Módulo Halo da Gateway em uma instalação no Arizona. Nasa/Josh Valcarcel A Lunar Gateway é uma estação espacial planejada que orbitará a Lua. Ela faz parte da misão Artemis, liderado pela Nasa. A Artemis tem como objetivo levar humanos de volta à Lua, estabelecendo uma presença sustentável para fins científicos e comerciais e, eventualmente, alcançar Marte. No entanto, a estação espacial modular enfrenta agora atrasos, preocupações com custos e possíveis cortes de financiamento nos Estados Unidos. Isso levanta uma questão fundamental: uma estação espacial em órbita é realmente necessária para atingir os objetivos lunares, incluindo os científicos? A proposta orçamentária do presidente para 2026 buscou cancelar a Gateway. No fim, a pressão dentro do Senado levou à manutenção do financiamento para o posto avançado lunar. Mas o debate continua entre formuladores de políticas sobre seu valor e sua necessidade dentro do programa Artemis. Cancelar a Gateway também levantaria questões mais profundas sobre o futuro do compromisso dos EUA com a cooperação internacional no âmbito do Artemis. Isso poderia enfraquecer a influência dos EUA sobre as parcerias globais que definirão o futuro da exploração do espaço profundo. A Gateway foi projetada para apoiar essas ambições, atuando como ponto de apoio para missões tripuladas e robóticas (como veículos lunares), como plataforma para pesquisas científicas e como campo de testes para tecnologias essenciais para levar humanos a Marte. Trata-se de um empreendimento multinacional. Além da Nasa, participam quatro parceiros internacionais: a Agência Espacial Canadense, a Agência Espacial Europeia (Esa), a Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial e o Centro Espacial Mohammed Bin Rashid, dos Emirados Árabes Unidos. VEJA TAMBÉM: Artemis II: a contagem regressiva para a próxima missão à Lua A maioria dos componentes fornecidos por esses parceiros já foi produzida e entregue aos EUA para integração e testes. Mas o projeto tem sido marcado por aumento de custos e debates persistentes sobre seu valor. Se for cancelado, o abandono, pelos EUA, do componente mais multinacional do programa Artemis — em um momento em que a confiança nessas alianças está sob tensão sem precedentes — pode ter consequências amplas. A estação será montada módulo por módulo, com cada parceiro contribuindo com componentes e com a possibilidade de novos parceiros se juntarem ao longo do tempo. Objetivos estratégicos A Gateway reflete um objetivo estratégico mais amplo do Artemis: conduzir a exploração lunar por meio de parcerias com a indústria e outras nações, ajudando a distribuir os custos financeiros — em vez de ser um empreendimento exclusivamente dos EUA. Isso é especialmente importante diante da intensificação da competição, principalmente com a China. China e Rússia estão desenvolvendo seu próprio projeto lunar multinacional, uma base de superfície chamada Estação Internacional de Pesquisa Lunar. A Gateway poderia atuar como um importante contrapeso, reforçando a liderança dos EUA na Lua. Em seus 25 anos de operação, a Estação Espacial Internacional (ISS) recebeu mais de 290 pessoas de 26 países, além de seus cinco parceiros internacionais, incluindo a Rússia. Mais de 4.000 experimentos foram conduzidos nesse laboratório único. LEIA MAIS: Artemis II: após adiamentos, Nasa se prepara para voo tripulado à Lua; saiba tudo sobre a missão Treinamento extremo, pouco espaço e nenhum erro: os bastidores da missão Artemis II à Lua Em 2030, a ISS deverá ser substituída por estações espaciais privadas e nacionais separadas em órbita baixa da Terra. Nesse contexto, a Lunar Gateway poderia repetir o papel estratégico e estabilizador entre diferentes nações que a ISS desempenhou por décadas. No entanto, é essencial examinar cuidadosamente se o valor estratégico da Gateway corresponde, de fato, à sua viabilidade operacional e financeira. Pode-se argumentar que o restante do programa Artemis não depende da estação espacial lunar, o que torna suas justificativas cada vez mais difíceis de defender. Alguns críticos apontam questões técnicas; outros dizem que o propósito original da Gateway perdeu força; e há ainda os que defendem que as missões lunares podem avançar sem um posto avançado orbital. Exploração sustentável Os defensores argumentam que a Lunar Gateway oferece uma plataforma crítica para testar tecnologias no espaço profundo, possibilitar a exploração lunar sustentável, fomentar a cooperação internacional e estabelecer as bases para uma presença humana de longo prazo e uma economia na Lua. O debate agora se concentra em saber se existem formas mais eficazes de alcançar esses objetivos. Apesar das incertezas, parceiros comerciais e nacionais seguem comprometidos com suas