O voto que faltou: Abstenção passa de 32% em bairro de Uberaba e expõe desigualdade na participação eleitoral no 1º turno

Guia Modelo Escrito em 23/10/2026


Diferença de ausência no primeiro turno entre bairros de Uberaba passa de 13 pontos percentuais ROBERTO CASIMIRO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO A abstenção variou significativamente entre os bairros de Uberaba no primeiro turno das Eleições 2026 e reforçou um padrão observado em pleitos anteriores: áreas mais periféricas e de menor renda costumam concentrar os maiores percentuais de abstenção. Veja o mapa mais abaixo. Enquanto algumas regiões registraram índices de ausência abaixo de 20%, o bairro Santa Cecília apresentou a maior taxa da cidade: 32,68%. Os dados são dos resultados das zonas eleitorais da cidade disponíveis no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Triângulo no WhatsApp Na outra ponta da lista, o bairro São Cristóvão, na região mais central de Uberaba, apresentou a menor taxa de abstenção: 13,51%. Seguido por Fabrício (20,07%) e Mercês (20,24%). Segundo o professor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Moacir de Freitas Júnior, há uma relação histórica entre os maiores índices de abstenção e regiões com população de renda mais baixa, embora não seja possível afirmar uma causa única para o fenômeno. "O eleitorado de menor renda, historicamente, é o que mais se abstém. Existem fatores como dificuldades de deslocamento, questões cadastrais e obstáculos da vida cotidiana que podem influenciar essa decisão", explicou. Abstenção nos bairros de Uberaba Distância passa de 13 pontos percentuais Os números revelam uma distância de 13,23 pontos percentuais entre o bairro com maior e o de menor abstenção. Enquanto um em cada três eleitores deixou de votar no Santa Cecília, no São Cristóvão a participação foi de quase nove em 10 eleitores. Para Moacir de Freitas Júnior, além das dificuldades práticas, há uma percepção de distanciamento entre a política e os problemas do dia a dia de parte da população. Segundo ele, muitos eleitores acreditam que o voto não terá impacto concreto em suas vidas, o que contribui para o afastamento do processo eleitoral. "Ele pensam: não importa se eu for votar ou não, porque no dia seguinte eu tenho que trabalhar do mesmo jeito, então eu não vou. E aproveitam o domingo com a minha família e não vão. Se desconectam da política." LEIA TAMBÉM: O voto que faltou: veja como mudou a abstenção entre 1º e 2º turnos em Uberaba ao longo de 24 anos Grandes colégios eleitorais puxam participação e têm menor abstenção no 1º turno no Triângulo e Alto Paranaíba Dezesseis deputados do Triângulo Mineiro e região são eleitos para o Congresso e a Assembleia; veja lista O que explica as diferenças? Para Moacir de Freitas, a concentração da abstenção em determinados territórios pode estar associada a fatores socioeconômicos e de acesso, embora pesquisas específicas sejam necessárias para confirmar as causas. Segundo ele, historicamente os maiores índices costumam aparecer em regiões onde vivem pessoas com menor renda e escolaridade. O professor aponta que mudanças de endereço, pendências eleitorais e dificuldades de deslocamento frequentemente entram na equação. "Tudo isso provavelmente são fatores que vão influenciar. Pode acontecer de a pessoa morar hoje em um lugar diferente daquele onde está cadastrada e acabar não votando por causa do deslocamento ou por questões burocráticas", disse. De acordo com ele, a logística é um grande obstáculo, mesmo o transporte público sendo gratuito nos dias de eleições. Desinteresse e sensação de distância da política Além dos obstáculos práticos, o especialista avalia que parte da abstenção está relacionada ao afastamento dos eleitores do debate político. "Quanto mais pressionadas pelas dificuldades do dia a dia as pessoas estão, mais podem se desconectar da política. Muitas vezes chega-se à conclusão de que votar ou não votar não muda a rotina imediata, embora isso não seja verdade", afirmou. Para ele, existe uma dificuldade em associar decisões políticas aos impactos concretos na vida da população. "É difícil conectar a política com quem está preocupado em resolver problemas urgentes, como pagar contas ou sustentar a família. Mas a vida real e a política são uma coisa só". O que observar no segundo turno Na avaliação de Moacir, disputas equilibradas tendem a mobilizar mais eleitores, o que pode ajudar a reduzir a abstenção no segundo turno. "Quando a eleição está acirrada, as pessoas tendem a participar mais porque já tomaram partido e fazem questão de demonstrar essa escolha nas urnas", afirmou. O especialista pondera, porém, que a ausência de uma disputa estadual em segundo turno pode atuar no sentido contrário. "Como não haverá segundo turno para governador, isso reduz o volume da campanha. Algumas pessoas podem até esquecer que há votação. Ainda assim, a tendência é de uma participação semelhante à observada em eleições muito disputadas". O professor avalia que o cenário atual se assemelha ao observado em 2022, quando o segundo turno registrou maior engajamento do eleitorado em relação ao primeiro dia de votação. Abstenções em Uberaba em eleições gerais Entrevista exclusiva: Cleitinho fala sobre desafios do governo e formação da equipe VÍDEOS: Veja tudo sobre o Triângulo Mineiro