O cantor americano Chris Isaak Divulgação Nem sempre uma entrevista com um artista é um bate-papo entre duas pessoas interessadas, querendo conversar sobre músicas e frivolidades. Mas foi exatamente esse o tom da conversa com Chris Isaak, roqueiro americano conhecido por baladas como o hit sensual "Wicked Game". A canção com clipe dirigido por David Lynch (falecido amigo e coloborador de Isaak) deve aparecer no meio do show do cantor e guitarrista de 70 anos. Ele se apresenta pela primeira vez no Brasil no festival Best of Blues and Rock, em São Paulo, no dia 21 de novembro. Distante de qualquer deslumbramento após 40 anos de carreira, ele detalhou seu gosto por colecionar guitarras baratas e reafirmou seu respeito pelo rock clássico, mesmo que ignorando as raízes negras do gênero: "Antes do Elvis, não havia nada. Depois dele, passou a existir o rock and roll". g1 - Como você compararia o som da sua banda atual com suas bandas clássicas com músicos como o grande baterista Kenny Dale Johnson? O que você pode dizer sobre os caras que tocam com você hoje? Chris Isaak - São excelentes, excelentes músicos. Eu tenho escolho meus músicos andando por Nashville e, não sei o que você sabe sobre Nashville, no Tennessee, mas se você é um músico nos Estados Unidos, você vai para Nashville. É lá que os trabalhadores da música estão. As gravações são todas em Nashville, o trabalho está todo em Nashville... por isso, você tem todos os melhores músicos. E, honestamente, acho que tenho os melhores músicos da cidade. g1 - E como você conheceu os caras? Chris Isaak - Nós temos uma certa camaradagem. Há um tipo específico de pessoa que é músico. São coisas pequenas, como eu notar que nenhum músico é um bom atleta. Nenhum deles. São péssimos com esportes, mas são ótimos em seus instrumentos. g1 - Gostei da teoria. Chris Isaak - E a gente senta em um ônibus e as conversas que temos... se eu gravasse as conversas, soaria como quando você ouve pessoas falando sobre esportes e dizem: "Sim, o Los Angeles jogou em 1940, rebateram tal e tal...". Você senta com uma banda e eles começam a falar: "Ah, sim, naquela gravação de 1963, era o Chuck Webb no teclado e..." Eles sabem de tudo, e se você sentar e ouvir um pouco, você aprende tudo. g1 - Poxa, não sou um bom músico e nem um bom atleta também. Chris Isaak - Eu nunca me considerei um grande atleta nem um grande músico, mas eu gosto dessas coisas. O diretor David Lynch e Chris Isaac, cantor, ator e compositor, nos bastidores do filme 'Twin Peaks: Os Melhores Dias de Laura Palmer', lançado em 1992 Divulgação/CIBY Pictures g1 - Ter músicas em filmes, como você fez com David Lynch, pode mudar uma carreira e trazer um público novo. Como foi essa experiência para você? Chris Isaak - Na época em que comecei a trabalhar com o David Lynch, ele era apenas um nome novo para mim. Alguém disse: "Há um cara chamado David Lynch e ele está te ligando". O estúdio em que eu estava não era grande, era apenas uma salinha nos fundos com algumas máquinas. Sentávamos lá, sem janelas, e fazíamos discos. O David ligou e perguntou: "Eu queria saber se você tem mais músicas como 'Wicked Game' que eu possa usar". Eu respondi: "Por que você não vem até aqui e a gente faz o que você quiser? Deixe-me ouvir as suas ideias". E ele veio, eu tocava guitarra, fazíamos umas faixas e ele falava para mim quando tinha alguma ideia. Foi ótimo porque nos demos bem logo de cara, conseguimos nos comunicar musicalmente de imediato. Ele era um cara muito divertido de trabalhar, muito criativo. É uma pena que ele tenha partido tão cedo. Se não fumasse cinco maços de cigarro por dia, provavelmente ainda estaria aqui. g1 - Falando sobre 'Wicked Game', foi um sucesso que demorou pra acontecer [um 'sleeper hit'], algo que acontece até hoje com algumas músicas. Como foi para você ir entendendo e sentindo que a música estava se tornando um sucesso de forma tão lenta e orgânica? Chris Isaak - Foi um sucesso que demorou a pegar. “Wicked Game” saiu