entregas. A Esa está fornecendo o Módulo Internacional de Habitação (IHAB), além de sistemas de reabastecimento e comunicações. O Canadá está construindo o braço robótico da Gateway, o Canadarm3; os Emirados Árabes Unidos produzem um módulo de eclusa; e o Japão contribui com sistemas de suporte à vida e componentes de habitação. A empresa americana Northrop Grumman é responsável pelo desenvolvimento do Habitat and Logistics Outpost (Halo), e a empresa Maxar deve construir o elemento de energia e propulsão (PPE). Uma parte substancial desses equipamentos já foi entregue e está em fase de integração e testes. Se o projeto Gateway for encerrado, o caminho mais responsável para evitar desestimular futuros contribuintes de projetos Artemis seria estabelecer um plano claro para reaproveitar os equipamentos em outras missões. O cancelamento sem essa estratégia corre o risco de criar um vácuo que coalizões rivais poderiam explorar. Mas também pode abrir espaço para novas alternativas, potencialmente incluindo uma liderada pela Esa. A Esa reafirmou seu compromisso com a Gateway, mesmo que os EUA eventualmente reconsiderem seu próprio papel. Para nações espaciais emergentes, o acesso a um posto avançado como esse ajudaria a desenvolver suas capacidades em exploração. Esse acesso se traduz diretamente em influência geopolítica. Empreendimentos espaciais são caros, arriscados e frequentemente difíceis de justificar perante o público. Ainda assim, a exploração sustentável além da órbita da Terra exigirá uma abordagem colaborativa de longo prazo, em vez de uma série de missões isoladas. Se a Gateway não fizer mais sentido técnico ou operacional para os EUA, seus benefícios ainda poderão ser alcançados por meio de outro projeto. Ele poderia estar localizado na superfície lunar, integrado a uma missão a Marte ou assumir uma forma completamente nova. Mas, se os EUA descartarem o valor da Gateway como posto avançado de longo prazo sem garantir que seus benefícios mais amplos sejam preservados, correm o risco de perder uma oportunidade que moldará sua influência de longo prazo na confiança internacional, na liderança e no futuro da cooperação espacial. *Berna Akcali Gur é professor de Direito Espacial na Queen Mary University London. **Este texto foi publicado originalmente no site do The Coversation.
Lunar Gateway: por que construir uma estação espacial que vai orbitar a Lua?
Guia Modelo Escrito em 12/02/2026
Módulo Halo da Gateway em uma instalação no Arizona. Nasa/Josh Valcarcel A Lunar Gateway é uma estação espacial planejada que orbitará a Lua. Ela faz parte da misão Artemis, liderado pela Nasa. A Artemis tem como objetivo levar humanos de volta à Lua, estabelecendo uma presença sustentável para fins científicos e comerciais e, eventualmente, alcançar Marte. No entanto, a estação espacial modular enfrenta agora atrasos, preocupações com custos e possíveis cortes de financiamento nos Estados Unidos. Isso levanta uma questão fundamental: uma estação espacial em órbita é realmente necessária para atingir os objetivos lunares, incluindo os científicos? A proposta orçamentária do presidente para 2026 buscou cancelar a Gateway. No fim, a pressão dentro do Senado levou à manutenção do financiamento para o posto avançado lunar. Mas o debate continua entre formuladores de políticas sobre seu valor e sua necessidade dentro do programa Artemis. Cancelar a Gateway também levantaria questões mais profundas sobre o futuro do compromisso dos EUA com a cooperação internacional no âmbito do Artemis. Isso poderia enfraquecer a influência dos EUA sobre as parcerias globais que definirão o futuro da exploração do espaço profundo. A Gateway foi projetada para apoiar essas ambições, atuando como ponto de apoio para missões tripuladas e robóticas (como veículos lunares), como plataforma para pesquisas científicas e como campo de testes para tecnologias essenciais para levar humanos a Marte. Trata-se de um empreendimento multinacional. Além da Nasa, participam quatro parceiros internacionais: a Agência Espacial Canadense, a Agência Espacial Europeia (Esa), a Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial e o Centro Espacial Mohammed Bin Rashid, dos Emirados Árabes Unidos. VEJA TAMBÉM: Artemis II: a contagem regressiva para a próxima missão à Lua A maioria dos componentes fornecidos por esses parceiros já foi produzida e entregue aos EUA para integração e testes. Mas o projeto tem sido marcado por aumento de custos e debates persistentes sobre seu valor. Se for cancelado, o abandono, pelos EUA, do componente mais multinacional do programa Artemis — em um momento em que a confiança nessas alianças está sob tensão sem precedentes — pode ter consequências amplas. A estação será montada módulo por módulo, com