O Rio que viu o Penta: como a cidade mudou em 24 anos, entre 2002 e 2026 Quando o Brasil conquistou o Pentacampeonato na Copa do Mundo, em junho de 2002, o Rio de Janeiro ainda tinha a Perimetral cortando a Região Portuária, não contava com VLT, Parque Madureira ou Museu do Amanhã e nem sonhava em ser sede de uma Olimpíada. O g1 também não existia. Passados 24 anos — incluindo uma final de Copa do Mundo em um remodelado Maracanã e uma edição dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos —, o Rio ganhou equipamentos urbanos, expandiu a rede de transportes e viu crescer a população e a ocupação de áreas da Zona Oeste. A Seleção joga nesta segunda (29) contra o Japão pelas 16 avos de final e, se perder, volta para casa — e o Brasil terá de esperar mais 4 anos (em um total de 28) para tentar ser campeão novamente. 🟩O g1 Rio está no GloboPop, o novo aplicativo de vídeos curtos verticais da Globo, disponível gratuitamente no seu celular. Lá no app, você pode seguir o palco do g1 Rio para não perder nenhum detalhe. Baixe o GloboPop. Praça Mauá com o Elevado da Perimetral Reprodução/TV Globo Assim era o Rio em 2002: Presidente: Fernando Henrique Cardoso Governador: Anthony Garotinho Prefeito: Cesar Maia Campeão carioca: Fluminense Campeã do carnaval: Estação Primeira de Mangueira Campeão brasileiro: Santos (o Botafogo foi rebaixado pela 1ª vez) Conectada, mas desigual Ao longo das últimas décadas, o Rio passou por mudanças em sua estrutura urbana. A expansão do metrô, a implantação dos corredores de BRT, a chegada do VLT e a revitalização da Região Portuária alteraram a dinâmica da cidade. Em 2002, a rede metroviária era significativamente menor. A Linha 1 terminava na Estação Cardeal Arcoverde, em Copacabana. Cantagalo e General Osório não existiam, e a ligação com a Barra da Tijuca só seria inaugurada anos depois. Para o urbanista Henrique Silveira, no entanto, os benefícios não foram distribuídos igualmente. Na avaliação dele, a expansão do metrô mais ajudou áreas que já contavam com infraestrutura. “Acho que beneficiou os bairros mais favorecidos da cidade, que ganharam um transporte público de fácil utilização, eficiente.” O especialista destaca que o Rio de Janeiro ainda enfrenta desafios significativos relacionados à mobilidade urbana. Segundo ele, a expansão da cidade contribui para agravar esse cenário, já que o aumento das distâncias percorridas pelos moradores torna os deslocamentos mais longos e complexos. O metrô no Rio dos anos 2000. Acervo TV Globo Maracanã tinha geral Os megaeventos também transformaram símbolos históricos da cidade. O Maracanã, um dos principais cartões-postais do Rio, passou por mudanças profundas ao longo desse período. Em 2002, o estádio ainda preservava características históricas, como a Geral, setor popular onde os torcedores assistiam às partidas em pé e pagavam ingressos mais baratos. As sucessivas reformas realizadas para os Jogos Pan-Americanos de 2007, a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 modernizaram a estrutura, reduziram a capacidade de público e extinguiram espaços tradicionais. O ge fez um especial sobre todas as versões do Maracanã, que completou 70 anos no último dia 16. Maracanã em 2002 ainda tinha a geral Reprodução/TV Globo Centro transformado e novos espaços públicos Muitas das estruturas que hoje fazem parte da paisagem cotidiana da cidade sequer existiam em 2002. O Rio ainda estava longe de se tornar sede dos Jogos Olímpicos e não contava com equipamentos como o Parque Olímpico, o VLT, o Museu do Amanhã, o Boulevard Olímpico e o Porto Maravilha. Os corredores do BRT Transoeste, Transcarioca e Transolímpica também não faziam parte da rede de mobilidade urbana. Grande parte da infraestrutura que atualmente parece consolidada para os moradores surgiu apenas nos anos seguintes, impulsionada principalmente pelos investimentos ligados aos megaeventos esportivos. Mas ainda havia o Autódromo de Jacarepaguá, demolido em 2012 para dar lugar às arenas de 2016. O carioca também se divertia no Terra Encantada, no Rio Water Planet e no Wet n’ Wild — que não existem mais. Museu do Amanhã Reprodução Uma das mudanças mais marcantes ocorreu na região central. A derrubada da Perimetral abriu espaço para equipamentos culturais e para a reocupação da Praça Mauá. O elevado cortava toda a frente marítima e separava a cidade da área portuária. A Praça Mauá ainda era marcada pela degradação urbana e funcionava, na prática, como uma área de passagem de veículos. Não existiam os museus que hoje atraem turistas e moradores, nem o VLT