Os candidatos à presidência de Honduras Nasry Asfura, Rixi Moncada e Salvador Nasralla. Leonel Estrada e Fredy Rodriguez/ Reuters Três opções, todas ainda incertas, cercam o futuro político de Honduras. O país latino-americano irá às urnas neste domingo (30) em meio a uma situação de triplo empate entre candidatos da direita e da esquerda, segundo as principais pesquisas de intenção de voto. E em um pleito marcado por acusações mútuas de corrupção, pelas principais questões que também permeiam a América Latina atualmente: o narcotráfico e a influência de Donald Trump. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp As eleições presidenciais deste domingo ocorrem em turno único — ou seja, o resultado deste domingo já determinará quem substituirá a atual presidente, Xiomara Castro, que em 2021 levou a esquerda de volta ao poder hondurenho após 12 anos de governos conservadores. 👉 Na briga, três candidatos aparecem em empate técnico: Rixi Moncada, candidata da situação: Moncada é sucessora do projeto esquerdista de Castro e de seu marido, o ex-presidente Manuel Zeleaya, deposto em 2009 por um golpe militar. Já foi professora, advogada, juíza e ministra da Economia, da Defesa e do Trabalho. Mas foi acusada de corrupção quando dirigiu a empresa estatal de eletricidade durante o governo de Zelaya e de nepotismo — vários parentes seus ocupam cargos públicos. Nasry Asfura, o filho de palestinos e "candidato" de Donald Trump: conservador, Asfura concorre pela segunda vez à presidência e recebeu apoio formal do presidente dos EUA, Donald Trump, na semana passada. É o candidato do Partido Nacional, sigla manchada pela condenação do ex-presidente Juan Orlando Hernández. Já foi prefeito de Tegucigalpa e também foi acusado de desvio de fundos e apareceu na lista do "Pandora Papers" de empresas offshore que sonegavam impostos. Salvador Nasralla, estrela de TV e fã de Milei e Bukele: Narrador de futebol, apresentador de concursos de beleza e estrela da televisão local, Nasralla concorre pela quarta vez à presidência, desta vez como candidato do Partido Liberal. Admira o presidente da Argentina, Javier Milei, pela gestão da economia, e o de El Salvador, Nayib Bukele, por sua política de segurança. E diz que copiará ambos. Propostas Os candidatos têm evitado apresentar propostas específicas durante a campanha e preferiram se concentrar em acusar seus rivais de corrupção ou manipulação eleitoral. Moncada fala em “democratizar” a economia com medidas como uma estrutura tributária mais progressiva e acesso facilitado a crédito acessível. Nasralla tem focado seu discurso de campanha no combate à corrupção. O ex-apresentador de televisão ainda se apresenta como um outsider, apesar de ter se aliado a diversos partidos ao longo dos anos. Ele também alertou sobre a possibilidade de fraude eleitoral antes da votação de domingo. Já Asfura se apresenta como um construtor pragmático capaz de atender às necessidades de infraestrutura de Honduras. ➡️ Uma pesquisa do Instituto Gallup apontou que Nasralla tem 27% das intenções de voto, Moncada, 26%, e Asfura 24% das intenções de voto. Outros 18% eleitores ainda estavam indecisos, ainda de acordo com o levantamento. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Temores de fraude e anulação A diretora do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) de Honduras fala à imprensa após o CNE detectar falha em sistema de contagem de votos, em novembro de 2025. Leonel Estrada/ Reuters Para além das propostas, no entanto, o que vem preocupando mais os eleitores é o temor de que o pleito seja anulado. Na semana passada, autoridades eleitorais relataram ter encontrado irregularidades durante um teste no sistema de resultados preliminares, que costuma sair poucas horas após o fechamento das urnas. Rixi Moncada ameaçou então não reconhecer o resultado, caso o erro persistisse, levantando preocupação de observadores internacionais com a legitimidade das eleições hondurenhas. A missão de observação eleitoral da Organização dos Estados Americanos (OEA) em Honduras afirmou, no início deste mês, que “também