O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (centro), nomeou o ex-primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair (esquerda), e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio (direita), como membros do conselho executivo do Conselho da Paz BBC O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reunirá nesta quinta-feira (19), em Washington, o seu Conselho da Paz para a primeira reunião oficial desde a criação do órgão no mês passado. Ainda não está claro quantos membros estarão presentes no encontro. Até agora, cerca de 20 países concordaram em se juntar à iniciativa de Trump. A reunião acontecerá no US Institute of Peace (Instituto da Paz dos EUA, na tradução livre em português), que foi rebatizado como "Donald J. Trump Institute of Peace" em dezembro, após o governo republicano assumir o controle da instituição e demitir grande parte do seu conselho e da equipe no início de 2025. Quem faz parte do Conselho da Paz A iniciativa foi inicialmente proposta no fim de setembro de 2025, como parte do plano de paz de 20 pontos proposto por Trump para encerrar a guerra de dois anos entre Israel e Hamas e supervisionar a reconstrução de Gaza. Posteriormente, a ideia foi endossada por uma resolução do Conselho de Segurança da ONU. No entanto, a carta constitutiva do órgão não menciona explicitamente Gaza nem os territórios palestinos, o que levantou temores de que possa ter um escopo mais amplo e assumir funções tradicionalmente desempenhadas pela Organização das Nações Unidas. Trump lança 'Conselho de Paz' no Fórum Econômico Mundial, em Davos A iniciativa foi lançada formalmente quatro meses depois, em 22 de janeiro, à margem do Fórum Econômico Mundial, em Davos. Na estrutura atual, Trump atua como presidente do conselho vitalício, o que lhe confere ampla autoridade de decisão. O presidente dos EUA tem apresentado o conselho como uma nova organização internacional voltada para a resolução de conflitos. "O Conselho da Paz provará ser o órgão internacional mais importante da história, e é uma honra para mim servir como seu presidente", disse Trump em uma postagem em sua plataforma de mídia social Truth Social no domingo (15). Quem já concordou em integrar o Conselho da Paz? Dos 60 países convidados pela Casa Branca, mais de 20 aceitaram participar do Conselho da Paz, incluindo Israel, Catar, Arábia Saudita, Turquia e Egito. Nenhum dos principais aliados europeus dos Estados Unidos — entre eles o Reino Unido e a França — aderiu à iniciativa, e vários manifestaram preocupação de que ela possa ofuscar a Organização das Nações Unidas. O Brasil também foi convidado, mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) condicionou sua participação à inclusão de representantes palestinos. "Eu disse ao presidente Trump que se o Conselho for para cuidar de Gaza, o Brasil tem todo o interesse de participar. Agora, é muito estranho que você tenha um Conselho e você não tenha um palestino na direção desse Conselho (...) O Brasil tem todo o interesse de participar, mas é preciso que os palestinos estejam na mesa, senão não é uma comissão de paz", disse Lula em entrevista ao UOL em 05 de fevereiro. Em janeiro, Lula havia criticado a proposta. Durante um evento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Salvador, o presidente brasileiro afirmou que Trump queria "ser dono da ONU". "Estamos vivendo um momento muito crítico na política mundial. O multilateralismo está sendo jogado fora pelo unilateralismo. Está prevalecendo a lei do mais forte. A carta da ONU está sendo rasgada", declarou. "O presidente Trump está fazendo uma proposta de criar uma nova ONU e que ele sozinho é o dono da ONU", completou. O governo brasileiro não se manifestou oficialmente sobre o assunto até o momento. Outros países que foram convidados ainda não responderam o convite. Donald Trump afirmou que os membros permanentes deverão pagar uma taxa de adesão de US$ 1 bilhão, destinada à reconstrução de Gaza. Em outra publicação na Truth Social no domingo, o presidente dos EUA disse que os países membros já prometeram US$ 5 bilhões para a reconstrução do território devastado pela guerra, além de se comprometer em enviar milhares de efetivos a uma força internacional de estabilização e policiamento para Gaza. Ele não especificou quais países prometeram esse financiamento ou o envio de tropas. O Exército da Indonésia afirmou no domingo que cerca de 8 mil soldados devem estar prontos até junho para uma possível destacamento em Gaza, como parte de uma missão humanitária e de paz — o primeiro compromisso significativo