cada parceiro contribuindo com componentes e com a possibilidade de novos parceiros se juntarem ao longo do tempo. Objetivos estratégicos A Gateway reflete um objetivo estratégico mais amplo do Artemis: conduzir a exploração lunar por meio de parcerias com a indústria e outras nações, ajudando a distribuir os custos financeiros — em vez de ser um empreendimento exclusivamente dos EUA. Isso é especialmente importante diante da intensificação da competição, principalmente com a China. China e Rússia estão desenvolvendo seu próprio projeto lunar multinacional, uma base de superfície chamada Estação Internacional de Pesquisa Lunar. A Gateway poderia atuar como um importante contrapeso, reforçando a liderança dos EUA na Lua. Em seus 25 anos de operação, a Estação Espacial Internacional (ISS) recebeu mais de 290 pessoas de 26 países, além de seus cinco parceiros internacionais, incluindo a Rússia. Mais de 4.000 experimentos foram conduzidos nesse laboratório único. LEIA MAIS: Artemis II: após adiamentos, Nasa se prepara para voo tripulado à Lua; saiba tudo sobre a missão Treinamento extremo, pouco espaço e nenhum erro: os bastidores da missão Artemis II à Lua Em 2030, a ISS deverá ser substituída por estações espaciais privadas e nacionais separadas em órbita baixa da Terra. Nesse contexto, a Lunar Gateway poderia repetir o papel estratégico e estabilizador entre diferentes nações que a ISS desempenhou por décadas. No entanto, é essencial examinar cuidadosamente se o valor estratégico da Gateway corresponde, de fato, à sua viabilidade operacional e financeira. Pode-se argumentar que o restante do programa Artemis não depende da estação espacial lunar, o que torna suas justificativas cada vez mais difíceis de defender. Alguns críticos apontam questões técnicas; outros dizem que o propósito original da Gateway perdeu força; e há ainda os que defendem que as missões lunares podem avançar sem um posto avançado orbital. Exploração sustentável Os defensores argumentam que a Lunar Gateway oferece uma plataforma crítica para testar tecnologias no espaço profundo, possibilitar a exploração lunar sustentável, fomentar a cooperação internacional e estabelecer as bases para uma presença humana de longo prazo e uma economia na Lua. O debate agora se concentra em saber se existem formas mais eficazes de alcançar esses objetivos. Apesar das incertezas, parceiros comerciais e nacionais seguem comprometidos com suas entregas. A Esa está fornecendo o Módulo Internacional de Habitação (IHAB), além de sistemas de reabastecimento e comunicações. O Canadá está construindo o braço robótico da Gateway, o Canadarm3; os Emirados Árabes Unidos produzem um módulo de eclusa; e o Japão contribui com sistemas de suporte à vida e componentes de habitação. A empresa americana Northrop Grumman é responsável pelo desenvolvimento do Habitat and Logistics Outpost (Halo), e a empresa Maxar deve construir o elemento de energia e propulsão (PPE). Uma parte substancial desses equipamentos já foi entregue e está em fase de integração e testes. Se o projeto Gateway for encerrado, o caminho mais responsável para evitar desestimular futuros contribuintes de projetos Artemis seria estabelecer um plano claro para reaproveitar os equipamentos em outras missões. O cancelamento sem essa estratégia corre o risco de criar um vácuo que coalizões rivais poderiam explorar. Mas também pode abrir espaço para novas alternativas, potencialmente incluindo uma liderada pela Esa. A Esa reafirmou seu compromisso com a Gateway, mesmo que os EUA eventualmente reconsiderem seu próprio papel. Para nações espaciais emergentes, o acesso a um posto avançado como esse ajudaria a desenvolver suas capacidades em exploração. Esse acesso se traduz diretamente em influência geopolítica. Empreendimentos espaciais são caros, arriscados e frequentemente difíceis de justificar perante o público. Ainda assim, a exploração sustentável além da órbita da Terra exigirá uma abordagem colaborativa de longo prazo, em vez de uma série de missões isoladas. Se a Gateway não fizer mais sentido técnico ou operacional para os EUA, seus benefícios ainda poderão ser alcançados por meio de outro projeto. Ele poderia estar localizado na superfície lunar, integrado a uma missão a Marte ou assumir uma forma completamente nova. Mas, se os EUA descartarem o valor da Gateway como posto avançado de longo prazo sem garantir que seus benefícios mais amplos sejam preservados, correm o risco de perder uma oportunidade que moldará sua influência de longo prazo na confiança internacional, na liderança e no futuro da cooperação espacial. *Berna Akcali Gur é professor de Direito Espacial na Queen Mary University London. **Este texto foi publicado originalmente no site do The Coversation.

