Entenda como se formou a nova rota internacional de tráfico humano que levou 23 brasileiros do Camboja até Madagascar

Guia Modelo Escrito em 02/09/2026


Brasileiros são vítimas de tráfico humano após falsas vagas de emprego Arquivo Pessoal Uma rede de tráfico humano que recrutava brasileiros para trabalhar no Sudeste Asiático passou a buscar novos destinos depois do aumento da repressão na região, segundo Cintia Meirelles, diretora da ONG Exodus Road Brasil, organização não governamental que atua no combate a esta atividade. Segundo as investigações, as vítimas são recrutadas com falsas promessas de emprego e, ao chegar ao exterior, são obrigadas a participar de golpes virtuais. Entre os países apontados estão Madagascar, na África, além de Paraguai, Ucrânia, Armênia, Malásia e Emirados Árabes Unidos. A mudança ocorreu depois que as autoridades passaram a atuar mais intensamente contra os chamados complexos de golpes no Sudeste Asiático. "Há mesmo uma nova rota depois que houve o conflito entre Tailândia e Camboja em 2025. Policiais acabaram entrando mais nos complexos de golpes feitos com vítima de tráfico humano, e as redes passaram a se pulverizar para a África, como Madagascar, e outros países como Paraguai, Ucrânia, Armênia, Malásia e a cidade de Dubai. Eles estão realmente pulverizando para outros locais, o que faz com que fique mais difícil de monitorar", afirmou. O caso de 23 brasileiros que estão em Antananarivo, capital de Madagascar, é um exemplo dessa mudança de rota. Segundo os relatos das vítimas, elas foram atraídas por falsas promessas de emprego, passaram pelo Camboja e depois foram levadas para Madagascar, onde teriam sido obrigadas a participar de golpes financeiros. A avaliação da ONG ocorre em um momento em que o governo brasileiro também identifica o Camboja como um dos principais destinos de vítimas de tráfico internacional. Mas como essas redes funcionam e por que elas passaram a buscar novos destinos? Entenda abaixo como os brasileiros são aliciados, como funcionam os esquemas de golpes e o que mudou nas rotas do tráfico internacional. 1. Onde essa história começou? Brasileiro vítima de tráfico humano relata fuga em Madagascar e luta para voltar para casa O Sudeste Asiático se tornou um importante foco de tráfico de brasileiros para exploração laboral. Segundo o Ministério da Justiça, 84 vítimas brasileiras foram identificadas em casos de tráfico internacional em 2025. O Camboja foi o principal país de destino entre os casos registrados, com 44 vítimas, muitas delas relacionadas à exploração em centros de golpes virtuais, conhecidos como "scam centres". Nesses locais, as vítimas podem ser obrigadas a participar de fraudes digitais. O Ministério da Justiça afirma que uma falsa vaga na área de tecnologia ou atendimento ao público pode ser utilizada para levar uma pessoa a outro país e submetê-la a trabalho forçado em atividades criminosas. O aliciamento costuma ocorrer pela internet. As propostas podem prometer salários elevados, pagamento de passagens, hospedagem e até regularização migratória. Foi dessa maneira que um paulistano de 27 anos chegou ao esquema que posteriormente o levou a Madagascar. Ele procurava emprego quando encontrou, em um grupo no Telegram, uma oferta de trabalho no exterior. "Eu estava pesquisando empregos porque queria uma fonte de renda boa. Eu tinha perdido minha habilitação e não estava conseguindo emprego em São Paulo. Então fui procurar na internet. Nisso, caí em um grupo no Telegram que oferecia vaga de emprego no exterior." A proposta, segundo ele, incluía passagem, alimentação, moradia e treinamento. Inicialmente, o trabalho seria no suporte de aplicativos. "Eu vim naquela ilusão de tipo: ‘Estou sem emprego, provavelmente vou conhecer um novo país, uma nova cultura, vou ter uma moradia, vou ter uma alimentação, vou ter um salário, vou conseguir resolver minha vida no Brasil e vou voltar no fim disso com algum dinheiro no bolso’." 2. Por que o Camboja aparece? O destino informado aos brasileiros era o Camboja. O jovem chegou ao país em meados de abril e foi levado de carro para uma região próxima à fronteira com a Tailândia. Segundo o relato, o passaporte foi recolhido assim que ele chegou. A suposta empresa não funcionava como havia sido prometido, os trabalhadores eram transferidos, e a internet chegou a ser retirada. Depois, os responsáveis pela organização compraram passagens e transferiram os brasileiros para Madagascar. "Foi daí que eu comecei a perceber. Me perguntei: ‘Por que está se mudando?’