e o disco ficou nas lojas por uns sete ou oito meses antes de realmente decolar. E eu me lembro... nunca me considerei um grande especialista em escolher hits. Se alguém tocar as coisas para mim, posso dizer do que gosto, mas isso não significa que vai tocar no rádio. Mas com “Wicked Game”, minha banda tocava em bares, clubes e boates e era estranho porque as pessoas prestavam atenção de verdade. "Quando você toca em um bar na vida real, muita gente fica conversando, andando por aí, e não estão exatamente focadas no que você está fazendo. Mas quando tocávamos 'Wicked Game', era muito estranho, um tipo de silêncio tomava conta do lugar e as pessoas realmente ouviam." Fui o primeiro a falar com a banda: "Vocês notaram isso?". E eles responderam: "Sim, percebemos". Fui até a gravadora e marquei uma reunião com o chefe. Naquela época, não vendíamos muitos discos. Eu tinha medo de que, se me encontrasse com a gravadora, eles lembrariam que eu estava no catálogo e me demitiriam. Então, nunca queria ser visto. Mas marquei a reunião e disse: "Queremos dinheiro para fazer um clipe para 'Wicked Game'. Achamos que pode ser um sucesso". Eles disseram: "Não, agora já era, o disco já saiu há seis meses". A única forma de fazer o clipe foi porque o David Lynch interveio e disse "Eu vou fazer um clipe", e nos ajudou a fazer por conta própria. g1 - Sei que você muda bastante os setlists, mas claro que 'Wicked Game' está sempre lá. Como você canta todas as noites sem enjoar? Chris Isaak - Eu não só não fico enjoado dela, como também gostaria de ter 15 músicas iguais a ela para cantar todas as noites. É muito divertido de cantar e as pessoas cantarem junto. Ainda gosto da música. Por isso, nunca foi difícil. g1 - Você é um cara de sorte, porque já conversei com cantores que nem sempre gostam de seus maiores sucessos. Chris Isaak - Já ouvi falar de bandas que têm um hit muito diferente do que eles realmente fazem. O sucesso soa como um "frat rock" [rock sessentista mais simples] ou algo do tipo, mas na vida real o som deles é soul mexicano. Sinto pena, porque o público vai ao show esperando uma coisa e eles estão tentando fazer outra. No meu caso, "Wicked Game" é o exemplo perfeito do que eu gosto de fazer: baladas românticas e rock and roll. Chris Isaak no começo da carreira Divulgação/Site oficial do cantor g1 - Entendo perfeitamente. O Adam, do Counting Crows, não gosta de 'Mr. Jones', mas tem que tocar todas as noites [Chris ri]. Bom, existem artistas mais novos, como Joji e Stephen Sanchez, que soam como os cantores da era clássica da Sun Records. Chris Isaac - Não conheço esses dois, pode soletrar? [Ele pega papel e caneta] g1 - Eles fazem sucesso no TikTok com baladas mais lentas, orgânicas, meio anos 60. O que acha dessa nova era da música nostálgica? Por que tem gente se conectando com isso agora? Chris Isaak - Nenhuma música deveria ser descartada. Cresci ouvindo coisas dos anos 20, 30, 40, 50, 60. Ler livros antigos ou ouvir discos velhos ajuda a ter ideias para coisas novas. Você não precisa ouvir um disco dos anos 50 e soar como ele, mas pode tirar ideias que te levam a uma direção diferente. Uma coisa que espero que as pessoas façam é formar bandas, não só ficar criando faixas com vários canais no quarto, pelo computador. Há algo especial em tocar com outras pessoas. É muito divertido. g1 - É mesmo. Tenho medo de que até disso vamos sentir falta com a inteligência artificial. Chris Isaak - Sim. Quando você nos vê tocar ao vivo... você pensa: eles estão em sintonia juntos. E o meu guitarrista é... garanto que ele será o melhor guitarrista do lugar. Ele destrói. g1 - Você recentemente vendeu parte do seu catálogo, e muitos artistas estão vendendo seus direitos hoje em dia. Por que acha que isso está acontecendo tanto? Chris Isaak - As coisas estão incertas, as pessoas não sabem qual é o futuro da música e ficam nervosas. Mas eu nunca vendi as minhas coisas totalmente, quero sempre ter o controle sobre o que eu escrevi. Então