Fenômeno 'terras caídas' avança no interior do AM e moradores se unem para deslocar casas Com a cheia dos rios no Amazonas, a força da água volta a provocar um fenômeno temido por quem vive às margens: as chamadas “terras caídas”. O desmoronamento de barrancos leva pedaços inteiros das encostas, muda o curso das margens e coloca em risco casas e plantações. Na zona rural do município de Careiro da Várzea, ribeirinhos convivem com o problema todos os anos. Mesmo diante do perigo, muitos não cogitam deixar o local onde construíram suas vidas. Em vez disso, adaptam-se: mudam as casas de lugar. 📲 Participe do canal do g1 AM no WhatsApp Na comunidade da praia da Justina, o avanço do Rio Amazonas já apagou parte da história de famílias inteiras. O agricultor José Guedes conta que, desde 1954, quando seus parentes chegaram à região, cerca de 500 metros do terreno foram levados pela água. “É difícil. Só pra quem tem coragem. Se for perto de igarapé, é arriscado. Na cheia, a correnteza leva a casa”, relatou. Segundo a geóloga Iris Celeste Nascimento Bandeira, o fenômeno é inevitável em muitos trechos do rio. “O Rio Amazonas é o maior do mundo em termos de vazão e velocidade. Ele é altamente potente. Pode ter a vegetação que for, ele vai destruir”, explicou. Fenômeno 'terras caídas' avança no interior do AM e moradores se unem para deslocar casas. Rede Amazônica Casas de madeira e soluções improvisadas Na comunidade, praticamente todas as casas são de madeira — o que permite que sejam desmontadas ou até arrastadas inteiras para locais mais seguros. Diante do avanço do rio, os moradores adotam duas estratégias: desmontar e reconstruir as moradias longe da margem ou deslocá-las completas, com a ajuda de trilhos improvisados. O carpinteiro e pescador Janderson França Guedes, um dos filhos de José, escolheu a segunda opção. Ele passou semanas preparando a estrutura para mover a própria casa. “A gente fixa os tocos e alinha as madeiras. Geralmente, são cerca de 100 metros de trilho, que levam uma semana pra fazer e a gente puxa em um dia”, contou. Ele aprendeu a técnica na prática. “A melhor escola que tem é a vida. A primeira casa que eu movi foi a minha, em 2021. De lá pra cá, sigo fazendo isso”, disse. Trabalho coletivo e tensão Desde 2022, esta é a terceira vez que a casa da família é deslocada. Desta vez, a ideia é levá-la cerca de 200 metros para dentro do terreno, longe do alcance do rio. O processo precisa ser feito em etapas, por falta de madeira suficiente. No dia da mudança, a dona de casa Maria do Carmo Rodrigues, matriarca da família, não escondia a apreensão. “Dormi mais ou menos. A gente fica nervosa, com medo de não dar certo”, disse, emocionada. A dúvida era se haveria ajuda suficiente. Mas, aos poucos, vizinhos começaram a chegar. “Aqui é uma comunidade unida. Ninguém trabalha por dinheiro, é por amizade”, afirmou o pescador Sebastião Duarte Guedes. União para vencer a força da natureza Com quase 30 pessoas, os moradores iniciaram o deslocamento da casa. Para facilitar o movimento, usaram sabão e óleo queimado nos trilhos de madeira. O terreno irregular, com areia, desníveis e áreas alagadas, dificultou o trabalho. Ainda assim, mulheres e crianças permaneceram dentro da casa durante o trajeto. “É uma sensação estranha. Parece que a gente está caindo, mas tem que manter a cabeça no lugar”, contou a cabeleireira Maria Luzia. O deslocamento durou cerca de três horas, com pausas, esforço coletivo e até momentos de descontração, com música e refeições compartilhadas entre os participantes. Para os moradores, a experiência reforça o espírito comunitário. “Aqui todo mundo se ajuda. A união faz a força”, resumiu o pescador Raimundo José Nunes Guimarães. Fenômeno 'terras caídas' avança no interior do AM e moradores se unem para deslocar casas. Rede Amazônica
Fenômeno 'terras caídas' avança no interior do AM e moradores se unem para deslocar casas
