Donald Trump olha para Claudia Sheinbaum durante um discurso da presidente mexicana no sorteio da Copa do Mundo de 2026 Getty Images via BBC O dia 2 de abril do ano passado recebeu do presidente americano o nome de "Dia da Libertação". Naquela data, Donald Trump anunciou na Casa Branca as novas tarifas de importação que os Estados Unidos passariam a cobrar de cada país que exportasse produtos para o seu território. A lista publicada por Trump incluía dezenas de nações, mas ficaram de fora dois parceiros comerciais importantes dos Estados Unidos: o México e o Canadá. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça A Casa Branca anunciou posteriormente tarifas para alguns produtos canadenses e mexicanos, como o aço, alumínio e peças automotivas não fabricadas nos Estados Unidos. Mas os dois vizinhos pareciam ter evitado o pior. Veja os vídeos que estão em alta no g1 A medida foi fundamental para que as empresas e investidores internacionais continuassem apostando no México como país competitivo para exportar para os Estados Unidos, além da sua localização geográfica e sua indústria desenvolvida ao longo dos anos. Desde o anúncio de Donald Trump em abril, os números indicam que o México não apenas manteve seu ritmo de exportações para os Estados Unidos, como verificou um aumento de quase 6%. Com isso, o país passou a ser um dos "ganhadores inesperados" da política tarifária americana, como descreveu, há algumas semanas, o jornal The Wall Street Journal. A lista de países divulgada por Donald Trump em 2 de abril de 2025 não incluía o México e o Canadá AFP via BBC Especialistas indicam que o mercado mundial está se reconfigurando para se adaptar às contínuas alterações da política tarifária de Trump. "Uma das maiores isenções às tarifas do 'Dia da Libertação' do presidente americano foi para os produtos que atendem às exigências do T-MEC", o Tratado de Livre Comércio entre o México, os Estados Unidos e o Canadá, afirmou à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) Erica York, analista do Centro de Política Federal de Impostos do centro de estudos Tax Foundation. "Observamos que as transações realizadas no âmbito do T-MEC dispararam em 2025, devido a essa isenção", segundo York. O especialista mexicano em política econômica e finanças internacionais Mario Campa, da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, concorda que o T-MEC foi fundamental para os bons números do comércio na América do Norte. "Quando você, como comprador nos Estados Unidos, seja consumidor ou empresa, começa a observar que as tarifas estão subindo por todos os lados, irá se dirigir ao país que conseguiu a menor alíquota", explica Campa. Crescem as exportações mexicanas para os EUA Os produtos mexicanos acabaram sendo os menos afetados pelas tarifas de Trump. O Modelo de Orçamento Penn Wharton (PWBM) é uma avaliação da competitividade comercial elaborada pela Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Ele indica que os produtos mexicanos pagaram uma tarifa de importação efetiva de 4,6%, em outubro de 2025. 🔎 Esta tarifa é explicada por uma combinação de fatores, que incluem os benefícios do T-MEC e as intensas negociações para obter condições mais favoráveis para os produtos mexicanos. O Canadá, com tarifa de importação de 3,9%, é outro país com ampla vantagem em relação aos demais parceiros comerciais dos EUA. Ainda assim, o volume de exportações canadenses para os Estados Unidos foi menor que o mexicano no ano passado, caindo em 6,19% em relação a 2024, segundo números do Departamento de Comércio americano. Já o México registrou um crescimento geral da ordem de 5,66% em suas exportações para os Estados Unidos. Os números oficiais mexicanos, atualizados até novembro de 2025, também indicam seis meses de crescimento contínuo, após o anúncio de Trump no início de abril. Diferentemente do verificado com estes dois países, a classificação PWBM da Universidade da Pensilvânia indica que a tarifa de importação efetiva para os produtos chineses atingiu 37,1% no ano passado. O gigante asiático era o maior exportador para os Estados Unidos até 2003, quando foi superado pelo México. E, com o retorno de Trump à Casa Branca, em 2025, a situação piorou para os produtos chineses destinados ao mercado americano. Para o restante do mundo, a tarifa efetiva média de importação foi de 10,91% em outubro, segundo o PWBM, contra 2,2% registrados em janeiro de 2025, antes do início do segundo mandato de Donald Trump. Quem paga o custo das tarifas mais altas são os importadores americanos e, em muitos casos, os consumidores do país. Embora as exportações mexicanas para os Estados Unidos tenham aumentado no ano passado, o setor automotivo não se saiu tão bem, com um aumento de apenas 0,9% em 2025, muito