mantive o controle. O resto é uma questão de negócios entre empresários, coisas pelas quais tenho um tédio mortal. g1 - Quando você pensa no Brasil e na música brasileira, o que vem à sua mente? Chris Isaak - Eu não sei nada sobre música brasileira. Minhas ideias sobre o Brasil são baseadas em desenhos animados e filmes dos anos 1930. É como quando as pessoas vinham para a Califórnia na época em que eu morava lá: elas usavam chapéus e botas de cowboy, porque achavam que a gente andava a cavalo. Estou ansioso para ver o Brasil, não tenho preconceitos. Quero levar uma mala com duas camisas, uma calça e o resto vazio. Porque aí, na volta, eu posso trazer um monte de discos brasileiros. g1 - Onde você mora hoje? Em Nashville? Chris Isaak - Estou em Nashville hoje, sim. Mas ainda tenho uma casa em San Francisco. g1 - Imagino que você escute vinil... Chris Isaak - Ouço bastante vinil. g1 - Eu sou mais do CD. Chris Isaak - Eu também sou... Hoje de manhã mesmo eu estava pensando que, a certa altura, passei todos os meus CDs para o computador, mas ainda prefiro os discos físicos. g1 - Eu coleciono. Sou jornalista musical, ganhei um monte e acabei me apegando a eles. Sou da época do CD, não do vinil... Chris Isaak - Eu tinha um aparelho para cinco CDs. Era fantástico. Dava para colocar os cinco e ainda selecionar um trecho para tocar em loop por 30 segundos. Se tivesse um riff de guitarra de que você gostasse, era só deixar tocando para praticar. Muito legal. Chris Isaac fez uma participação em 'Friends', em 1996, quando interpretou um músico que tem um romance com Phoebe (Lisa Kudrow) Divulgação g1 - Falando sobre atuar... você também é um ótimo ator, teve uma série de TV própria. Por que não o vemos atuando mais? Chris Isaak - Eu sempre atuei, mas nunca foi algo em que eu passasse meu tempo tentando arrumar papéis. As pessoas me convidavam e eu ficava feliz em participar, mas se me perguntar o que eu faço em casa... minha casa está cheia de guitarras espalhadas. Fiquei acordado até quatro da manhã de ontem tocando e compondo. Estou sentado aqui numa mesa cercado por listas de músicas, letras... esta é minha vida: tentar escrever músicas. g1 - Quem te influenciou mais nisso, Elvis Presley ou Roy Orbinson? Chris Isaak - O Orbinson na parte de composição. Ele levava as músicas para um lugar diferente, um pouco mais orquestrado, sombrio e temperamental. Eu gosto disso. Mas o Elvis é o rei. Fizemos um especial de TV do Elvis com vários artistas famosos e cada um escolheu sua canção favorita. Percebi que havia uns 23 artistas fantásticos ali, e nenhum de nós era melhor do que o Elvis. Ele é o rei. g1 - E para alguém mais novo... como explicar por que Elvis é o rei? Chris Isaak - Antes do Elvis, não havia nada. Depois dele, passou a existir o rock and roll. Antes do Scotty Moore, o guitarrista dele, só existia a guitarra country. Scotty Moore inventou o som do rock moderno. Adoro o Bing Crosby e o Dean Martin, mas o Elvis é intocável. Simplesmente perfeito. Como o Phil Spector disse uma vez: "Você não tem noção do quanto ele é bom". É a verdade. g1 - Agora temos as cinebiografias para apresentar essas lendas para um novo público, como o filme do Baz Luhrmann sobre o Elvis. Chris Isaak - É sempre levar esses artistas até as pessoas, porque assim elas vão pesquisar mais por conta própria. Eu descobri o Elvis em lojas de discos usados e fui atrás de todos os discos dele. A coletânea Sun Sessions é o ponto de partida. O rock and roll começa ali. g1 - Você coleciona itens do Elvis? Chris Isaak - Não sou tão empolgado com sso. Se alguém disser "olha, esses são os sapatos do Elvis", vou achar legal, mas o que sempre quis foi uma boa guitarra para tocar, não uma guitarra que alguém famoso tocou. Chris Isaak em show nos Estados Unidos em 2025 Divulgação/Instagram do cantor g1 - E quantas guitarras você tem? Chris Isaak - Eu diria umas 50, talvez um pouco mais. Mas eu preciso de todas elas. Acho que preciso de mais umas duas, aí vou