Cortes em programas sociais alimentam rejeição a Trump e podem influenciar eleições nos EUA

Guia Modelo Escrito em 30/10/2026


Pessoas fazem fila para receber alimentos durante uma distribuição do Banco Comunitário de Alimentos do sul do Arizona, na cidade de Tucson. Olivier Touron / France Presse Christine, uma viúva aposentada, coloca alimentos no carrinho durante uma ação de caridade no Arizona, nos Estados Unidos. Ela participa do evento todos os meses desde que o presidente Donald Trump promoveu cortes nos programas de assistência alimentar. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp AO VIVO: g1 faz cobertura completa das eleições nos EUA "Está tudo tão difícil", lamentou a mulher de 67 anos. Ela não revela o sobrenome para evitar que as crianças de 9 e 13 anos sob seus cuidados descubram como consegue colocar comida em casa. Até o ano passado, Christine recebia benefícios do Programa de Assistência Nutricional Suplementar (SNAP, na sigla em inglês). O auxílio, de centenas de dólares por mês, complementava sua modesta aposentadoria e ajudava a sustentar a família. Mas, em janeiro, cortes previstos na lei orçamentária sancionada por Trump retiraram cerca de cinco milhões de pessoas do programa. "Eles não se importam com a gente", disse Christine, com lágrimas nos olhos. "O governo Trump não se preocupa com o povo". Metade de sua aposentadoria é destinada ao pagamento do aluguel. A alta dos preços, agravada pelos efeitos da guerra contra o Irã, tornou ainda mais difícil sua situação financeira. MAPAS vão mostrar a apuração em tempo real Eleições EUA 2026: resultado ao vivo do Congresso no governo Trump Descontentamento pode se refletir nas urnas No banco de alimentos, Christine enche o carrinho com carne, tomates e abobrinhas. Sem a ajuda, diz, sua família não conseguiria comprar carne e teria de reduzir o consumo de verduras. O Arizona, no sudoeste dos Estados Unidos, está entre os estados mais afetados pelos cortes no SNAP. Mais de 465 mil beneficiários, incluindo 200 mil crianças, perderam o acesso ao programa. A redução da assistência alimenta o descontentamento da população e pode influenciar as eleições legislativas de 3 de novembro, conhecidas como eleições de meio de mandato. No Arizona, duas disputas pela Câmara dos Representantes são consideradas acirradas, em um cenário no qual os republicanos correm o risco de perder a maioria. "Muita gente está chateada", afirmou Natalie Jayroe, responsável pelo Banco Comunitário de Alimentos do sul do Arizona. "Inclusive pessoas que votaram no governo Trump". A rede de distribuição de alimentos atende neste ano 50 mil pessoas a mais do que o habitual, em parte devido aos cortes na assistência federal. "Se essas pessoas forem votar, podem fazer a diferença aqui no Arizona", disse Jayroe. "Mas a questão é: elas vão votar?". Entre caixas de verduras, Óscar Ochoa, de 65 anos, demonstra indignação. Ele também perdeu o acesso ao programa de auxílio alimentar e reclama de ter precisado voltar a trabalhar como motorista de ônibus depois de se aposentar. Veterano das Forças Armadas, Ochoa já votou pelo correio. Sua escolha foi "completamente azul", afirmou, em referência à cor associada ao Partido Democrata. LEIA TAMBÉM Eleições de meio de mandato nos EUA: como funciona o sistema eleitoral americano? Autoridades dos EUA temem interferência de Trump nas midterms; trumpistas do MAGA discutem lei marcial Após mínima histórica, aprovação de Trump sobe 1% e chega a 32% antes das eleições nos EUA Eleitores cobram mudanças Pessoas deixam o Banco Comunitário de Alimentos do sul do Arizona após receberem alimentos, em Tucson, no Arizona, em 17 de outubro de 2026. Olivier Touron / France Presse Ochoa afirma que a lei orçamentária beneficiou principalmente os mais ricos, ao prever reduções de impostos para bilionários. "Não beneficiou os pobres nem o americano médio", disse. Em um distrito eleitoral que abrange parte de Tucson, a democrata Joanna Mendoza concentra sua campanha no custo de vida. Ela destaca que cresceu em uma família que dependia de cupons de alimentação para comprar comida. Seu adversário, o republicano Juan Ciscomani, tenta se distanciar de Trump enquanto busca a reeleição. Ele promete que não será "marionete de ninguém". "Ele é um mentiroso", afirmou Angélica Garcia, de 45 anos, que trabalha como recepcionista. Durante um período em que ficou desempregada, ela tentou obter os benefícios do SNAP, mas o pedido demorou mais de dois meses para ser analisado em razão das mudanças nas regras do programa. Nesse intervalo, suas filhas, de 14 e 22 anos, tiveram de se alimentar basicamente de arroz, feijão e macarrão. "Sinto que o governo Trump tornou as coisas mais difíceis para as pessoas", disse. Antes das mudanças na política de assistência social, Garcia já tinha inclinação política à esquerda, mas não costumava se envolver em política. Ela sequer sabia quem era seu representante no Congresso. Agora, pede aos vizinhos que participem das eleições de 3 de novembro. "Temos que fazer valer a nossa voz", afirmou.