observou ações e declarações, praticamente diárias, que geram incerteza e desestabilizam o processo eleitoral”. “Todos falaram sobre fraude”, disse à agência de notícias Associated Press María Méndez Dardón, diretora para a América Central do Escritório de Washington para Assuntos Latino-Americanos (WOLA), uma organização não governamental focada em direitos humanos. “Eles criam ainda mais incerteza no ambiente quando vemos uma classe política que resiste a se submeter à vontade popular, mas também ao trabalho das instituições eleitorais". Forças Armadas Militares participam de cerimônia de início de distribuição das urnas eletrônicas para as eleições presidenciais em Honduras, em Tegucigalpa, em novembro de 2025. Leonel Estrada/ Reuters Eleitores também vêm manifestando preocupação com uma interferência das Forças Armadas no processo eleitoral. Executores do golpe de Estado de direita que derrubou Manuel Zelaya há 16 anos, os militares solicitaram no mês passado ao Conselho Nacional Eleitoral (CNE) acesso às atas eleitorais para verificar a contagem de votos. Pela Constituição hondurenha, as Forças Armadas estão limitadas à função de guardar o material das eleições durante processos eleitorais. Apesar de rejeitada pelo CNE, a solicitação gerou temores de uma intromissão dos militares a favor do Partido Libre caso surjam alegações de fraude no domingo. Para a diretora do WOLA, a preocupação maior é com o fato de, recentemente, os militares terem se aproximado da atual presidente, Xiomara Castro -- mesmo que já tenham tentado derrubar o marido de Castro. Isso porque a atual presidente, que assumiu com a promessa de reverter a tendência de governos hondurenhos de dependerem das Forças Armadas para garantir a segurança no país, acabou convocando os militares em 2022, ao declarar estado de emergência para lidar com a violência de gangues na capital Tegucigalpa. Xiomara Castro também cancelou alguns direitos constitucionais por conta do estado de emergência. Desde então, a maioria dos municípios de Honduras ainda opera sobre o decreto de emergência, e as Forças Armadas voltaram a desempenhar um papel central na segurança do país. "É preocupante porque atualmente os militares respondem à presidente, e essa extrapolação de funções pode colocar as eleições em um cenário muito adverso", disse Méndez Dardón. Na terça-feira, em uma reunião da Organização dos Estados Americanos, o vice-secretário de Estado, Christopher Landau, pediu que se exija em Honduras um processo eleitoral "livre de fraude e violência". Washington advertiu que, caso haja perturbações ao processo eleitoral, responderá "com firmeza". Taxa de homicídios mais alta da América Central No ano passado, Honduras registrou sua menor taxa de homicídios em 30 anos. Ainda assim, a taxa segue sendo a mais alta de toda a América Central, e, por isso, acabou se tornando um dos pilares da campanha deste ano. A corrida eleitoral também foi "contaminada" pela atual operação militar que o governo de Donald Trump conduz no mar do Caribe, perto da costa da Venezuela, e que gerou temores de uma invasão ao território venezuelano. Nesse ponto, Nasralla foi a voz dominante e repetiu o polêmico discurso de que também quer construir megaprisões como a vizinha El Salvador. Mas foi para Asfura que Trump declarou apoio. Na sexta-feira (28), o presidente norte-americano inclusive disse que, se Asfura não ganhar, "o dinheiro não vai entrar (em Honduras). O fator Trump A influência atual de Donald Trump na América Latina também respingou no pleito hondurenho. Só em 2025, os Estados Unidos deportaram 27.000 migrantes de Honduras e revogaram o Status de Proteção Temporária (TPS, na sigla em inglês) de 51.000 hondurenhos. Cada candidato fez, segundo sua ideologia, algum aceno a Trump. Moncada diz que respeitará o tratado de extradição com Washington, questionado por Castro. Nasralla prometeu romper com a Venezuela e, assim como Asfura, promover um diálogo melhor com o governo americano. Todos expressaram disposição de se aproximar de Taiwan, depois que Xiomara Castro restabeleceu relações com a China, em 2023.