ficar bem. As guitarras são igual a quem bebe demais e diz que só quer mais um drink. Muita gente que coleciona diz: "Esta é a minha Gibson de 1940 que vale um milhão". Eu pego as guitarras que os outros jogam fora. Minha favorita é uma Welson dos anos 60 da Itália. Comprei direto da traseira de uma van por 50 dólares e usei em discos. Eu gosto de guitarras esquisitas. É bom ter as baratas e as caras. No dia a dia toco uma Gibson, mas acho que cada guitarra tem um som único, é divertido testar algo e as pessoas se perguntarem "que som é esse?". g1 - Você se considera um artista de um sucesso só ('one-hit wonder')? Chris Isaak - Não, me considero sortudo por ter tido “Wicked Game”, “Blue Hotel”, “Baby Did” a “Bad Bad Thing” e “Somebody's Crying”. Tive diferentes sucessos em diferentes lugares do mundo. Isso me permitiu continuar no ramo por 40 anos. g1 - Entendo demais. Obrigado pelo seu tempo, tenha uma ótima viagem ao Brasil. Chris Isaak - Mal posso esperar para ver o Brasil. Não faço ideia do que vou encontrar, mas vai ser ótimo. Posso te perguntar uma coisa? Qual é a comida principal no Brasil? g1 - Americanos gostam muito do churrasco brasileiro, tipo carnes no espeto. Mas o prato tradicional mesmo é a feijoada, feijão preto com sobras de porco. Chris Isaak - Dá para pedir isso em qualquer restaurante? g1 - Sim, em todos os lugares. Chris Isaak - Vou provar os dois. A carne no espeto e a feijoada. g1 - Acho que você não vai se arrepender. Best of Blues and Rock 2026 Data: 20 a 22 de novembro de 2026 Local: Plateia externa do Auditório Ibirapuera, Parque Ibirapuera Endereço: Avenida Pedro Álvares Cabral, s/nº, Ibirapuera, São Paulo — SP Ingressos: entre R$ 406 e 1232 pelo Ticketmaster Sexta-feira — 20 de novembro Eddie Vedder Linka Moja Samuel Rosa Sábado — 21 de novembro Roger Daltrey Chris Isaak Christone “Kingfish” Ingram Artur Menezes Domingo — 22 de novembro Eddie Vedder Linka Moja Vitor Kley
Chris Isaak vem ao Brasil pela 1ª vez e exalta Elvis Presley: 'Antes dele, não havia nada'
Guia Modelo Escrito em 08/10/2026
O cantor americano Chris Isaak Divulgação Nem sempre uma entrevista com um artista é um bate-papo entre duas pessoas interessadas, querendo conversar sobre músicas e frivolidades. Mas foi exatamente esse o tom da conversa com Chris Isaak, roqueiro americano conhecido por baladas como o hit sensual "Wicked Game". A canção com clipe dirigido por David Lynch (falecido amigo e coloborador de Isaak) deve aparecer no meio do show do cantor e guitarrista de 70 anos. Ele se apresenta pela primeira vez no Brasil no festival Best of Blues and Rock, em São Paulo, no dia 21 de novembro. Distante de qualquer deslumbramento após 40 anos de carreira, ele detalhou seu gosto por colecionar guitarras baratas e reafirmou seu respeito pelo rock clássico, mesmo que ignorando as raízes negras do gênero: "Antes do Elvis, não havia nada. Depois dele, passou a existir o rock and roll". g1 - Como você compararia o som da sua banda atual com suas bandas clássicas com músicos como o grande baterista Kenny Dale Johnson? O que você pode dizer sobre os caras que tocam com você hoje? Chris Isaak - São excelentes, excelentes músicos. Eu tenho escolho meus músicos andando por Nashville e, não sei o que você sabe sobre Nashville, no Tennessee, mas se você é um músico nos Estados Unidos, você vai para Nashville. É lá que os trabalhadores da música estão. As gravações são todas em Nashville, o trabalho está todo em Nashville... por isso, você tem todos os melhores músicos. E, honestamente, acho que tenho os melhores músicos da cidade. g1 - E como você conheceu os caras? Chris Isaak - Nós temos uma certa camaradagem. Há um tipo específico de pessoa que é músico. São coisas pequenas, como eu notar que nenhum músico é um bom atleta. Nenhum deles. São péssimos com esportes, mas são ótimos em seus instrumentos. g1 - Gostei da teoria. Chris Isaak - E a gente senta em um ônibus e as conversas que temos... se eu gravasse as conversas, soaria