei da grandeza e da importância de Sorocaba dentro das tropas de muares, por exemplo, das grandes feiras que aqui ocorriam e vinha gente do país inteiro, em um grande comércio. Precisamos lembrar que Itu, por exemplo, era também riquíssima, principalmente na lavoura cafeeira. Enfim, toda essa região era uma região próspera e, portanto, uma região forte. Sentindo-se pressionados, eles resolvem rebelar-se", conta Adilson Cezar. Porto Feliz, marcada pela tradição liberal, foi uma das primeiras cidades a apoiar Tobias, enviando homens para reforçar as tropas rebeldes. São Roque também entrou no conflito, mas foi transformada em ponto de resistência legalista para conter o avanço dos revoltosos rumo à capital. Itu (SP), Capivari (SP) e Porto Feliz se alinharam ao movimento, enquanto Campinas (SP) permaneceu sob controle das forças imperiais e acabou sendo palco da derrota decisiva dos liberais em uma batalha sangrenta. "Lembrando que em Campinas predominava o partido conservador. Enquanto Sorocaba e Itu era o partido liberal, assim como algumas outras vilas desta nossa região. Eles se declaram totalmente contrários ao presidente da província de São Paulo, Barão de Monte Alegre. E aclamam o sorocabano Rafael Tobias de Aguiar como presidente interino da província de São Paulo. Portanto, se transforma numa cidade rebelde", explica. Feijó chegou a ser nomeado presidente. "O padre Diogo Feijó estava praticamente paralítico, impossibilitado, ele fica então na presidência interina do presidente a Sorocaba, e ele parte para o sul, em fuga. Só que esta fuga tinha interesse, ou seja, encontrar-se com os farroupilhas e trazer, quem sabe, a Revolução Farroupilha, que acorria no Rio Grande do Sul, para a região de Sorocaba." Ata da sessão da Câmara de Sorocaba (SP), em 1842, que transformou a cidade em capital de São Paulo Eric Mantuan/g1 Reação rápida e batalhas sangrentas O governo central reagiu rápido. Luís Alves de Lima e Silva, o Barão de Caxias, foi nomeado para comandar a repressão. "Entretanto, nós não tínhamos a experiência militar. Era gente do povo, era Guarda Nacional, ou seja, aqueles comandantes eram mais elementos de elite e que reuniam debaixo da guarda deles ou algum grupo de homens que de base de seus próprios recursos armados e se formavam os seus grupos de 'força armada'." Initial plugin text "São Paulo fica em polvorosa e comunica-se com o Rio de Janeiro. Sorocaba consegue armar por volta mais ou menos de 1 mil homens, entre sorocabanos, ituanos e outros. E estes vão atacar São Paulo." Monumento ao Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, em Sorocaba Eric Mantuan / g1 Com o Império avisado, eles sequer chegam à capital, de fato. Em 21 de junho, as forças do governo entram em Sorocaba e prendem Feijó. Tobias conseguiu escapar, mas foi capturado meses depois no Rio Grande do Sul. A revolta foi sufocada, mas deixou marcas profundas na política paulista. O movimento surgiu como resposta às reformas de 1841, que ampliaram o poder do imperador e reduziram a autonomia provincial. Para os liberais, a dissolução da Câmara dos Deputados pelo Poder Moderador representava um retrocesso. Apesar da derrota, a revolução consolidou a identidade liberal no interior paulista e reforçou a luta pela descentralização política. Em 1844, os líderes foram anistiados e Tobias voltou à vida pública, reforçando sua influência política. Legado Canhões instalados para defender Sorocaba não chegaram a ser acionados Eric Mantuan / g1 Sorocaba guarda até hoje a memória desse período por meio de monumentos e construções históricas. Na Praça Arthur Fajardo, está o Monumento ao Brigadeiro Tobias, homenagem ao líder da revolta, junto a dois canhões fundidos na Real Fábrica de Ferro de São João do Ipanema e que foram ali instalados para serem usados pelas tropas rebeldes. Entretanto, acabaram não sendo disparados em combate com a chegada das forças do governo imperial lideradas pelo Duque de Caxias. Rafael Tobias de Aguiar viveu na cidade e morou no chamado Casarão de Brigadeiro Tobias, imóvel que preserva parte de sua trajetória e simboliza sua ligação com Sorocaba no bairro que leva o seu nome. "A importância de todo esse contexto e da cidade de Sorocaba nesse período foi inigualável em todos os tempos, até os dias de hoje. Nunca Sorocaba alcançou esse poderio em determinado período: riqueza incomensurável, proveniente de tropas, do algodão e várias outras atividades comerciais que se multiplicavam aqui de forma vigorosa. Sorocaba foi berço, logo após esse período, de inúmeros processos industriais que se transformaram em grandes empreendimentos." Cezar lembra que quando Tobias recebe anistia, se encerra a rebelião de 1842. "Entretanto, o espírito dela não está encerrado e ele continua. Comparando 1842 com 1932 (Revolução Constitucionalista), a derrota se transforma posteriormente em vitória. Um dos grupos liberais defende duas causas de grande importância: o abolicionismo e a república. Vitória, por fim." Casarão de Brigadeiro Tobias em Sorocaba Matheus Fazolin/G1 Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