Com turno único e sob influência Trump, Honduras tem eleição que pode consolidar esquerda ou recolocar direita no poder
Guia Modelo Escrito em 30/11/2025
Os candidatos à presidência de Honduras Nasry Asfura, Rixi Moncada e Salvador Nasralla. Leonel Estrada e Fredy Rodriguez/ Reuters Três opções, todas ainda incertas, cercam o futuro político de Honduras. O país latino-americano irá às urnas neste domingo (30) em meio a uma situação de triplo empate entre candidatos da direita e da esquerda, segundo as principais pesquisas de intenção de voto. E em um pleito marcado por acusações mútuas de corrupção, pelas principais questões que também permeiam a América Latina atualmente: o narcotráfico e a influência de Donald Trump. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp As eleições presidenciais deste domingo ocorrem em turno único — ou seja, o resultado deste domingo já determinará quem substituirá a atual presidente, Xiomara Castro, que em 2021 levou a esquerda de volta ao poder hondurenho após 12 anos de governos conservadores. 👉 Na briga, três candidatos aparecem em empate técnico: Rixi Moncada, candidata da situação: Moncada é sucessora do projeto esquerdista de Castro e de seu marido, o ex-presidente Manuel Zeleaya, deposto em 2009 por um golpe militar. Já foi professora, advogada, juíza e ministra da Economia, da Defesa e do Trabalho. Mas foi acusada de corrupção quando dirigiu a empresa estatal de eletricidade durante o governo de Zelaya e de nepotismo — vários parentes seus ocupam cargos públicos. Nasry Asfura, o filho de palestinos e "candidato" de Donald Trump: conservador, Asfura concorre pela segunda vez à presidência e recebeu apoio formal do presidente dos EUA, Donald Trump, na semana passada. É o candidato do Partido Nacional, sigla manchada pela condenação do ex-presidente Juan Orlando Hernández. Já foi prefeito de Tegucigalpa e também foi acusado de desvio de fundos e apareceu na lista do "Pandora Papers" de empresas offshore que sonegavam impostos. Salvador Nasralla, estrela de TV e fã de Milei e Bukele: Narrador de futebol, apresentador de concursos de beleza e estrela da televisão local, Nasralla concorre pela quarta vez à presidência, desta vez como candidato do Partido Liberal. Admira o presidente da Argentina, Javier Milei, pela gestão da economia, e o de El Salvador, Nayib Bukele, por sua política de segurança. E diz que copiará ambos. Propostas Os candidatos têm evitado apresentar propostas específicas durante a campanha e preferiram se concentrar em acusar seus rivais de corrupção ou manipulação eleitoral. Moncada fala em “democratizar” a economia com medidas como uma estrutura tributária mais progressiva e acesso facilitado a crédito acessível. Nasralla tem focado seu discurso de campanha no combate à corrupção. O ex-apresentador de televisão ainda se apresenta como um outsider, apesar de ter se aliado a diversos partidos ao longo dos anos. Ele também alertou sobre a possibilidade de fraude eleitoral antes da votação de domingo. Já Asfura se apresenta como um construtor pragmático capaz de atender às necessidades de infraestrutura de Honduras. ➡️ Uma pesquisa do Instituto Gallup apontou que Nasralla tem 27% das intenções de voto, Moncada, 26%, e Asfura 24% das intenções de voto. Outros 18% eleitores ainda estavam indecisos, ainda de acordo com o levantamento. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Temores de fraude e anulação A diretora do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) de Honduras fala à imprensa após o CNE detectar falha em sistema de contagem de votos, em novembro de 2025. Leonel Estrada/ Reuters Para além das propostas, no entanto, o que vem preocupando mais os eleitores é o temor de que o pleito seja anulado. Na semana passada, autoridades eleitorais relataram ter encontrado irregularidades durante um teste no sistema de resultados preliminares, que costuma sair poucas horas após o fechamento das urnas. Rixi Moncada ameaçou então não reconhecer o resultado, caso o erro persistisse, levantando preocupação de observadores internacionais com a legitimidade das eleições hondurenhas. A missão de observação eleitoral da Organização dos Estados