como quando você ouve pessoas falando sobre esportes e dizem: "Sim, o Los Angeles jogou em 1940, rebateram tal e tal...". Você senta com uma banda e eles começam a falar: "Ah, sim, naquela gravação de 1963, era o Chuck Webb no teclado e..." Eles sabem de tudo, e se você sentar e ouvir um pouco, você aprende tudo. g1 - Poxa, não sou um bom músico e nem um bom atleta também. Chris Isaak - Eu nunca me considerei um grande atleta nem um grande músico, mas eu gosto dessas coisas. O diretor David Lynch e Chris Isaac, cantor, ator e compositor, nos bastidores do filme 'Twin Peaks: Os Melhores Dias de Laura Palmer', lançado em 1992 Divulgação/CIBY Pictures g1 - Ter músicas em filmes, como você fez com David Lynch, pode mudar uma carreira e trazer um público novo. Como foi essa experiência para você? Chris Isaak - Na época em que comecei a trabalhar com o David Lynch, ele era apenas um nome novo para mim. Alguém disse: "Há um cara chamado David Lynch e ele está te ligando". O estúdio em que eu estava não era grande, era apenas uma salinha nos fundos com algumas máquinas. Sentávamos lá, sem janelas, e fazíamos discos. O David ligou e perguntou: "Eu queria saber se você tem mais músicas como 'Wicked Game' que eu possa usar". Eu respondi: "Por que você não vem até aqui e a gente faz o que você quiser? Deixe-me ouvir as suas ideias". E ele veio, eu tocava guitarra, fazíamos umas faixas e ele falava para mim quando tinha alguma ideia. Foi ótimo porque nos demos bem logo de cara, conseguimos nos comunicar musicalmente de imediato. Ele era um cara muito divertido de trabalhar, muito criativo. É uma pena que ele tenha partido tão cedo. Se não fumasse cinco maços de cigarro por dia, provavelmente ainda estaria aqui. g1 - Falando sobre 'Wicked Game', foi um sucesso que demorou pra acontecer [um 'sleeper hit'], algo que acontece até hoje com algumas músicas. Como foi para você ir entendendo e sentindo que a música estava se tornando um sucesso de forma tão lenta e orgânica? Chris Isaak - Foi um sucesso que demorou a pegar. “Wicked Game” saiu e o disco ficou nas lojas por uns sete ou oito meses antes de realmente decolar. E eu me lembro... nunca me considerei um grande especialista em escolher hits. Se alguém tocar as coisas para mim, posso dizer do que gosto, mas isso não significa que vai tocar no rádio. Mas com “Wicked Game”, minha banda tocava em bares, clubes e boates e era estranho porque as pessoas prestavam atenção de verdade. "Quando você toca em um bar na vida real, muita gente fica conversando, andando por aí, e não estão exatamente focadas no que você está fazendo. Mas quando tocávamos 'Wicked Game', era muito estranho, um tipo de silêncio tomava conta do lugar e as pessoas realmente ouviam." Fui o primeiro a falar com a banda: "Vocês notaram isso?". E eles responderam: "Sim, percebemos". Fui até a gravadora e marquei uma reunião com o chefe. Naquela época, não vendíamos muitos discos. Eu tinha medo de que, se me encontrasse com a gravadora, eles lembrariam que eu estava no catálogo e me demitiriam. Então, nunca queria ser visto. Mas marquei a reunião e disse: "Queremos dinheiro para fazer um clipe para 'Wicked Game'. Achamos que pode ser um sucesso". Eles disseram: "Não, agora já era, o disco já saiu há seis meses". A única forma de fazer o clipe foi porque o David Lynch interveio e disse "Eu vou fazer um clipe", e nos ajudou a fazer por conta própria. g1 - Sei que você muda bastante os setlists, mas claro que 'Wicked Game' está sempre lá. Como você canta todas as noites sem enjoar? Chris Isaak - Eu não só não fico enjoado dela, como também gostaria de ter 15 músicas iguais a ela para cantar todas as noites. É muito divertido de cantar e as pessoas cantarem junto. Ainda gosto da música. Por isso, nunca foi difícil. g1 - Você é um cara de sorte, porque já conversei com cantores que nem sempre gostam de seus maiores sucessos. Chris Isaak - Já ouvi falar de bandas que têm um hit muito diferente do que eles realmente fazem. O