que conecta diferentes pontos do Centro. A região portuária vivia um período de esvaziamento econômico e pouca circulação de pessoas. Para Rafael Nunes, essa transformação seria um dos elementos que mais surpreenderiam alguém transportado de 2002 para 2026. “Tem muitas coisas na região central que deixariam chocado, mas de fato, uma das coisas que eu acho que seriam mais contundentes é você ver que você não tem mais a barreira física da Perimetral. A demolição do elevado gerou a possibilidade de uma série de ressignificações de espaço. Inclusive a própria Praça Mauá, que para mim hoje é um símbolo dessa reapropriação, dessa reconfiguração do centro histórico do Rio de Janeiro.” Zona Portuária antes da implosão do Elevado da Perimetral Acervo TV Globo O cenário começou a mudar a partir de 2013, com a demolição da Perimetral e as intervenções do projeto Porto Maravilha. O espaço onde atualmente milhares de visitantes registram fotos diante do Museu do Amanhã era ocupado por um elevado que dominava a paisagem da orla central. Além do Centro, bairros como Madureira passaram por transformações significativas. O historiador destaca o Parque Madureira como um exemplo dessa restauração urbana na Zona Norte. Inaugurado em 2012, o espaço transformou uma área antes ocupada por linhas de transmissão de energia em um dos maiores parques públicos da cidade, criando novas áreas de lazer, esporte e convivência para moradores de diferentes regiões da Zona Norte. Parque Madureira Divulgação Cultura carioca resiste ao tempo Para Rafael Nunes, uma das características que permanecem marcantes é a cultura de rua, considerada por ele um elemento essencial da identidade carioca. O historiador avalia que esse modo de ocupar os espaços públicos e de vivenciar a cidade continua sendo uma das principais marcas do jeito carioca de viver. Ao ser questionado sobre o que mais surpreenderia uma pessoa transportada de 2002 para 2026, ele respondeu: “Uma das coisas fundamentais que a gente veria e falaria: ‘Olha, estamos no Rio de Janeiro, essa informalidade do carioca, que te abraça e que te convida para tomar uma cerveja, para sentar na mesa, para ouvir um samba, para rezar e acreditar num Rio melhor daqui para frente’.” Ele ainda afirma que a identidade carioca da época estava ligada à vida nas ruas, aos encontros e à cultura popular. “Eu acho que o Rio dos anos 2000 era o Rio do funk, era o Rio da dessa malandragem, dessa malevolência, que batia no corpo, mas que batia na expressão da festa, do encontro, da cultura carioca.” BAILE FUNK - festas ao som de funk atrai centenas de pessoas nas mais diversas comunidades cariocas. Explosão do gênero aconteceu nos anos 90 por causa das festas produzidas pela Furacão 2000, uma das maiores organizadoras de baile funk do país Furacão 2000 / Divulgação Essa autenticidade também se manifestava na trilha sonora da cidade. Em 2002, sucessos do Bonde do Tigrão, dos bailes da Furacão 2000 e do pagode romântico dominavam rádios, festas e encontros espalhados pelos bairros cariocas. Espaços culturais que hoje são referências, como a Fundição Progresso e o Circo Voador, começavam a recuperar protagonismo e a atrair novos públicos. Duas décadas depois, apesar das transformações urbanas e tecnológicas, a cultura popular segue ocupando as ruas e ajudando a definir a identidade da cidade. Desafios que permanecem Nem todas as mudanças, porém, foram capazes de resolver problemas históricos da capital fluminense. Para Henrique Silveira, uma das transformações mais perceptíveis ao longo das últimas décadas foi o aumento do custo de vida. Na avaliação dele, morar no Rio de Janeiro se tornou mais caro ao longo dos últimos anos, um cenário que acaba impactando negativamente a maior parte da população. Na área da segurança pública, o Rio também passou por mudanças importantes. Em 2002, o debate era dominado principalmente pela atuação das facções ligadas ao tráfico de drogas, como Comando Vermelho, Amigos dos Amigos (ADA) e Terceiro Comando, frequentemente presentes no noticiário policial. As Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) ainda não haviam sido criadas, e as milícias, que hoje são tema central em discussões sobre segurança no estado, não tinham ganhado território. Entre permanências e transformações, o Rio já não é a cidade da Geral do Maracanã, da Perimetral sobre a Praça Mauá ou do metrô restrito à Zona Sul. Mas continua sendo a cidade onde o samba ocupa as ruas, onde multidões se reúnem para celebrar e onde desafios históricos convivem com sucessivas transformações.