. Aí me falaram que eles estavam fugindo da polícia, que estavam sob investigação." A pequena cidade de Sihanoukville, no litoral sul do Camboja Getty Images É justamente essa transferência que, segundo a Exodus Road, demonstra a possível pulverização das redes para outros países. "Eles vieram para Madagascar porque no Camboja já estava sendo investigado muito isso e estavam sendo perseguidos. Então eles tentaram mudar realmente de lugar para ver se seguiriam funcionando." 3. O que aconteceu quando eles chegaram a Madagascar? Militares de Madagascar em frente ao palácio presidencial após anunciarem que estão tomando o poder, em 14 de outubro de 2025. Luis Tato/AFP Inicialmente, o grupo ficou em um hotel. Depois, foi levado para um complexo onde começou a trabalhar. Foi nesse momento que o brasileiro afirma ter descoberto que a atividade era uma central de golpes. "Quando chegou lá, eu entendi o que era. Eles me deram um script, um roteiro, falaram para eu estudar esse roteiro. E eu vi que era uma central de golpes, através de ligações." Segundo ele, os trabalhadores precisavam passar de 10 a 12 horas por dia fazendo ligações para tentar obter dinheiro das vítimas. Também havia metas e punições. O brasileiro afirma que recebia multas, precisava copiar à mão os roteiros utilizados nos golpes e tinha a circulação controlada. O complexo, segundo o relato, contava com policiais malgaxes armados. Os brasileiros só poderiam sair com autorização e supervisão. Os celulares também eram recolhidos durante o expediente. 4. Por que as redes teriam mudado de país? Segundo Cintia Meirelles, o aumento da pressão policial sobre os complexos de golpes no Sudeste Asiático fez com que as organizações procurassem outros locais para continuar funcionando. O contexto citado por ela inclui o conflito entre Tailândia e Camboja em 2025, causado por uma antiga disputa pela demarcação da fronteira entre os dois países. A existência de uma nova rota consolidada, porém, ainda não aparece nos dados oficiais apresentados pelo Ministério da Justiça. Os registros de 2025 mostram o Camboja como principal destino entre os casos identificados, mas o próprio governo alerta que os números não permitem concluir se o tráfico aumentou ou diminuiu, devido à subnotificação e ao caráter clandestino do crime. 5. O que é tráfico de pessoas? Segundo o Ministério da Justiça, tráfico de pessoas ocorre quando alguém é recrutado, transportado, transferido, alojado ou acolhido mediante ameaça, violência, coação, fraude ou abuso, com a finalidade de exploração. O crime pode acontecer dentro do Brasil ou envolver o deslocamento para outros países. Entre as formas de exploração previstas no Código Penal estão a exploração sexual, o trabalho em condições análogas à escravidão, a servidão, a remoção de órgãos, tecidos ou partes do corpo e a adoção ilegal. "Esse crime assume diferentes formas e se adapta às transformações sociais e tecnológicas. Por isso, não existe um perfil único de vítima. A prevenção depende de compreender essas dinâmicas, verificar as informações recebidas e desconfiar de propostas que omitam detalhes sobre o trabalho, a remuneração ou o destino", explicou Marina Bernardes, coordenadora-geral de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e Contrabando de Migrantes, em nota divulgada em julho deste ano. 6. Como uma falsa vaga de emprego pode virar tráfico humano? O aliciamento pode começar com uma proposta aparentemente legítima. Segundo o Ministério da Justiça, ele frequentemente ocorre por meio de pessoas conhecidas, agências informais ou contatos feitos em ambientes digitais. As ofertas podem incluir salários altos, passagens, hospedagem e promessas de regularização migratória. Depois da chegada ao destino, a situação pode mudar. Documentos podem ser retidos, dívidas podem ser impostas, e a pessoa pode passar a sofrer ameaças, vigilância, jornadas excessivas ou restrições de deslocamento. Uma das dinâmicas identificadas pelo governo envolve justamente brasileiros recrutados para trabalhar em "scam centres". "Esses casos mostram que o tráfico de pessoas não está restrito às formas de exploração mais conhecidas. Uma falsa vaga na área de tecnologia ou atendimento ao público, por exemplo, pode ser usada para levar a vítima a outro país e submetê-la a trabalho forçado em atividades criminosas", afirma Marina. 