Irã acusa 'mercenários dos EUA e de Israel' de participar de protestos contra o governo Khamenei

Guia Modelo Escrito em 09/01/2026


Protestos no Irã já são considerados os maiores dos últimos anos contra o regime do país O governo do Irã acusou nesta sexta-feira (9) os Estados Unidos e Israel de colocar mercenários nas manifestações generalizadas que tomaram as ruas do país nas últimas semanas. "Na noite passada, mercenários dos EUA e de Israel incendiaram o santuário sagrado de Hazrat Sabzghaba (irmão do imã Reza, que a paz esteja com ele). Também atearam fogo a vários bancos e mesquitas, causando grandes danos a bens públicos na cidade de Dezful", afirmou a agência de notícias Tasnim, ligada ao governo iraniano e ao Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC, na sigla em inglês). ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp Os protestos eclodiram no final de dezembro em Teerã e foram motivados por uma crise econômica —a moeda do país, o rial, perdeu metade de seu valor frente ao dólar no ano passado e a inflação ultrapassou os 40% em dezembro— no entanto, com o passar dos dias e com a repressão policial, os manifestantes passaram a exigir a renúncia do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. (Leia mais abaixo) Um comunicado do Ministério da Inteligência iraniano divulgado pela Tasnim pede ajuda ao público para identificar e denunciar "vândalos e terroristas mercenários dos Estados Unidos e do regime sionista que, na noite passada, realizaram diversos disparos com o objetivo de provocar mortes". A repressão imposta pelo regime Khamenei no país dificulta a verificação independente das acusações feitas nesta sexta. Nem o governo dos EUA nem o de Israel se pronunciaram de forma oficial sobre a denúncia do Irã até a última atualização desta reportagem. Khamenei disse nesta sexta-feira (9) que seu governo "não vai recuar" diante dos protestos generalizados, que escalaram em proporção e violência nos últimos dias. Em pronunciamento transmitido pela TV estatal, o líder supremo iraniano chamou os manifestantes de “vândalos” e “sabotadores”. “Na noite passada, em Teerã, um grupo de vândalos e arruaceiros veio e destruiu um prédio que pertencia ao Estado, ao próprio povo, apenas para agradar o presidente dos Estados Unidos”, disse Khamenei. Ele acusou os manifestantes “estarem destruindo as próprias ruas para agradar o presidente de outro país”, em referência a Trump. O líder iraniano disse para o líder norte-americano “cuidar do seu próprio país”. Ao longo dos dias, as manifestações se tornaram as maiores demonstrações contra o governo iraniano desde 2009 e protestos já foram registrados em 25 das 31 províncias iranianas, segundo uma contagem da agência de notícias AFP. Até o momento, os protestos já deixaram mais de 40 mortos, incluindo membros das forças de segurança, segundo contagens de organizações de direitos humanos atuando no Irã. O número real de vítimas pode ser ainda maior porque há limitações na quantidade de informações que sai do país. Aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã. Gabinete do líder supremo do Irã/Wana via Reuters Os protestos também geraram uma nova escalada nas já comprometidas tensões entre os EUA e o Irã. Trump disse que não tolerará mortes de manifestantes pelo regime Khamenei e disse que "atingirá muito duramente" o país caso isso aconteça. Nesta sexta, o líder iraniano chamou o presidente dos EUA de "arrogante" e disse que suas mãos “estão manchadas com o sangue de mais de mil iranianos”, em referência aos bombardeios feitos contra instalações nucleares em 2025. Na quinta-feira, os protestos ganharam uma nova proporção após Khamenei ter ordenado um apagão da internet e da rede telefônica para tentar conter os manifestantes (leia mais abaixo). A quarta-feira foi considerada o "dia mais sangrento" dos protestos até o momento, em que foram registradas as mortes de 13 manifestantes. Protestos no Irã Manifestantes marcharam no centro de Teerã, Irã, contra a situação econômica do país Fars via AP O Irã intensificou a repressão contra manifestantes contrários ao regime nesta quinta-feira (8), no momento em que a onda de protestos chega ao 12º dia no país. Também nesta quinta, o presidente dos EUA, Donald Trump, mencionou a situação do país asiático. "Deixei claro para eles que, se começarem a matar pessoas — o que tendem a fazer durante seus distúrbios, eles têm muitos distúrbios —, se fizerem isso, nós os atingiremos muito duramente", disse o presidente dos Estados Unidos durante uma entrevista ao apresentador de rádio conservador Hugh Hewitt. Os protestos no Irã eclodiram em 28 de dezembro, quando comerciantes de Teerã organizaram uma manifestação contra o aumento dos preços no país e o colapso da moeda local, o rial, o que desencadeou uma onda de ações semelhantes em outras cidades. Outras pautas foram incluídas por outros manifestantes. Desde então, os atos se espalharam por 25 das 31 províncias iranianas, segundo uma contagem da AFP, e deixaram dezenas de mortos, incluindo membros das forças de segurança. Imagens publicadas na rede social X mostram grandes manifestações nas ruas (veja abaixo). Initial plugin text De acordo com vídeos cuja autenticidade foi verificada pela AFP, os manifestantes entoavam slogans como "é a batalha final, Pahlavi voltará", em alusão à dinastia derrubada pela Revolução Islâmica de 1979, ou "Seyyed Ali será destituído", em referência ao líder supremo Ali Khamenei, no poder desde 1989. O Irã está "atualmente sujeito a um corte de internet em escala nacional", afirmou a ONG de vigilância de segurança cibernética Netblocks, com base em dados em tempo real. O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, voltou a pedir nesta quinta-feira "a máxima moderação" frente aos manifestantes, bem como o "diálogo" e a escuta às "reivindicações do povo". Quarta-feira sangrenta Ainda não se sabe o número de mortos nos protestos. Segundo a ONG Iran Human Rights (IHR), com sede na Noruega, pelo menos 45 manifestantes, incluindo oito menores, morreram nos atos. A quarta-feira (7) foi o dia mais sangrento, com 13 mortos, de acordo com esta organização, que também indicou que "centenas" de pessoas ficaram feridas e que mais de 2 mil foram detidas. As manifestações são as maiores no Irã desde as que ocorreram após a morte da jovem Mahsa Amini, em 2022 presa por violar as rígidas normas de vestuário para mulheres.