O Rio que viu o Penta: como a cidade mudou em 24 anos, entre 2002 e 2026
Guia Modelo Escrito em 28/06/2026
O Rio que viu o Penta: como a cidade mudou em 24 anos, entre 2002 e 2026 Quando o Brasil conquistou o Pentacampeonato na Copa do Mundo, em junho de 2002, o Rio de Janeiro ainda tinha a Perimetral cortando a Região Portuária, não contava com VLT, Parque Madureira ou Museu do Amanhã e nem sonhava em ser sede de uma Olimpíada. O g1 também não existia. Passados 24 anos — incluindo uma final de Copa do Mundo em um remodelado Maracanã e uma edição dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos —, o Rio ganhou equipamentos urbanos, expandiu a rede de transportes e viu crescer a população e a ocupação de áreas da Zona Oeste. A Seleção joga nesta segunda (29) contra o Japão pelas 16 avos de final e, se perder, volta para casa — e o Brasil terá de esperar mais 4 anos (em um total de 28) para tentar ser campeão novamente. 🟩O g1 Rio está no GloboPop, o novo aplicativo de vídeos curtos verticais da Globo, disponível gratuitamente no seu celular. Lá no app, você pode seguir o palco do g1 Rio para não perder nenhum detalhe. Baixe o GloboPop. Praça Mauá com o Elevado da Perimetral Reprodução/TV Globo Assim era o Rio em 2002: Presidente: Fernando Henrique Cardoso Governador: Anthony Garotinho Prefeito: Cesar Maia Campeão carioca: Fluminense Campeã do carnaval: Estação Primeira de Mangueira Campeão brasileiro: Santos (o Botafogo foi rebaixado pela 1ª vez) Conectada, mas desigual Ao longo das últimas décadas, o Rio passou por mudanças em sua estrutura urbana. A expansão do metrô, a implantação dos corredores de BRT, a chegada do VLT e a revitalização da Região Portuária alteraram a dinâmica da cidade. Em 2002, a rede metroviária era significativamente menor. A Linha 1 terminava na Estação Cardeal Arcoverde, em Copacabana. Cantagalo e General Osório não existiam, e a ligação com a Barra da Tijuca só seria inaugurada anos depois. Para o urbanista Henrique Silveira, no entanto, os benefícios não foram distribuídos igualmente. Na avaliação dele, a expansão do metrô mais ajudou áreas que já contavam com infraestrutura. “Acho que beneficiou os bairros mais favorecidos da cidade, que ganharam um transporte público de fácil utilização, eficiente.” O especialista destaca que o Rio de Janeiro ainda enfrenta desafios significativos relacionados à mobilidade urbana. Segundo ele, a expansão da cidade contribui para agravar esse cenário, já que o aumento das distâncias percorridas pelos moradores torna os deslocamentos mais longos e complexos. O metrô no Rio dos anos 2000. Acervo TV Globo Maracanã tinha geral Os megaeventos também transformaram símbolos históricos da cidade. O Maracanã, um dos principais cartões-postais do Rio, passou por mudanças profundas ao longo desse período. Em 2002, o estádio ainda preservava características históricas, como a Geral, setor popular onde os torcedores assistiam às partidas em pé e pagavam ingressos mais baratos. As sucessivas reformas realizadas para os Jogos Pan-Americanos de 2007, a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 modernizaram a estrutura, reduziram a capacidade de público e extinguiram espaços tradicionais. O ge fez um especial sobre todas as versões do Maracanã, que completou 70 anos no último dia 16. Maracanã em 2002 ainda tinha a geral Reprodução/TV Globo Centro transformado e novos espaços públicos Muitas das estruturas que hoje fazem parte da paisagem cotidiana da cidade sequer existiam em 2002. O Rio ainda estava longe de se tornar sede dos Jogos Olímpicos e não contava com equipamentos como o Parque Olímpico, o VLT, o Museu do Amanhã, o Boulevard Olímpico e o Porto Maravilha. Os corredores do BRT Transoeste, Transcarioca e Transolímpica também não faziam parte da rede de mobilidade urbana. Grande parte da infraestrutura que atualmente parece consolidada para os moradores surgiu apenas nos anos seguintes, impulsionada principalmente pelos investimentos ligados aos megaeventos esportivos. Mas ainda havia o Autódromo de Jacarepaguá, demolido em 2012 para dar lugar às arenas de 2016. O carioca também se divertia no Terra Encantada, no Rio Water Planet e no Wet n’ Wild — que não existem mais. Museu do Amanhã Reprodução Uma das mudanças mais marcantes ocorreu na região central. A derrubada da Perimetral abriu espaço para equipamentos culturais e para a reocupação da Praça Mauá. O elevado cortava toda a frente marítima e separava a cidade da área portuária. A Praça Mauá ainda era marcada pela degradação urbana e funcionava, na prática, como uma área de passagem de veículos. Não existiam os