de tropas garantido até o momento. Segundo um documento oficial da União Europeia distribuído aos Estados-membros e citado pela agência de notícias Reuters, a comissária europeia para o Mediterrâneo, Dubravka Suica, "participará como observadora" da reunião do Conselho de Paz. O memorando acrescenta ainda que a missão policial da UE "contribuirá para a Força Internacional de Estabilização (ISF, na sigla em inglês) treinando e equipando a polícia civil palestina e das instituições de justiça criminal", informou a Reuters. Como funcionará o Conselho da Paz? Quem integra o Conselho Executivo da Paz? BBC Além do Conselho de Paz, foram anunciados dois conselhos executivos subordinados: o Founding Executive Board (Conselho Executivo Fundador, em tradução livre), com foco de alto nível em investimentos e diplomacia; o Gaza Executive Board (Conselho Executivo de Gaza, em tradução livre), responsável por supervisionar todo o trabalho em campo do Comitê Nacional para a Administração de Gaza, um grupo de tecnocratas encarregado da governança temporária e da reconstrução do território. A Casa Branca afirmou que os integrantes desses conselhos atuarão para garantir "governança eficaz e a prestação de serviços de excelência que promovam a paz, estabilidade e prosperidade para o povo de Gaza". Segundo a Casa Branca, Trump presidirá o "Conselho Executivo Fundador" de sete membros, que conduzirá Gaza à sua próxima fase de reconstrução. Outros integrantes incluem: o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio; o enviado especial dos EUA para o Oriente Médio, Steve Witkoff; Jared Kushner, genro de Trump; o ex-primeiro ministro do Reino Unido, Tony Blair. A inclusão de Blair é considerada controversa porque, em 2003, ele levou o Reino Unido à Guerra do Iraque com base em alegações de que o governo iraquiano possuía armas de destruição em massa, afirmações que mais tarde se mostraram falsas. Cada integrante terá um portfólio próprio, considerado "crítico para a estabilização de Gaza", segundo a Casa Branca. Não há representantes palestinos em nenhum dos dois órgãos. Quem integra o Conselho Executivo de Gaza? BBC O Conselho da Paz pode 'consertar' Gaza? A reconstrução de Gaza deve levar anos e pode custar mais de US$ 70 bilhões, segundo uma avaliação de danos realizada no ano passado pela Organização das Nações Unidas, pela União Europeia e pelo Banco Mundial. Cerca de 80% dos edifícios em Gaza foram destruídos ou danificados, gerando 61 milhões de toneladas de escombros, segundo estimativas da ONU. Famílias deslocadas também enfrentam baixas temperaturas do inverno, abrigo limitado e escassez de alimentos. O cessar-fogo mediado pelos EUA em 10 de outubro visava interromper mais de dois anos de combates entre Israel e o Hamas. Embora os confrontos mais intensos tenham diminuído, relatos indicam que as forças israelenses continuaram realizando ataques aéreos e dispararam contra palestinos perto de zonas sob controle militar. Na cerimônia de assinatura do Conselho da Paz realizada no mês passado em Davos, na Suíça, Jared Kushner — empresário do setor imobiliário e genro do presidente Donald Trump, que ajudou a negociar um cessar-fogo entre Israel e o Hamas — apresentou um "plano diretor" para Gaza que inclui arranha-céus, novas cidades e uma zona turística costeira. Ele disse que a construção poderia levar de dois a três anos e exigirá um investimento de pelo menos US$ 25 bilhões, sendo a ajuda humanitária a prioridade imediata. A ONU estima que cerca 80% dos prédios em Gaza foram destruídos ou danificados REUTERS Trump reiterou que o Hamas precisa se desarmar — uma condição central do acordo mediado pelos Estados Unidos. "Muito importante. O Hamas deve cumprir seu compromisso de desmilitarização total e imediata", escreveu na Truth Social. O Hamas afirmou que só aceitaria se desarmar como parte de um acordo mais amplo que estabeleça um Estado palestino. Já Israel, cujas tropas terrestres controlam grande parte de Gaza, disse que só vai se retirar se o Hamas se desarmar. Por que o Conselho da Paz de Trump é tão polêmico? A iniciativa tem recebido críticas significativas, que vão desde preocupações com sua legitimidade até a representatividade dentro do órgão. Apesar de Trump promover o conselho como um futuro mediador de conflitos, vários aliados dos EUA alertaram que ele pode enfraquecer a Organização das Nações Unidas e o seu Conselho de Segurança da ONU — responsável pela manutenção da paz internacional e por sanções. O governo Trump já reduziu o financiamento dos EUA para as Nações Unidas. No início do ano, o