menor que o esperado. Este resultado foi atingido mesmo após intensas negociações, que fizeram com que as tarifas afetassem apenas os componentes automotivos "não fabricados nos Estados Unidos", ou seja, os que estão fora do T-MEC. Outros setores importantes, como aço e alumínio, foram objeto de tarifas de 25% e registraram queda das exportações para os Estados Unidos. A proteção do T-MEC O T-MEC foi assinado em 2017, durante o primeiro mandato de Donald Trump. No caso do México, apenas uma parte das suas exportações para os Estados Unidos ocorria no âmbito do tratado. Alguns fabricantes preferiam se manter à margem do acordo para evitar os trâmites e a burocracia. Quase a metade dos exportadores preferia pagar as tarifas, que costumavam ser baixas, a atender todas as normas do T-MEC. Mas, quando Trump anunciou o aumento das tarifas de importação em abril, tudo mudou. Erica York destaca que uma das maiores isenções do "Dia da Libertação" foi concedida para os produtos que atendem às exigências do T-MEC. Esta medida fez com que muitos exportadores que preferiam pagar as tarifas para evitar os trâmites burocráticos mudassem sua estratégia comercial. Com o novo cenário, ficou mais conveniente exportar com base nas condições do T-MEC. Em 2024, cerca de 38% das importações americanas procedentes do Canadá e 49% das procedentes do México foram realizadas no âmbito do acordo, segundo York. Nos últimos meses, estes percentuais aumentaram para 86% a 87% dos produtos, segundo a analista. Por isso, exportar do México segundo o T-MEC foi fundamental para que os produtores pudessem evitar as tarifas no primeiro ano do novo governo Donald Trump. Outro ponto fundamental, segundo Campa, é que, em 2025, os exportadores de outras regiões do mundo continuaram vendendo para os Estados Unidos produtos não perecíveis, como eletrônicos, cuja exportação já estava contratada antes da aplicação das novas tarifas. Mas, à medida que o estoque foi se esgotando, os fabricantes que já produziam no México começaram a conquistar essa parcela de mercado. "Quando esses fluxos de compras antecipadas começaram a se normalizar, pelo término dos estoques, começaram a se destacar os produtos fabricados no México, que provavelmente está se tornando um parceiro comercial [americano] mais importante do que a China ou o Canadá", explica Campa "Ou seja, o México está se consolidando no primeiro lugar entre as importações americanas", segundo Mario Campa. Para York, falar do México como "ganhador" em meio às tarifas de Trump talvez seja uma fotografia momentânea, que pode se confirmar no futuro. Durante a guerra comercial com a China, no primeiro mandato de Trump (2017-2021), a analista recorda que houve "um padrão similar de ganhadores e perdedores", à medida que o comércio se afastava da China e se deslocava para outros países. Naquela época, surgiu um impulso para a relocação de empresas (nearshoring), que mudaram suas fábricas para países com vantagens competitivas, como o México. Dali, elas passaram a exportar para os Estados Unidos sem conflitos de tarifas, com proximidade geográfica e mão de obra qualificada para seus negócios. "As tarifas de importação deste mandato de Trump são muito mais amplas e erráticas", analisa York, "mas podemos esperar o surgimento de desvios comerciais e os consequentes padrões de ganhadores e perdedores sob o novo regime tarifário." "Considerando a vantagem relativa do México nos diferentes tipos tarifários, especialmente a isenção para os produtos que atendem às exigências do T-MEC, teria sentido observar este padrão de desvio comercial." Tempo de renegociação: a prova de fogo Com seu estilo imprevisível, Trump declarou, no dia 13 de janeiro, que, para ele, o T-MEC parece "irrelevante". Esta declaração gerou novas expectativas sobre uma possível recusa à continuidade do tratado de livre comércio, que tem renegociação marcada para este ano. "Nem mesmo penso no T-MEC. Quero o bem do Canadá e do México. Mas o problema é que não precisamos dos seus produtos", disse Trump, em visita a uma fábrica de automóveis da Ford no Estado americano de Michigan. "Não precisamos de carros fabricados no Canadá. Não precisamos de carros fabricados no México. Queremos fabricá-los aqui." "E é isso o que está acontecendo, todos estão se mudando para cá, do Canadá, México, Japão, Alemanha, de todo o mundo", afirmou ele. No dia seguinte, veio a reação da presidente do México, Claudia Sheinbaum. Ela declarou estar "certa de que nossa relação comercial com os Estados Unidos irá continuar". "Os que mais defendem o tratado são os empresários americanos; e, é claro, também o México. Por quê?", questiona ela. "Porque existe uma integração muito grande. Eles têm muitíssimas indústrias, não só de carros, mas de muitíssimos