Guia Modelo Escrito em 22/03/2026
Fenômeno 'terras caídas' avança no interior do AM e moradores se unem para deslocar casas Com a cheia dos rios no Amazonas, a força da água volta a provocar um fenômeno temido por quem vive às margens: as chamadas “terras caídas”. O desmoronamento de barrancos leva pedaços inteiros das encostas, muda o curso das margens e coloca em risco casas e plantações. Na zona rural do município de Careiro da Várzea, ribeirinhos convivem com o problema todos os anos. Mesmo diante do perigo, muitos não cogitam deixar o local onde construíram suas vidas. Em vez disso, adaptam-se: mudam as casas de lugar. 📲 Participe do canal do g1 AM no WhatsApp Na comunidade da praia da Justina, o avanço do Rio Amazonas já apagou parte da história de famílias inteiras. O agricultor José Guedes conta que, desde 1954, quando seus parentes chegaram à região, cerca de 500 metros do terreno foram levados pela água. “É difícil. Só pra quem tem coragem. Se for perto de igarapé, é arriscado. Na cheia, a correnteza leva a casa”, relatou. Segundo a geóloga Iris Celeste Nascimento Bandeira, o fenômeno é inevitável em muitos trechos do rio. “O Rio Amazonas é o maior do mundo em termos de vazão e velocidade. Ele é altamente potente. Pode ter a vegetação que for, ele vai destruir”, explicou. Fenômeno 'terras caídas' avança no interior do AM e moradores se unem para deslocar casas. Rede Amazônica Casas de madeira e soluções improvisadas Na comunidade, praticamente todas as casas são de madeira — o que permite que sejam desmontadas ou até arrastadas inteiras para locais mais seguros. Diante do avanço do rio, os moradores adotam duas estratégias: desmontar e reconstruir as moradias longe da margem ou deslocá-las completas, com a ajuda de trilhos improvisados. O carpinteiro e pescador Janderson França Guedes, um dos filhos de José, escolheu a segunda opção. Ele passou semanas preparando a estrutura para mover a própria casa. “A gente fixa os tocos e alinha as madeiras. Geralmente, são cerca de 100 metros de trilho, que levam uma semana pra fazer e a gente puxa em um dia”, contou. Ele aprendeu a técnica na prática. “A melhor escola que tem é a vida. A primeira casa que eu movi foi a minha, em 2021. De lá pra cá, sigo fazendo isso”, disse. Trabalho coletivo e tensão Desde 2022, esta é a terceira vez que a casa da família é deslocada. Desta vez, a ideia é levá-la cerca de 200 metros para dentro do terreno, longe do alcance do rio. O processo precisa ser feito em etapas, por falta de madeira suficiente. No dia da mudança, a dona de casa Maria do Carmo Rodrigues, matriarca da família, não escondia a apreensão. “Dormi mais ou menos. A gente fica nervosa, com medo de não dar certo”, disse, emocionada. A dúvida era se haveria ajuda suficiente. Mas, aos poucos, vizinhos começaram a chegar. “Aqui é uma comunidade unida. Ninguém trabalha por dinheiro, é por amizade”, afirmou o pescador Sebastião Duarte Guedes. União para vencer a força da natureza Com quase 30 pessoas, os moradores iniciaram o deslocamento da casa. Para facilitar o movimento, usaram sabão e óleo queimado nos trilhos de madeira. O terreno irregular, com areia, desníveis e áreas alagadas, dificultou o trabalho. Ainda assim, mulheres e crianças permaneceram dentro da casa durante o trajeto. “É uma sensação estranha. Parece que a gente está caindo, mas tem que manter a cabeça no lugar”, contou a cabeleireira Maria Luzia. O deslocamento durou cerca de três horas, com pausas, esforço coletivo e até momentos de descontração, com música e refeições compartilhadas entre os participantes. Para os moradores, a experiência reforça o espírito comunitário. “Aqui todo mundo se ajuda. A união faz a força”, resumiu o pescador Raimundo José Nunes Guimarães. Fenômeno 'terras caídas' avança no interior do AM e moradores se unem para deslocar casas. Rede Amazônica

