Atendimentos por fibromialgia crescem 35% em SP

Guia Modelo Escrito em 08/03/2026


Agora é lei: quem tem fibromialgia pode ser considerado PCD Os atendimentos ambulatoriais por fibromialgia cresceram 35% em 2025 no estado de São Paulo, de acordo com dados da Secretaria Estadual da Saúde. No ano passado, foram realizados 38.662 atendimentos ambulatoriais; em 2024, foram 28.640. Os números também mostram que os casos em que houve necessidade de internação por fibromialgia cresceram cinco vezes nos últimos três anos. Em 2023, foram 39 registros; em 2024, 118; e em 2025 o número saltou para 198. A medida é necessária, por exemplo, quando as crises de dor ficam mais intensas ou surgem agravamentos como a síndrome do intestino irritável. Na capital, o cenário também segue de alta: apenas em 2025, as Unidades Básicas de Saúde (UBSs) registraram 24.421 atendimentos, envolvendo 14.882 pacientes com suspeita ou diagnóstico de fibromialgia (CID M79.7). Fibromialgia é considerada deficiência Identificar a fibromialgia pode melhorar o tratamento e bem-estar Banco de imagens O aumento nos registros da rede pública de saúde vem com mudanças na legislação, que desde janeiro deste ano reconhece a fibromialgia como deficiência. A lei nº 15.176, sancionada em julho de 2025, amplia direitos e determina proteção às pessoas que convivem com fibromialgia, síndrome da fadiga crônica, dor regional complexa e condições correlatas. A fibromialgia é uma condição reumatológica marcada por dor generalizada, fadiga, distúrbios de sono, alterações cognitivas e ansiedade. As causas ainda não são totalmente compreendidas, e o diagnóstico é essencialmente clínico, feito por especialistas a partir da exclusão de outras doenças. A porta de entrada no SUS continua sendo a atenção básica, nas UBSs administradas pelos municípios, responsáveis pelo acompanhamento contínuo e encaminhamento, quando necessário, para serviços estaduais especializados. Atendimento multiprofissional na rede pública Compreender a fibromialgia é essencial para um tratamento eficaz Banco de imagens A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) oferece atendimento inicial para casos de fibromialgia nas 480 UBSs, onde equipes multiprofissionais avaliam cada caso e definem a linha de cuidado. A capital também conta com as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), utilizadas como parte do tratamento quando indicado. Outro eixo do cuidado na capital são os Centros de Referência da Dor (CR Dor), pioneiros no Brasil. O serviço, voltado a pessoas a partir de 13 anos com dor crônica há mais de três meses, funciona de segunda a sexta, das 7h às 19h. O encaminhamento é feito exclusivamente pelas UBSs. Desde 2021, o serviço registra crescimento contínuo, englobando as demandas de atendimento por diagnóstico de fibromialgia. Somando as seis unidades (Leste, Sudeste, Norte, Sul, Oeste e Centro), já foram contabilizados 667.804 atendimentos: 36.587 (2021) 40.552 (2022) 109.267 (2023) 250.094 (2024) 241.304 (2025) “É uma síndrome traiçoeira” A autônoma Ailana Torres Yassutake teve o diagnóstico de fibromialgia há mais de 10 anos Arquivo Pessoal A autônoma Ailana Torres Yassutake, moradora de Barueri, lembra que, na época do diagnóstico de fibromialgia, há dez anos, a doença era quase desconhecida. Foi preciso viajar para outros estados em busca de investigar o caso. “Passei por uma investigação ampla, consultando diversos especialistas, até ser encaminhada a um neuropsiquiatra em Goiânia. Saí de lá com o diagnóstico e comecei a entender o que estava acontecendo comigo”, conta. Ailana relata sintomas constantes, como dor generalizada, rigidez muscular, fadiga intensa, insônia e dificuldade de concentração – algo que muitos pacientes conhecem como “névoa mental”. Ao longo dos anos, desenvolveu ainda depressão, ansiedade, síndrome do intestino irritável e hoje passa por investigação de autismo tardio. O manejo da doença envolve diversos profissionais: psicólogo, psiquiatra, reumatologista, neurologista, ortopedista e fisioterapeuta. Ela usa medicamentos e tratamentos naturais, como diferentes formas de canabidiol. Para a ativista, que participou da mobilização pela aprovação da nova lei, o reconhecimento da fibromialgia como deficiência representa uma conquista coletiva: “É uma vitória. Lido com algo que ninguém vê. Penso nas mulheres que dependem do SUS, que esperam meses por consultas. A luta agora é pela implantação efetiva de tratamentos.” Desafios para o diagnóstico de fibromialgia O ortopedista Maurício Leite, que se especializou em fibromialgia e participou de discussões públicas para enquadrá-la como deficiência, explica que o diagnóstico da doença continua sendo 100% clínico. Não existe exame laboratorial ou de imagem capaz de confirmá-la. Muitos pacientes passam por exames apenas para descartar outras condições, como artrite reumatoide. “Os critérios estão muito bem definidos na literatura e há um protocolo da Sociedade Brasileira de Reumatologia”, afirma. Sobre o crescimento nos números, o médico aponta que o aumento de diagnósticos não significa aumento real da incidência. “Hoje há mais acesso à informação e a investigação é mais detalhada.” Dificuldades para quem encara a doença A fibromialgia se caracteriza por um padrão de sintomas oscilatório, com dias de melhora e outros de forte limitação. Isso interfere no diagnóstico e na vida social e profissional. Muitos pacientes se queixam de estigmas como “preguiça”. Embora possa haver períodos de incapacidade, a condição raramente gera incapacidade definitiva. Não existe uma medicação específica para fibromialgia. O tratamento é multidisciplinar e combina medicamentos para dor, acompanhamento psiquiátrico, psicoterapia, ajustes nutricionais, controle de comorbidades e atividade física supervisionada. O apoio familiar e social é considerado fundamental. Há também medidas de prevenção e controle, que incluem: rotina de sono adequada; atividade física acompanhada; alimentação equilibrada; manejo do estresse; acompanhamento médico contínuo.