museus que hoje atraem turistas e moradores, nem o VLT que conecta diferentes pontos do Centro. A região portuária vivia um período de esvaziamento econômico e pouca circulação de pessoas. Para Rafael Nunes, essa transformação seria um dos elementos que mais surpreenderiam alguém transportado de 2002 para 2026. “Tem muitas coisas na região central que deixariam chocado, mas de fato, uma das coisas que eu acho que seriam mais contundentes é você ver que você não tem mais a barreira física da Perimetral. A demolição do elevado gerou a possibilidade de uma série de ressignificações de espaço. Inclusive a própria Praça Mauá, que para mim hoje é um símbolo dessa reapropriação, dessa reconfiguração do centro histórico do Rio de Janeiro.” Zona Portuária antes da implosão do Elevado da Perimetral Acervo TV Globo O cenário começou a mudar a partir de 2013, com a demolição da Perimetral e as intervenções do projeto Porto Maravilha. O espaço onde atualmente milhares de visitantes registram fotos diante do Museu do Amanhã era ocupado por um elevado que dominava a paisagem da orla central. Além do Centro, bairros como Madureira passaram por transformações significativas. O historiador destaca o Parque Madureira como um exemplo dessa restauração urbana na Zona Norte. Inaugurado em 2012, o espaço transformou uma área antes ocupada por linhas de transmissão de energia em um dos maiores parques públicos da cidade, criando novas áreas de lazer, esporte e convivência para moradores de diferentes regiões da Zona Norte. Parque Madureira Divulgação Cultura carioca resiste ao tempo Para Rafael Nunes, uma das características que permanecem marcantes é a cultura de rua, considerada por ele um elemento essencial da identidade carioca. O historiador avalia que esse modo de ocupar os espaços públicos e de vivenciar a cidade continua sendo uma das principais marcas do jeito carioca de viver. Ao ser questionado sobre o que mais surpreenderia uma pessoa transportada de 2002 para 2026, ele respondeu: “Uma das coisas fundamentais que a gente veria e falaria: ‘Olha, estamos no Rio de Janeiro, essa informalidade do carioca, que te abraça e que te convida para tomar uma cerveja, para sentar na mesa, para ouvir um samba, para rezar e acreditar num Rio melhor daqui para frente’.” Ele ainda afirma que a identidade carioca da época estava ligada à vida nas ruas, aos encontros e à cultura popular. “Eu acho que o Rio dos anos 2000 era o Rio do funk, era o Rio da dessa malandragem, dessa malevolência, que batia no corpo, mas que batia na expressão da festa, do encontro, da cultura carioca.” BAILE FUNK - festas ao som de funk atrai centenas de pessoas nas mais diversas comunidades cariocas. Explosão do gênero aconteceu nos anos 90 por causa das festas produzidas pela Furacão 2000, uma das maiores organizadoras de baile funk do país Furacão 2000 / Divulgação Essa autenticidade também se manifestava na trilha sonora da cidade. Em 2002, sucessos do Bonde do Tigrão, dos bailes da Furacão 2000 e do pagode romântico dominavam rádios, festas e encontros espalhados pelos bairros cariocas. Espaços culturais que hoje são referências, como a Fundição Progresso e o Circo Voador, começavam a recuperar protagonismo e a atrair novos públicos. Duas décadas depois, apesar das transformações urbanas e tecnológicas, a cultura popular segue ocupando as ruas e ajudando a definir a identidade da cidade. Desafios que permanecem Nem todas as mudanças, porém, foram capazes de resolver problemas históricos da capital fluminense. Para Henrique Silveira, uma das transformações mais perceptíveis ao longo das últimas décadas foi o aumento do custo de vida. Na avaliação dele, morar no Rio de Janeiro se tornou mais caro ao longo dos últimos anos, um cenário que acaba impactando negativamente a maior parte da população. Na área da segurança pública, o Rio também passou por mudanças importantes. Em 2002, o debate era dominado principalmente pela atuação das facções ligadas ao tráfico de drogas, como Comando Vermelho, Amigos dos Amigos (ADA) e Terceiro Comando, frequentemente presentes no noticiário policial. As Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) ainda não haviam sido criadas, e as milícias, que hoje são tema central em discussões sobre segurança no estado, não tinham ganhado território. Entre permanências e transformações, o Rio já não é a cidade da Geral do Maracanã, da Perimetral sobre a Praça Mauá ou do metrô restrito à Zona Sul. Mas continua sendo a cidade onde o samba ocupa as ruas, onde multidões se reúnem para celebrar e onde desafios históricos convivem com sucessivas transformações.

