Mulheres decidem? Óvulo pode ‘rejeitar’ espermatozoide mais rápido e ‘escolher’ com qual quer ser fecundado

Guia Modelo Escrito em 08/03/2026


Óvulo pode ter um papel mais ativo na fertilização do que se imaginava. Freepik Durante muito tempo, a fertilização humana foi explicada como uma corrida. Milhões de espermatozoides competiriam para alcançar o óvulo, e o vencedor seria simplesmente o mais rápido. A biologia reprodutiva moderna, porém, indica que o processo pode ser mais complexo. Em vez de apenas esperar, o óvulo também participa da interação com os espermatozoides. É o que mostra um estudo conduzido por cientistas das universidades de Estocolmo, na Suécia, e Manchester, no Reino Unido. Publicado na revista científica Proceedings of the Royal Society B., o trabalho revelou que o fluido folicular —líquido que envolve o óvulo no momento da ovulação— libera sinais químicos capazes de atrair alguns espermatozoides mais do que outros. Na prática, isso sugere que o óvulo pode até “escolher” qual espermatozoide tem mais chance de fecundá-lo. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Uma comunicação química invisível Esse processo é conhecido como quimioatração espermática. Substâncias liberadas pelo complexo formado pelo óvulo e pelas células ao seu redor funcionam como pistas químicas que ajudam a orientar o movimento dos espermatozoides dentro do trato reprodutor feminino. Segundo o urologista e andrologista Bernardo Hermanson, membro titular da Sociedade Brasileira de Urologia, esses sinais ajudam a recrutar os espermatozoides capazes de chegar até o local da fertilização. “Essas moléculas funcionam como um sistema de orientação. Elas ajudam a recrutar os espermatozoides capazes de responder ao gradiente químico e chegar até o óvulo”, explica. Uma das moléculas mais estudadas nesse processo é a progesterona, hormônio que pode ativar canais presentes nos espermatozoides e alterar seu padrão de movimento, ajudando-os a seguir o gradiente químico em direção ao óvulo. Compatibilidade entre os gametas Os experimentos também indicam que essa atração química pode variar conforme a combinação entre homem e mulher. Ou seja: um mesmo espermatozoide pode responder mais fortemente aos sinais químicos de um determinado óvulo do que aos de outro. Para Hermanson, isso sugere que pode existir algum grau de compatibilidade funcional entre os gametas. “A atração do espermatozoide pelo fluido folicular depende muito da combinação específica entre homem e mulher. Não é apenas qual sêmen é melhor ou qual fluido é melhor, mas como eles interagem”, afirma. Essa interação pode envolver fatores genéticos, bioquímicos ou imunológicos que ainda estão sendo investigados. Atração química pode variar conforme a combinação entre homem e mulher. Freepik Uma possível peça do quebra-cabeça da infertilidade A hipótese também levanta uma possibilidade intrigante: em alguns casos, pode haver dificuldade de fertilização mesmo quando os exames indicam que tanto os espermatozoides quanto os óvulos são saudáveis. Segundo Hermanson, isso pode ajudar a explicar parte dos casos de infertilidade sem causa aparente, quando os testes tradicionais não encontram alterações. “O casal pode ter gametas considerados normais nos exames tradicionais, mas uma comunicação química ineficiente entre eles”, diz o especialista. Ele ressalta, porém, que essa relação ainda não foi comprovada diretamente em humanos fora do laboratório. “Os estudos mostram que o fenômeno existe e é consistente em laboratório, mas ainda não há prova de que ele seja causa de infertilidade no organismo”, afirma. Nem todos os espermatozoides são iguais Outro detalhe importante é que, dentro de um mesmo ejaculado, nem todos os espermatozoides respondem da mesma forma aos sinais químicos. Apenas uma pequena fração dos espermatozoides que chegam ao local da fertilização está em um estágio chamado capacitação, que os torna capazes de fertilizar o óvulo. Pequenas diferenças na resposta aos sinais químicos, portanto, podem influenciar quais células conseguem chegar até o óvulo. O que ainda falta entender Apesar dos resultados promissores, cientistas ainda investigam o peso real desse fenômeno na fertilização humana. Muitos experimentos são realizados em laboratório, em condições simplificadas que não reproduzem completamente o ambiente do corpo humano, onde os espermatozoides enfrentam um percurso complexo pelo trato reprodutor feminino. Ainda assim, entender melhor essas interações pode abrir novos caminhos na medicina reprodutiva e ajudar pesquisadores a compreender melhor como ocorre a fertilização.