produtos." Já o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, visitou a China. Ele assinou novos acordos comerciais com o presidente chinês, Xi Jinping, após anos de deterioração das relações entre os dois países, durante o governo do ex-primeiro-ministro Justin Trudeau (2015-2025). "Imaginávamos que este bloco comercial [o T-MEC] iria se proteger da China, das importações da Ásia, que iria blindar a indústria automotora norte-americana", segundo Campa. "Imaginava-se que eles fossem atuar mais como um ente coordenado. Mas o acordo entre o Canadá e a China rompe um pouco esta narrativa." "Definitivamente, não é um bom sinal para a sobrevivência do T-MEC, embora eu insista que isso pode mudar. Faltam muitos meses, faltam negociações", destaca o economista. Para Campa, podem ocorrer diversos cenários durante as negociações do T-MEC este ano. Eles podem variar do mais favorável até uma catástrofe para o México. Uma possibilidade é a renovação do acordo atual como está, ou até com alguma proteção para as exportações dos Estados Unidos para os outros dois países. Outra é que não haja nenhum tipo de acordo e o bloco se desintegre. "E poderia ocorrer algum cenário intermediário", explica ele. "Mas não sabemos como isso irá evoluir em termos de conteúdo regional, nem quais setores seriam premiados ou prejudicados." Em meio a essas incertezas, as negociações entre o Canadá e a China são um "mau sinal", alerta o economista. "Parece uma espécie de cobertura ou antecipação de Carney" frente à renegociação do T-MEC, defende Campa. 🔎 O Canadá estaria em posição de negociar com outros mercados importantes, por possuir mais matérias-primas para comercializar do que o México. Mas Campa alerta que, caso sobrevenha o pior cenário, o México precisaria continuar desenvolvendo planos alternativos para diversificar seu comércio sem depender tanto dos Estados Unidos, como o "Plano México" anunciado pela presidente Sheinbaum, no início de 2025. "O México precisaria começar a considerar mais seriamente esse plano B ou C que foi comentado anteriormente. Sem necessariamente mantê-lo guardado, mas sim dando a ele mais visibilidade, como está fazendo o Canadá." "É uma aposta ousada e o México não é o Canadá, mas se trata de um caminho que, sem dúvida, precisa ser explorado", conclui Mario Campa.
Por que México foi maior beneficiado pelas tarifas de Trump (e o teste decisivo que tem pela frente)
Guia Modelo Escrito em 25/01/2026
Donald Trump olha para Claudia Sheinbaum durante um discurso da presidente mexicana no sorteio da Copa do Mundo de 2026 Getty Images via BBC O dia 2 de abril do ano passado recebeu do presidente americano o nome de "Dia da Libertação". Naquela data, Donald Trump anunciou na Casa Branca as novas tarifas de importação que os Estados Unidos passariam a cobrar de cada país que exportasse produtos para o seu território. A lista publicada por Trump incluía dezenas de nações, mas ficaram de fora dois parceiros comerciais importantes dos Estados Unidos: o México e o Canadá. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça A Casa Branca anunciou posteriormente tarifas para alguns produtos canadenses e mexicanos, como o aço, alumínio e peças automotivas não fabricadas nos Estados Unidos. Mas os dois vizinhos pareciam ter evitado o pior. Veja os vídeos que estão em alta no g1 A medida foi fundamental para que as empresas e investidores internacionais continuassem apostando no México como país competitivo para exportar para os Estados Unidos, além da sua localização geográfica e sua indústria desenvolvida ao longo dos anos. Desde o anúncio de Donald Trump em abril, os números indicam que o México não apenas manteve seu ritmo de exportações para os Estados Unidos, como verificou um aumento de quase 6%. Com isso, o país passou a ser um dos "ganhadores inesperados" da política tarifária americana, como descreveu, há algumas semanas, o jornal The Wall Street Journal. A lista de países divulgada por Donald Trump em 2 de abril de 2025 não incluía o México e o Canadá AFP via BBC Especialistas indicam que o mercado mundial está se reconfigurando para se adaptar às contínuas alterações da política tarifária de Trump. "Uma das maiores isenções às tarifas do 'Dia da Libertação' do presidente americano foi para os produtos que atendem às exigências do T-MEC", o Tratado de Livre Comércio entre o México, os Estados Unidos e o Canadá, afirmou à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) Erica York, analista do Centro de Política Federal de Impostos do centro de estudos Tax Foundation. "Observamos que as transações realizadas no âmbito do T-MEC dispararam em 2025, devido a essa isenção", segundo York. O especialista mexicano em política econômica e finanças internacionais Mario