presidente americano assinou um memorando retirando o país de 31 entidades das Nações Unidas que, segundo ele, estavam "operando contra os interesses nacionais dos EUA". A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, descreveu o Conselho da Paz como um instrumento pessoal de Trump, sem mecanismos de responsabilização perante os palestinos ou a ONU. Em discurso na Conferência de Segurança de Munique, ela afirmou que, embora o Conselho de Segurança tenha aprovado uma resolução apoiando a criação de um Conselho de Paz temporário para Gaza — que incluiria participação palestina e referência explícita ao território — a carta constitutiva do conselho omitiu esses elementos. "Então, acho que existe uma resolução do Conselho de Segurança, mas o Conselho da Paz não a reflete", disse ela. A ausência de palestinos dos conselhos executivos é outro motivo de controvérsia. "Parece que é basicamente um conselho americano, com alguns elementos internacionais", disse o político palestino Mustafa Barghouti à BBC em entrevista recente, acrescentando que os palestinos esperavam "uma representação muito mais ampla". Segundo Barghouti, o fato de o papel do grupo administrativo palestino aprovado durante negociações de paz no Cairo "não estar claro" seria "problemático". Enquanto isso, o Conselho Executivo de Gaza inclui um membro israelense: o bilionário do setor imobiliário Yakir Gabay, atualmente radicado no Chipre. A inclusão de políticos de alto-escalão do Catar e da Turquia — países críticos à atuação de Israel em Gaza — também provocou críticas entre políticos israelenses. Israel, por sua vez, afirmou que a composição dos conselhos executivos "não foi coordenada com Israel e contraria sua política", informou o gabinete do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. O líder da oposição israelense, Yair Lapid, classificou o movimento como um "fracasso diplomático para Israel", enquanto o ministro da Segurança Nacional, da direita radical, Itamar Ben-Gvir, escreveu no X que a Faixa de Gaza não precisava de nenhum "comitê administrativo" mas deveria ser "limpa de terroristas do Hamas". Contribuíram para essa reportagem Paula Adamo Idoeta, Sanne Peck e Andrew Webb, da BBC World Service
Conselho da Paz de Trump se reúne pela 1ª vez: quem são os membros e por que grupo é tão polêmico?
Guia Modelo Escrito em 19/02/2026
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (centro), nomeou o ex-primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair (esquerda), e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio (direita), como membros do conselho executivo do Conselho da Paz BBC O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reunirá nesta quinta-feira (19), em Washington, o seu Conselho da Paz para a primeira reunião oficial desde a criação do órgão no mês passado. Ainda não está claro quantos membros estarão presentes no encontro. Até agora, cerca de 20 países concordaram em se juntar à iniciativa de Trump. A reunião acontecerá no US Institute of Peace (Instituto da Paz dos EUA, na tradução livre em português), que foi rebatizado como "Donald J. Trump Institute of Peace" em dezembro, após o governo republicano assumir o controle da instituição e demitir grande parte do seu conselho e da equipe no início de 2025. Quem faz parte do Conselho da Paz A iniciativa foi inicialmente proposta no fim de setembro de 2025, como parte do plano de paz de 20 pontos proposto por Trump para encerrar a guerra de dois anos entre Israel e Hamas e supervisionar a reconstrução de Gaza. Posteriormente, a ideia foi endossada por uma resolução do Conselho de Segurança da ONU. No entanto, a carta constitutiva do órgão não menciona explicitamente Gaza nem os territórios palestinos, o que levantou temores de que possa ter um escopo mais amplo e assumir funções tradicionalmente desempenhadas pela Organização das Nações Unidas. Trump lança 'Conselho de Paz' no Fórum Econômico Mundial, em Davos A iniciativa foi lançada formalmente quatro meses depois, em 22 de janeiro, à margem do Fórum Econômico Mundial, em Davos. Na estrutura atual, Trump atua como presidente do conselho vitalício, o que lhe confere ampla autoridade de decisão. O presidente dos EUA tem apresentado o conselho como uma nova organização internacional voltada para a resolução de conflitos. "O Conselho da Paz provará ser o órgão internacional mais importante da história, e é uma honra para mim servir como seu presidente", disse Trump em uma postagem em sua plataforma de mídia social Truth Social no domingo (15). Quem já concordou em integrar o Conselho