Madonna mostra por que ainda é a Rainha do Pop em 'Confessions II', disco sofisticado e irresistível

Guia Modelo Escrito em 03/07/2026


'Confessions II’ é bela homenagem de Madonna a ela mesma e à pista de dança Título: "Confessions II" Artista: Madonna Nota: 9/10 “As pessoas pensam que a música dançante é superficial. Mas entenderam tudo errado. A pista de dança não é apenas um lugar. É uma fronteira. Um espaço ritualístico onde o movimento substitui a linguagem”, entoa Madonna em “One Step Away”, segunda faixa do disco “Confessions II”. A declaração resume não só o álbum, lançado nesta sexta (3), como a própria Madonna: uma artista que explora a interseção entre música pop, expressão, liberdade e intimidade. E volta a percorrer tudo isso em um disco bem azeitado. “Confessions II” é apresentado como uma “sequência” do aclamado “Confessions on a Dance Floor” (2005). Assim como o álbum de 2005, este disco explora a pista de dança, com uma sequência non-stop (uma música “vira” a outra, como um set de DJ). Ambos os álbuns têm a mão do habilidoso — e ainda impressionantemente moderno — produtor Stuart Price. Mas o melhor traço de “Confessions II” é que ele se ancora muito pouco no antecessor. Aqui, Madonna se autorreferencia, sim, mas de forma mais ampla e muito bem-vinda. É um disco com apelo popular e comercial, que vai caber bem nas pistas de dança e nas rádios. Mas "Confessions II" não abre mão da finesse da artista para se render ao mercado. Na verdade, parece que Madonna se lembrou de que sempre foi ela quem ditou a moda. Madonna na capa de 'Confessions II' Divulgação Dá pra imaginar de onde veio a inspiração. Madonna passou os últimos anos relembrando sua própria trajetória com a turnê “Celebration”, que veio para Copacabana em 2024. A partir disso, ela faz uma colagem do que a fez rainha das pistas para criar um novo (e ótimo) capítulo em sua discografia. "Confessions II" começa exuberante e maximalista, passeando pelo house dos anos 80 e influências de Donna Summer em "I Feel So Free" e "Good For The Soul". O passeio a leva no início da própria história, na disco-pop "Danceteria", definitivamente um destaque deste álbum. A música fala sobre uma discoteca que ela frequentava nos anos 70 em Nova York, com Basquiat, Keith Haring, Lou Reed… coisinha pouca. Para fãs de Madonna, não há o que reclamar. Ela está cantando bem, soando como Madonna. Da metade para o final, as músicas têm ecos de alguns dos seus melhores álbuns, com produções minimalistas e sensuais na linha de “Bedtime Story” e “Erotica” (“My Sins Are My Savior”, com o francês Stromae, e “Betrayal”). Até um pouco do disco “Ray of Light” aparece aqui, nas faixas finais. Se antes ela refletia sobre maternidade com a chegada da primeira filha, agora, dialoga com ela — Lola Leon, agora uma mulher adulta — no trip-hop da bela “The Test”. Tudo isso atesta a versatilidade da artista, que vê a música pop como um lugar de experimentação, desafio e vulnerabilidade. Para ela, o pop pode ser profundo. Esse traço de Madonna marca a segunda metade deste disco: de "Fragile" em diante, ela fica de fato confessional, refletindo sobre sua família, a perda do irmão Christopher (morto em 2024) e a passagem do tempo. Madonna em foto para o disco 'Confessions II' Divulgação Em meio a várias músicas sofisticadas, "Confessions II" tem outras menos interessantes, como "Read My Lips", com o colombiano Feid. A faixa tem elementos de pop latino e eurodance, mas não engaja muito. Além disso, pensando que este é um segundo "Confessions", não temos um hit eufórico e incontestável como "Hung Up". Mesmo assim, não é difícil cravar que este é o melhor álbum de Madonna dos últimos 20 anos — até porque os antecessores "Madame X", "Rebel Heart", "Hard Candy" e "MDMA" não entraram tão bem na discografia da cantora. Mais do que isso, "Confessions II" é irresistível, como as pistas de dança devem provar muito em breve. E é uma lembrança de que, não importa a idade, a última coisa que Madonna vai fazer é ficar parada. Ainda bem.