Campa, da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, concorda que o T-MEC foi fundamental para os bons números do comércio na América do Norte. "Quando você, como comprador nos Estados Unidos, seja consumidor ou empresa, começa a observar que as tarifas estão subindo por todos os lados, irá se dirigir ao país que conseguiu a menor alíquota", explica Campa. Crescem as exportações mexicanas para os EUA Os produtos mexicanos acabaram sendo os menos afetados pelas tarifas de Trump. O Modelo de Orçamento Penn Wharton (PWBM) é uma avaliação da competitividade comercial elaborada pela Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Ele indica que os produtos mexicanos pagaram uma tarifa de importação efetiva de 4,6%, em outubro de 2025. 🔎 Esta tarifa é explicada por uma combinação de fatores, que incluem os benefícios do T-MEC e as intensas negociações para obter condições mais favoráveis para os produtos mexicanos. O Canadá, com tarifa de importação de 3,9%, é outro país com ampla vantagem em relação aos demais parceiros comerciais dos EUA. Ainda assim, o volume de exportações canadenses para os Estados Unidos foi menor que o mexicano no ano passado, caindo em 6,19% em relação a 2024, segundo números do Departamento de Comércio americano. Já o México registrou um crescimento geral da ordem de 5,66% em suas exportações para os Estados Unidos. Os números oficiais mexicanos, atualizados até novembro de 2025, também indicam seis meses de crescimento contínuo, após o anúncio de Trump no início de abril. Diferentemente do verificado com estes dois países, a classificação PWBM da Universidade da Pensilvânia indica que a tarifa de importação efetiva para os produtos chineses atingiu 37,1% no ano passado. O gigante asiático era o maior exportador para os Estados Unidos até 2003, quando foi superado pelo México. E, com o retorno de Trump à Casa Branca, em 2025, a situação piorou para os produtos chineses destinados ao mercado americano. Para o restante do mundo, a tarifa efetiva média de importação foi de 10,91% em outubro, segundo o PWBM, contra 2,2% registrados em janeiro de 2025, antes do início do segundo mandato de Donald Trump. Quem paga o custo das tarifas mais altas são os importadores americanos e, em muitos casos, os consumidores do país. Embora as exportações mexicanas para os Estados Unidos tenham aumentado no ano passado, o setor automotivo não se saiu tão bem, com um aumento de apenas 0,9% em 2025, muito menor que o esperado. Este resultado foi atingido mesmo após intensas negociações, que fizeram com que as tarifas afetassem apenas os componentes automotivos "não fabricados nos Estados Unidos", ou seja, os que estão fora do T-MEC. Outros setores importantes, como aço e alumínio, foram objeto de tarifas de 25% e registraram queda das exportações para os Estados Unidos. A proteção do T-MEC O T-MEC foi assinado em 2017, durante o primeiro mandato de Donald Trump. No caso do México, apenas uma parte das suas exportações para os Estados Unidos ocorria no âmbito do tratado. Alguns fabricantes preferiam se manter à margem do acordo para evitar os trâmites e a burocracia. Quase a metade dos exportadores preferia pagar as tarifas, que costumavam ser baixas, a atender todas as normas do T-MEC. Mas, quando Trump anunciou o aumento das tarifas de importação em abril, tudo mudou. Erica York destaca que uma das maiores isenções do "Dia da Libertação" foi concedida para os produtos que atendem às exigências do T-MEC. Esta medida fez com que muitos exportadores que preferiam pagar as tarifas para evitar os trâmites burocráticos mudassem sua estratégia comercial. Com o novo cenário, ficou mais conveniente exportar com base nas condições do T-MEC. Em 2024, cerca de 38% das importações americanas procedentes do Canadá e 49% das procedentes do México foram realizadas no âmbito do acordo, segundo York. Nos últimos meses, estes percentuais aumentaram para 86% a 87% dos produtos, segundo a analista. Por isso, exportar do México segundo o T-MEC foi fundamental para que os produtores pudessem evitar as tarifas no primeiro ano do novo governo Donald Trump. Outro ponto fundamental, segundo Campa, é que, em 2025, os exportadores de outras regiões do mundo continuaram vendendo para os Estados Unidos produtos não perecíveis, como eletrônicos, cuja exportação já estava contratada antes da aplicação das novas tarifas. Mas, à medida que o estoque foi se esgotando, os fabricantes que já produziam no México começaram a conquistar essa parcela de mercado. "Quando esses fluxos de compras antecipadas começaram a se normalizar, pelo término dos estoques, começaram a se destacar os produtos fabricados no México, que provavelmente está se tornando um parceiro comercial [americano] mais importante do que a China ou o