Americanos (OEA) em Honduras afirmou, no início deste mês, que “também observou ações e declarações, praticamente diárias, que geram incerteza e desestabilizam o processo eleitoral”. “Todos falaram sobre fraude”, disse à agência de notícias Associated Press María Méndez Dardón, diretora para a América Central do Escritório de Washington para Assuntos Latino-Americanos (WOLA), uma organização não governamental focada em direitos humanos. “Eles criam ainda mais incerteza no ambiente quando vemos uma classe política que resiste a se submeter à vontade popular, mas também ao trabalho das instituições eleitorais". Forças Armadas Militares participam de cerimônia de início de distribuição das urnas eletrônicas para as eleições presidenciais em Honduras, em Tegucigalpa, em novembro de 2025. Leonel Estrada/ Reuters Eleitores também vêm manifestando preocupação com uma interferência das Forças Armadas no processo eleitoral. Executores do golpe de Estado de direita que derrubou Manuel Zelaya há 16 anos, os militares solicitaram no mês passado ao Conselho Nacional Eleitoral (CNE) acesso às atas eleitorais para verificar a contagem de votos. Pela Constituição hondurenha, as Forças Armadas estão limitadas à função de guardar o material das eleições durante processos eleitorais. Apesar de rejeitada pelo CNE, a solicitação gerou temores de uma intromissão dos militares a favor do Partido Libre caso surjam alegações de fraude no domingo. Para a diretora do WOLA, a preocupação maior é com o fato de, recentemente, os militares terem se aproximado da atual presidente, Xiomara Castro -- mesmo que já tenham tentado derrubar o marido de Castro. Isso porque a atual presidente, que assumiu com a promessa de reverter a tendência de governos hondurenhos de dependerem das Forças Armadas para garantir a segurança no país, acabou convocando os militares em 2022, ao declarar estado de emergência para lidar com a violência de gangues na capital Tegucigalpa. Xiomara Castro também cancelou alguns direitos constitucionais por conta do estado de emergência. Desde então, a maioria dos municípios de Honduras ainda opera sobre o decreto de emergência, e as Forças Armadas voltaram a desempenhar um papel central na segurança do país. "É preocupante porque atualmente os militares respondem à presidente, e essa extrapolação de funções pode colocar as eleições em um cenário muito adverso", disse Méndez Dardón. Na terça-feira, em uma reunião da Organização dos Estados Americanos, o vice-secretário de Estado, Christopher Landau, pediu que se exija em Honduras um processo eleitoral "livre de fraude e violência". Washington advertiu que, caso haja perturbações ao processo eleitoral, responderá "com firmeza". Taxa de homicídios mais alta da América Central No ano passado, Honduras registrou sua menor taxa de homicídios em 30 anos. Ainda assim, a taxa segue sendo a mais alta de toda a América Central, e, por isso, acabou se tornando um dos pilares da campanha deste ano. A corrida eleitoral também foi "contaminada" pela atual operação militar que o governo de Donald Trump conduz no mar do Caribe, perto da costa da Venezuela, e que gerou temores de uma invasão ao território venezuelano. Nesse ponto, Nasralla foi a voz dominante e repetiu o polêmico discurso de que também quer construir megaprisões como a vizinha El Salvador. Mas foi para Asfura que Trump declarou apoio. Na sexta-feira (28), o presidente norte-americano inclusive disse que, se Asfura não ganhar, "o dinheiro não vai entrar (em Honduras). O fator Trump A influência atual de Donald Trump na América Latina também respingou no pleito hondurenho. Só em 2025, os Estados Unidos deportaram 27.000 migrantes de Honduras e revogaram o Status de Proteção Temporária (TPS, na sigla em inglês) de 51.000 hondurenhos. Cada candidato fez, segundo sua ideologia, algum aceno a Trump. Moncada diz que respeitará o tratado de extradição com Washington, questionado por Castro. Nasralla prometeu romper com a Venezuela e, assim como Asfura, promover um diálogo melhor com o governo americano. Todos expressaram disposição de se aproximar de Taiwan, depois que Xiomara Castro restabeleceu relações com a China, em 2023.