sucesso soa como um "frat rock" [rock sessentista mais simples] ou algo do tipo, mas na vida real o som deles é soul mexicano. Sinto pena, porque o público vai ao show esperando uma coisa e eles estão tentando fazer outra. No meu caso, "Wicked Game" é o exemplo perfeito do que eu gosto de fazer: baladas românticas e rock and roll. Chris Isaak no começo da carreira Divulgação/Site oficial do cantor g1 - Entendo perfeitamente. O Adam, do Counting Crows, não gosta de 'Mr. Jones', mas tem que tocar todas as noites [Chris ri]. Bom, existem artistas mais novos, como Joji e Stephen Sanchez, que soam como os cantores da era clássica da Sun Records. Chris Isaac - Não conheço esses dois, pode soletrar? [Ele pega papel e caneta] g1 - Eles fazem sucesso no TikTok com baladas mais lentas, orgânicas, meio anos 60. O que acha dessa nova era da música nostálgica? Por que tem gente se conectando com isso agora? Chris Isaak - Nenhuma música deveria ser descartada. Cresci ouvindo coisas dos anos 20, 30, 40, 50, 60. Ler livros antigos ou ouvir discos velhos ajuda a ter ideias para coisas novas. Você não precisa ouvir um disco dos anos 50 e soar como ele, mas pode tirar ideias que te levam a uma direção diferente. Uma coisa que espero que as pessoas façam é formar bandas, não só ficar criando faixas com vários canais no quarto, pelo computador. Há algo especial em tocar com outras pessoas. É muito divertido. g1 - É mesmo. Tenho medo de que até disso vamos sentir falta com a inteligência artificial. Chris Isaak - Sim. Quando você nos vê tocar ao vivo... você pensa: eles estão em sintonia juntos. E o meu guitarrista é... garanto que ele será o melhor guitarrista do lugar. Ele destrói. g1 - Você recentemente vendeu parte do seu catálogo, e muitos artistas estão vendendo seus direitos hoje em dia. Por que acha que isso está acontecendo tanto? Chris Isaak - As coisas estão incertas, as pessoas não sabem qual é o futuro da música e ficam nervosas. Mas eu nunca vendi as minhas coisas totalmente, quero sempre ter o controle sobre o que eu escrevi. Então mantive o controle. O resto é uma questão de negócios entre empresários, coisas pelas quais tenho um tédio mortal. g1 - Quando você pensa no Brasil e na música brasileira, o que vem à sua mente? Chris Isaak - Eu não sei nada sobre música brasileira. Minhas ideias sobre o Brasil são baseadas em desenhos animados e filmes dos anos 1930. É como quando as pessoas vinham para a Califórnia na época em que eu morava lá: elas usavam chapéus e botas de cowboy, porque achavam que a gente andava a cavalo. Estou ansioso para ver o Brasil, não tenho preconceitos. Quero levar uma mala com duas camisas, uma calça e o resto vazio. Porque aí, na volta, eu posso trazer um monte de discos brasileiros. g1 - Onde você mora hoje? Em Nashville? Chris Isaak - Estou em Nashville hoje, sim. Mas ainda tenho uma casa em San Francisco. g1 - Imagino que você escute vinil... Chris Isaak - Ouço bastante vinil. g1 - Eu sou mais do CD. Chris Isaak - Eu também sou... Hoje de manhã mesmo eu estava pensando que, a certa altura, passei todos os meus CDs para o computador, mas ainda prefiro os discos físicos. g1 - Eu coleciono. Sou jornalista musical, ganhei um monte e acabei me apegando a eles. Sou da época do CD, não do vinil... Chris Isaak - Eu tinha um aparelho para cinco CDs. Era fantástico. Dava para colocar os cinco e ainda selecionar um trecho para tocar em loop por 30 segundos. Se tivesse um riff de guitarra de que você gostasse, era só deixar tocando para praticar. Muito legal. Chris Isaac fez uma participação em 'Friends', em 1996, quando interpretou um músico que tem um romance com Phoebe (Lisa Kudrow) Divulgação g1 - Falando sobre atuar... você também é um ótimo ator, teve uma série de TV própria. Por que não o vemos atuando mais? Chris Isaak - Eu sempre atuei, mas nunca foi algo em que eu passasse meu tempo tentando arrumar papéis. As pessoas me convidavam e eu ficava feliz em participar, mas se me perguntar o que eu faço