Canadá", explica Campa "Ou seja, o México está se consolidando no primeiro lugar entre as importações americanas", segundo Mario Campa. Para York, falar do México como "ganhador" em meio às tarifas de Trump talvez seja uma fotografia momentânea, que pode se confirmar no futuro. Durante a guerra comercial com a China, no primeiro mandato de Trump (2017-2021), a analista recorda que houve "um padrão similar de ganhadores e perdedores", à medida que o comércio se afastava da China e se deslocava para outros países. Naquela época, surgiu um impulso para a relocação de empresas (nearshoring), que mudaram suas fábricas para países com vantagens competitivas, como o México. Dali, elas passaram a exportar para os Estados Unidos sem conflitos de tarifas, com proximidade geográfica e mão de obra qualificada para seus negócios. "As tarifas de importação deste mandato de Trump são muito mais amplas e erráticas", analisa York, "mas podemos esperar o surgimento de desvios comerciais e os consequentes padrões de ganhadores e perdedores sob o novo regime tarifário." "Considerando a vantagem relativa do México nos diferentes tipos tarifários, especialmente a isenção para os produtos que atendem às exigências do T-MEC, teria sentido observar este padrão de desvio comercial." Tempo de renegociação: a prova de fogo Com seu estilo imprevisível, Trump declarou, no dia 13 de janeiro, que, para ele, o T-MEC parece "irrelevante". Esta declaração gerou novas expectativas sobre uma possível recusa à continuidade do tratado de livre comércio, que tem renegociação marcada para este ano. "Nem mesmo penso no T-MEC. Quero o bem do Canadá e do México. Mas o problema é que não precisamos dos seus produtos", disse Trump, em visita a uma fábrica de automóveis da Ford no Estado americano de Michigan. "Não precisamos de carros fabricados no Canadá. Não precisamos de carros fabricados no México. Queremos fabricá-los aqui." "E é isso o que está acontecendo, todos estão se mudando para cá, do Canadá, México, Japão, Alemanha, de todo o mundo", afirmou ele. No dia seguinte, veio a reação da presidente do México, Claudia Sheinbaum. Ela declarou estar "certa de que nossa relação comercial com os Estados Unidos irá continuar". "Os que mais defendem o tratado são os empresários americanos; e, é claro, também o México. Por quê?", questiona ela. "Porque existe uma integração muito grande. Eles têm muitíssimas indústrias, não só de carros, mas de muitíssimos produtos." Já o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, visitou a China. Ele assinou novos acordos comerciais com o presidente chinês, Xi Jinping, após anos de deterioração das relações entre os dois países, durante o governo do ex-primeiro-ministro Justin Trudeau (2015-2025). "Imaginávamos que este bloco comercial [o T-MEC] iria se proteger da China, das importações da Ásia, que iria blindar a indústria automotora norte-americana", segundo Campa. "Imaginava-se que eles fossem atuar mais como um ente coordenado. Mas o acordo entre o Canadá e a China rompe um pouco esta narrativa." "Definitivamente, não é um bom sinal para a sobrevivência do T-MEC, embora eu insista que isso pode mudar. Faltam muitos meses, faltam negociações", destaca o economista. Para Campa, podem ocorrer diversos cenários durante as negociações do T-MEC este ano. Eles podem variar do mais favorável até uma catástrofe para o México. Uma possibilidade é a renovação do acordo atual como está, ou até com alguma proteção para as exportações dos Estados Unidos para os outros dois países. Outra é que não haja nenhum tipo de acordo e o bloco se desintegre. "E poderia ocorrer algum cenário intermediário", explica ele. "Mas não sabemos como isso irá evoluir em termos de conteúdo regional, nem quais setores seriam premiados ou prejudicados." Em meio a essas incertezas, as negociações entre o Canadá e a China são um "mau sinal", alerta o economista. "Parece uma espécie de cobertura ou antecipação de Carney" frente à renegociação do T-MEC, defende Campa. 🔎 O Canadá estaria em posição de negociar com outros mercados importantes, por possuir mais matérias-primas para comercializar do que o México. Mas Campa alerta que, caso sobrevenha o pior cenário, o México precisaria continuar desenvolvendo planos alternativos para diversificar seu comércio sem depender tanto dos Estados Unidos, como o "Plano México" anunciado pela presidente Sheinbaum, no início de 2025. "O México precisaria começar a considerar mais seriamente esse plano B ou C que foi comentado anteriormente. Sem necessariamente mantê-lo guardado, mas sim dando a ele mais visibilidade, como está fazendo o Canadá." "É uma aposta ousada e o México não é o Canadá, mas se trata de um caminho que, sem dúvida, precisa ser explorado", conclui Mario Campa.