da Paz? Dos 60 países convidados pela Casa Branca, mais de 20 aceitaram participar do Conselho da Paz, incluindo Israel, Catar, Arábia Saudita, Turquia e Egito. Nenhum dos principais aliados europeus dos Estados Unidos — entre eles o Reino Unido e a França — aderiu à iniciativa, e vários manifestaram preocupação de que ela possa ofuscar a Organização das Nações Unidas. O Brasil também foi convidado, mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) condicionou sua participação à inclusão de representantes palestinos. "Eu disse ao presidente Trump que se o Conselho for para cuidar de Gaza, o Brasil tem todo o interesse de participar. Agora, é muito estranho que você tenha um Conselho e você não tenha um palestino na direção desse Conselho (...) O Brasil tem todo o interesse de participar, mas é preciso que os palestinos estejam na mesa, senão não é uma comissão de paz", disse Lula em entrevista ao UOL em 05 de fevereiro. Em janeiro, Lula havia criticado a proposta. Durante um evento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Salvador, o presidente brasileiro afirmou que Trump queria "ser dono da ONU". "Estamos vivendo um momento muito crítico na política mundial. O multilateralismo está sendo jogado fora pelo unilateralismo. Está prevalecendo a lei do mais forte. A carta da ONU está sendo rasgada", declarou. "O presidente Trump está fazendo uma proposta de criar uma nova ONU e que ele sozinho é o dono da ONU", completou. O governo brasileiro não se manifestou oficialmente sobre o assunto até o momento. Outros países que foram convidados ainda não responderam o convite. Donald Trump afirmou que os membros permanentes deverão pagar uma taxa de adesão de US$ 1 bilhão, destinada à reconstrução de Gaza. Em outra publicação na Truth Social no domingo, o presidente dos EUA disse que os países membros já prometeram US$ 5 bilhões para a reconstrução do território devastado pela guerra, além de se comprometer em enviar milhares de efetivos a uma força internacional de estabilização e policiamento para Gaza. Ele não especificou quais países prometeram esse financiamento ou o envio de tropas. O Exército da Indonésia afirmou no domingo que cerca de 8 mil soldados devem estar prontos até junho para uma possível destacamento em Gaza, como parte de uma missão humanitária e de paz — o primeiro compromisso significativo de tropas garantido até o momento. Segundo um documento oficial da União Europeia distribuído aos Estados-membros e citado pela agência de notícias Reuters, a comissária europeia para o Mediterrâneo, Dubravka Suica, "participará como observadora" da reunião do Conselho de Paz. O memorando acrescenta ainda que a missão policial da UE "contribuirá para a Força Internacional de Estabilização (ISF, na sigla em inglês) treinando e equipando a polícia civil palestina e das instituições de justiça criminal", informou a Reuters. Como funcionará o Conselho da Paz? Quem integra o Conselho Executivo da Paz? BBC Além do Conselho de Paz, foram anunciados dois conselhos executivos subordinados: o Founding Executive Board (Conselho Executivo Fundador, em tradução livre), com foco de alto nível em investimentos e diplomacia; o Gaza Executive Board (Conselho Executivo de Gaza, em tradução livre), responsável por supervisionar todo o trabalho em campo do Comitê Nacional para a Administração de Gaza, um grupo de tecnocratas encarregado da governança temporária e da reconstrução do território. A Casa Branca afirmou que os integrantes desses conselhos atuarão para garantir "governança eficaz e a prestação de serviços de excelência que promovam a paz, estabilidade e prosperidade para o povo de Gaza". Segundo a Casa Branca, Trump presidirá o "Conselho Executivo Fundador" de sete membros, que conduzirá Gaza à sua próxima fase de reconstrução. Outros integrantes incluem: o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio; o enviado especial dos EUA para o Oriente Médio, Steve Witkoff; Jared Kushner, genro de Trump; o ex-primeiro ministro do Reino Unido, Tony Blair. A inclusão de Blair é considerada controversa porque, em 2003, ele levou o Reino Unido à Guerra do Iraque com base em alegações de que o governo iraquiano possuía armas de destruição em massa, afirmações que mais tarde se mostraram falsas. Cada integrante terá um portfólio próprio, considerado "crítico para a estabilização de Gaza", segundo a Casa Branca. Não há representantes palestinos em nenhum dos dois órgãos. Quem integra o Conselho Executivo de Gaza? BBC O Conselho da Paz pode 'consertar' Gaza? A reconstrução de Gaza deve levar anos e pode