em casa... minha casa está cheia de guitarras espalhadas. Fiquei acordado até quatro da manhã de ontem tocando e compondo. Estou sentado aqui numa mesa cercado por listas de músicas, letras... esta é minha vida: tentar escrever músicas. g1 - Quem te influenciou mais nisso, Elvis Presley ou Roy Orbinson? Chris Isaak - O Orbinson na parte de composição. Ele levava as músicas para um lugar diferente, um pouco mais orquestrado, sombrio e temperamental. Eu gosto disso. Mas o Elvis é o rei. Fizemos um especial de TV do Elvis com vários artistas famosos e cada um escolheu sua canção favorita. Percebi que havia uns 23 artistas fantásticos ali, e nenhum de nós era melhor do que o Elvis. Ele é o rei. g1 - E para alguém mais novo... como explicar por que Elvis é o rei? Chris Isaak - Antes do Elvis, não havia nada. Depois dele, passou a existir o rock and roll. Antes do Scotty Moore, o guitarrista dele, só existia a guitarra country. Scotty Moore inventou o som do rock moderno. Adoro o Bing Crosby e o Dean Martin, mas o Elvis é intocável. Simplesmente perfeito. Como o Phil Spector disse uma vez: "Você não tem noção do quanto ele é bom". É a verdade. g1 - Agora temos as cinebiografias para apresentar essas lendas para um novo público, como o filme do Baz Luhrmann sobre o Elvis. Chris Isaak - É sempre levar esses artistas até as pessoas, porque assim elas vão pesquisar mais por conta própria. Eu descobri o Elvis em lojas de discos usados e fui atrás de todos os discos dele. A coletânea Sun Sessions é o ponto de partida. O rock and roll começa ali. g1 - Você coleciona itens do Elvis? Chris Isaak - Não sou tão empolgado com sso. Se alguém disser "olha, esses são os sapatos do Elvis", vou achar legal, mas o que sempre quis foi uma boa guitarra para tocar, não uma guitarra que alguém famoso tocou. Chris Isaak em show nos Estados Unidos em 2025 Divulgação/Instagram do cantor g1 - E quantas guitarras você tem? Chris Isaak - Eu diria umas 50, talvez um pouco mais. Mas eu preciso de todas elas. Acho que preciso de mais umas duas, aí vou ficar bem. As guitarras são igual a quem bebe demais e diz que só quer mais um drink. Muita gente que coleciona diz: "Esta é a minha Gibson de 1940 que vale um milhão". Eu pego as guitarras que os outros jogam fora. Minha favorita é uma Welson dos anos 60 da Itália. Comprei direto da traseira de uma van por 50 dólares e usei em discos. Eu gosto de guitarras esquisitas. É bom ter as baratas e as caras. No dia a dia toco uma Gibson, mas acho que cada guitarra tem um som único, é divertido testar algo e as pessoas se perguntarem "que som é esse?". g1 - Você se considera um artista de um sucesso só ('one-hit wonder')? Chris Isaak - Não, me considero sortudo por ter tido “Wicked Game”, “Blue Hotel”, “Baby Did” a “Bad Bad Thing” e “Somebody's Crying”. Tive diferentes sucessos em diferentes lugares do mundo. Isso me permitiu continuar no ramo por 40 anos. g1 - Entendo demais. Obrigado pelo seu tempo, tenha uma ótima viagem ao Brasil. Chris Isaak - Mal posso esperar para ver o Brasil. Não faço ideia do que vou encontrar, mas vai ser ótimo. Posso te perguntar uma coisa? Qual é a comida principal no Brasil? g1 - Americanos gostam muito do churrasco brasileiro, tipo carnes no espeto. Mas o prato tradicional mesmo é a feijoada, feijão preto com sobras de porco. Chris Isaak - Dá para pedir isso em qualquer restaurante? g1 - Sim, em todos os lugares. Chris Isaak - Vou provar os dois. A carne no espeto e a feijoada. g1 - Acho que você não vai se arrepender. Best of Blues and Rock 2026 Data: 20 a 22 de novembro de 2026 Local: Plateia externa do Auditório Ibirapuera, Parque Ibirapuera Endereço: Avenida Pedro Álvares Cabral, s/nº, Ibirapuera, São Paulo — SP Ingressos: entre R$ 406 e 1232 pelo Ticketmaster Sexta-feira — 20 de novembro Eddie Vedder Linka Moja Samuel Rosa Sábado — 21 de novembro Roger Daltrey Chris Isaak Christone “Kingfish” Ingram Artur Menezes Domingo — 22 de novembro Eddie Vedder Linka Moja Vitor Kley