7. O que aconteceu com os 23 brasileiros? A prisão dos 23 brasileiros ocorreu em 19 de agosto, segundo documento enviado pelo grupo ao Itamaraty. O paulistano afirma que os policiais chegaram ao local onde estavam os brasileiros e os levaram presos. Ele diz ter ficado quatro dias detido, inicialmente em uma cela pequena, escura e sem banheiro. "A gente ficou totalmente no escuro, dormindo no chão. E era isso. A gente não tinha água. A gente não tinha alimentação." O brasileiro afirma ainda que policiais apontaram armas contra ele. "Dois policiais, um com uma pistola e outro com um AK-47, apontando na minha cabeça, me empurrando, me batendo. Após isso, eles me amarraram." Depois, segundo o relato, parte do grupo foi liberada e colocada em uma van. Os brasileiros decidiram fugir em direção ao aeroporto. O paulistano afirma que foi perseguido e novamente ameaçado com armas. "Eu fui cercado por vários policiais e só parei porque eles engatilharam a arma para mim." 8. Por que ele diz que 'estavam vendendo a gente'? Segundo o brasileiro, durante a prisão os policiais diziam que estavam negociando com o governo brasileiro para que o grupo fosse enviado de volta ao país. Posteriormente, segundo o relato, os brasileiros descobriram que a negociação seria, na verdade, com a organização criminosa. "Eles estavam vendendo a gente. A gente ia voltar para a máfia. A máfia está levando a gente de volta." Cintia afirma que brasileiros que entraram em contato com a ONG disseram que a polícia de Madagascar teria vendido o grupo de volta para a organização criminosa por US$ 250 mil. Segundo ela, os brasileiros teriam relatado que agora estariam "valendo" US$ 400 mil. A informação sobre os valores é um relato apresentado à ONG pelas vítimas. Segundo Cintia, o FBI também participa da investigação do caso. 9. Por que ainda é difícil saber o tamanho dessa nova rota? O tráfico de pessoas é um crime clandestino e marcado pela subnotificação. Por isso, os dados oficiais representam apenas os casos que chegaram ao conhecimento das instituições públicas. O Ministério da Justiça afirma que os números de 2025 não permitem concluir se houve aumento ou redução do tráfico internacional. Eles servem como indicativos das características e tendências identificadas. Brasileiros vítimas de tráfico humano são resgatados e famílias comemoram Jovens escravizados em Mianmar eram obrigados a dar golpes em brasileiros Isso significa que a identificação de novos destinos pode ocorrer antes de existir uma quantidade suficiente de registros oficiais para dimensionar a mudança. No caso de Madagascar, a principal evidência apresentada sobre a possível mudança de rota vem dos relatos das vítimas acompanhadas pela Exodus Road. 10. O que o Itamaraty recomenda? O Ministério das Relações Exteriores mantém alerta para brasileiros sobre o risco de tráfico humano no Sudeste Asiático. Segundo o alerta, jovens, em sua maioria com conhecimentos em informática, são recrutados por meio de redes sociais com falsas promessas de emprego em "call centers" ou supostas empresas de tecnologia em países como Camboja, Tailândia, Myanmar e Laos. As vítimas podem ser obrigadas a participar de golpes com jogos de azar, criptomoedas e relacionamentos amorosos fictícios usados para extorsão. Também podem ser coagidas a recrutar novas vítimas. O Itamaraty recomenda não aceitar ofertas de trabalho no Sudeste Asiático que prometam ganhos elevados, contratação rápida ou intermediação informal. 11. Como evitar cair em uma falsa vaga? O Ministério da Justiça orienta que, antes de aceitar uma oferta de emprego, estudo ou outra oportunidade, a pessoa confirme a identidade de quem apresenta a proposta e verifique a existência da empresa ou instituição. Também é recomendável pedir um contrato com informações claras sobre remuneração, atividades, jornada, alojamento e condições de retorno. Promessas excessivamente vantajosas, informações imprecisas e pedidos para entregar documentos pessoais são sinais de alerta. Quem pretende viajar deve compartilhar com familiares o roteiro, o endereço de hospedagem e os contatos dos responsáveis pela oportunidade. No exterior, também é importante conhecer os canais da embaixada ou do consulado brasileiro mais próximo. "Compartilhar o planejamento da viagem, manter os próprios documentos e conhecer os canais oficiais de atendimento são medidas simples que podem evitar situações de exploração", afirma Marina Bernardes. 12. Como denunciar? Suspeitas de tráfico de pessoas podem ser denunciadas pelo Disque 100, serviço gratuito que funciona diariamente, inclusive aos fins de semana e feriados. Situações que envolvam violência contra mulheres também podem ser comunicadas pelo Ligue 180. As informações também podem ser encaminhadas à Polícia Federal, presencialmente ou pelo canal on-line Comunica PF. Não é necessário ter certeza de que se trata de tráfico de pessoas para comunicar uma situação suspeita. A denúncia pode ser feita de forma anônima. Brasileiros em madagascar tráfico uberaba Reprodução/The Exodus Road Brazil