custar mais de US$ 70 bilhões, segundo uma avaliação de danos realizada no ano passado pela Organização das Nações Unidas, pela União Europeia e pelo Banco Mundial. Cerca de 80% dos edifícios em Gaza foram destruídos ou danificados, gerando 61 milhões de toneladas de escombros, segundo estimativas da ONU. Famílias deslocadas também enfrentam baixas temperaturas do inverno, abrigo limitado e escassez de alimentos. O cessar-fogo mediado pelos EUA em 10 de outubro visava interromper mais de dois anos de combates entre Israel e o Hamas. Embora os confrontos mais intensos tenham diminuído, relatos indicam que as forças israelenses continuaram realizando ataques aéreos e dispararam contra palestinos perto de zonas sob controle militar. Na cerimônia de assinatura do Conselho da Paz realizada no mês passado em Davos, na Suíça, Jared Kushner — empresário do setor imobiliário e genro do presidente Donald Trump, que ajudou a negociar um cessar-fogo entre Israel e o Hamas — apresentou um "plano diretor" para Gaza que inclui arranha-céus, novas cidades e uma zona turística costeira. Ele disse que a construção poderia levar de dois a três anos e exigirá um investimento de pelo menos US$ 25 bilhões, sendo a ajuda humanitária a prioridade imediata. A ONU estima que cerca 80% dos prédios em Gaza foram destruídos ou danificados REUTERS Trump reiterou que o Hamas precisa se desarmar — uma condição central do acordo mediado pelos Estados Unidos. "Muito importante. O Hamas deve cumprir seu compromisso de desmilitarização total e imediata", escreveu na Truth Social. O Hamas afirmou que só aceitaria se desarmar como parte de um acordo mais amplo que estabeleça um Estado palestino. Já Israel, cujas tropas terrestres controlam grande parte de Gaza, disse que só vai se retirar se o Hamas se desarmar. Por que o Conselho da Paz de Trump é tão polêmico? A iniciativa tem recebido críticas significativas, que vão desde preocupações com sua legitimidade até a representatividade dentro do órgão. Apesar de Trump promover o conselho como um futuro mediador de conflitos, vários aliados dos EUA alertaram que ele pode enfraquecer a Organização das Nações Unidas e o seu Conselho de Segurança da ONU — responsável pela manutenção da paz internacional e por sanções. O governo Trump já reduziu o financiamento dos EUA para as Nações Unidas. No início do ano, o presidente americano assinou um memorando retirando o país de 31 entidades das Nações Unidas que, segundo ele, estavam "operando contra os interesses nacionais dos EUA". A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, descreveu o Conselho da Paz como um instrumento pessoal de Trump, sem mecanismos de responsabilização perante os palestinos ou a ONU. Em discurso na Conferência de Segurança de Munique, ela afirmou que, embora o Conselho de Segurança tenha aprovado uma resolução apoiando a criação de um Conselho de Paz temporário para Gaza — que incluiria participação palestina e referência explícita ao território — a carta constitutiva do conselho omitiu esses elementos. "Então, acho que existe uma resolução do Conselho de Segurança, mas o Conselho da Paz não a reflete", disse ela. A ausência de palestinos dos conselhos executivos é outro motivo de controvérsia. "Parece que é basicamente um conselho americano, com alguns elementos internacionais", disse o político palestino Mustafa Barghouti à BBC em entrevista recente, acrescentando que os palestinos esperavam "uma representação muito mais ampla". Segundo Barghouti, o fato de o papel do grupo administrativo palestino aprovado durante negociações de paz no Cairo "não estar claro" seria "problemático". Enquanto isso, o Conselho Executivo de Gaza inclui um membro israelense: o bilionário do setor imobiliário Yakir Gabay, atualmente radicado no Chipre. A inclusão de políticos de alto-escalão do Catar e da Turquia — países críticos à atuação de Israel em Gaza — também provocou críticas entre políticos israelenses. Israel, por sua vez, afirmou que a composição dos conselhos executivos "não foi coordenada com Israel e contraria sua política", informou o gabinete do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. O líder da oposição israelense, Yair Lapid, classificou o movimento como um "fracasso diplomático para Israel", enquanto o ministro da Segurança Nacional, da direita radical, Itamar Ben-Gvir, escreveu no X que a Faixa de Gaza não precisava de nenhum "comitê administrativo" mas deveria ser "limpa de terroristas do Hamas". Contribuíram para essa reportagem Paula Adamo Idoeta, Sanne Peck e Andrew Webb, da BBC World Service

